A sociedade tem forte demanda por ciência de acesso aberto

Por Ernesto Spinak

Importância do Acesso Aberto para a Ciência

Os defensores do acesso aberto argumentam que as pessoas precisam de informação científica, mesmo que estes defensores não tenham evidências para demonstrá-la. O estudo Widespread use of National Academies consensus reports by the American public1 publicado recentemente no Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), que analisou as opiniões de 1,6 milhão de usuários que baixaram documentos em acesso aberto das Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina (National Academies of Science, Engineering, and Medicine, NASEM), consideradas entre as de maior credibilidade da literatura baseada em ciência, revelou uma questão muito interessante.

Usando o modelo de Aprendizagem de Processamento de Linguagem Natural (Bidirectional Encoder Representations from Transformers, BERT) recém-desenvolvido pelo Google, as diferenças sutis no significado de milhões de comentários destas pessoas foram analisadas para compreender suas necessidades e objetivos. Os resultados revelaram adultos motivados a buscar fontes mais confiáveis, interagir com materiais desafiantes, usá-los para melhorar os serviços que prestam e aprender mais sobre o mundo em que vivem. A imagem contrasta fortemente com a narrativa de que o público em geral é mal-informado e manipulado por conspiradores à espreita na Internet.

De acordo com a Wikipedia, BERT é uma técnica baseada em redes neurais para pré-treinamento de processamento de linguagem natural (NLP) desenvolvida pelo Google. BERT foi criado e publicado em 2018 pelo Google, que se vale do aplicativo para melhor compreender as pesquisas com os usuários.

A análise dos dados das 1,6 milhão de consultas foi conduzida pela Georgia Tech School of Public Policy da Georgia Tech, que promove o uso de aprendizagem por máquina nas ciências sociais e uma compreensão da importância do acesso aberto para a informação baseada em ciência para cidadãos comuns dos EUA.

Os resultados proporcionam evidência detalhada em nível nacional de como o público usa informação em acesso aberto baseada em ciência. Constatou-se que aproximadamente 48% dos informes foram baixados para fins acadêmicos: pesquisa, ensino, estudo e interesses afins. Um resultado que não surpreende pela natureza dos informes consultados, densamente científicos e destinados principalmente a atender às necessidades técnicas dos órgãos federais.

No entanto, são os outros usos que mais interessam aos pesquisadores.

Aprender pelo gosto de aprender

A outra metade dos comentários revela adultos em todo o país que buscam informação da mais alta qualidade para melhorar a maneira como realizar seu trabalho, ajudar aos membros da família, satisfazer sua curiosidade e permanecer no aprendizado ao longo da vida.

Segundo um dos pesquisadores, Diana Hicks:

Este estudo mostra uma forte demanda entre os cidadãos comuns por informação da mais alta qualidade para ajudá-los a melhorar em seus empregos, ajudar suas famílias, vizinhos e comunidades e, em alguns casos, simplesmente aprender por aprender.1

Aproximadamente 150.000 downloads foram classificados como relacionados a “uso pessoal”, incluindo tópicos como cannabis, morte, culturas geneticamente modificadas e redução da violência armada. Mais de 25.000 médicos e enfermeiros baixaram informes com planos de usar os detalhes para melhorar seu trabalho clínico.

Cidadãos “inatamente curiosos”

Na opinião dos autores, em geral, os resultados apontam para uma ampla e impressionante disseminação de conhecimento decorrente da decisão das Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina (NASEM) de disponibilizar gratuitamente os informes.

Isso não significa que a desinformação nas redes sociais não seja um problema, pois, de fato, ela existe. As plataformas de mídia social estão repletas de milhões de postagens falsas e enganosas, muitas delas publicadas por bots, que podem ajudar a alimentar a crença em teorias da conspiração, desinformação e até desinformação patrocinada pelo Estado.

Neste caso, no entanto, o estudo mostra um público que, apesar da narrativa generalizada lamentando a politização da ciência e a desconfiança dos cientistas, ainda está recorrendo a especialistas para ajudar a resolver um mundo complicado e em constante mudança.

Sabendo da importância de tal informação, os formuladores de políticas deveriam ser incentivados a promover e proteger o acesso aberto à informação científica.

Nota

1. HICKS, D., et al. Widespread use of National Academies consensus reports by the American public. Proceedings of the National Academy of Sciences [online]. 2022, vol. 119, no. 9 [viewed 16 March 2022]. https://doi.org/10.1073/pnas.2107760119. Available from: https://www.pnas.org/doi/10.1073/pnas.2107760119

Referências

HICKS, D., et al. Widespread use of National Academies consensus reports by the American public. Proceedings of the National Academy of Sciences [online]. 2022, vol. 119, no. 9 [viewed 16 March 2022]. https://doi.org/10.1073/pnas.2107760119. Available from: https://www.pnas.org/doi/10.1073/pnas.2107760119

Links externos

BERT (language model) – Wikipedia: https://en.wikipedia.org/wiki/BERT_(language_model)

Georgia Tech: https://www.gatech.edu/

PNAS: https://www.pnas.org/

 

Sobre Ernesto Spinak

Colaborador do SciELO, engenheiro de Sistemas e licenciado em Biblioteconomia, com diploma de Estudos Avançados pela Universitat Oberta de Catalunya e Mestre em “Sociedad de la Información” pela Universidad Oberta de Catalunya, Barcelona – Espanha. Atualmente tem uma empresa de consultoria que atende a 14 instituições do governo e universidades do Uruguai com projetos de informação.

 

Traduzido do original em espanhol por Lilian Nassi-Calò.

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

SPINAK, E. A sociedade tem forte demanda por ciência de acesso aberto [online]. SciELO em Perspectiva, 2022 [viewed ]. Available from: https://blog.scielo.org/blog/2022/03/16/a-sociedade-tem-forte-demanda-por-ciencia-de-acesso-aberto/

 

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