SciELO Livros e o acesso aberto em tempos epidêmicos: Mais importante que nunca

Por Gilberto Hochman

Pesquisador da Fiocruz, Editor Científico da Editora Fiocruz e Editor Adjunto de Ciência & Saúde Coletiva

Em meio a pandemia do COVID-19 as redes sociais estão aplaudindo a franquia de acesso aberto a livros, capítulos de livros, dados e enciclopédias em todas as áreas de conhecimento por parte de tradicionais editoras universitárias estrangeiras, bases como JSTOR e Project Muse, e de publishers variados. As necessárias políticas de isolamento social, e mesmo de quarentena, levaram ao fechamento das instituições de pesquisa, das universidades, das bibliotecas e dos arquivos. E, com isso, a redução drástica dos canais de acesso ao conhecimento, particularmente nos países fora do circuito central da ciência do século XXI. A oferta é meritória e deve ser comemorada e usufruída. Todavia esse acesso aberto tem prazo de validade: o final da pandemia.1 Independente de sua duração, passada a emergência sanitária internacional o acesso voltará a ser pago, seja por indivíduos, instituições de ensino e pesquisa e por agências governamentais com imenso ônus para os países do Sul Global. Quem experimentou e gostou deverá pagar para continuar. O acesso aberto ao conhecimento científico não é rotina nem compromisso dos publishers mas um negócio e uma exceção como a pandemia. Nesse sentido, o SciELO Livros é mais importante hoje do que nunca.

Criado há exatamente oito anos no contexto do Programa SciELO, o SciELO Livros contou com a participação pioneira da Editora Fiocruz, da Editora da Unesp e da Editora da Universidade Federal da Bahia. Em sua origem, a urgência de promover e valorizar o livro acadêmico produzido por editoras universitárias brasileiras. E, também, a compreensão que a valorização do livro era indissociável de uma política de acesso aberto para a comunicação do conhecimento científico e sua internacionalização. Inspirado no SciELO Periódicos criado em 1998, a plataforma de livros foi criada em um momento que pairava a desconfiança no formato digital para livros e na sua disponibilização em acesso aberto. Dúvidas partilhadas por autores, leitores e mesmo por editoras universitárias. A própria sustentação econômica do acesso aberto a livros e a periódicos era, e continua sendo, um desafio. A combinação na mesma plataforma do acesso aberto, com maior número de livros, e do acesso comercial foi a solução encontrada para o financiamento da iniciativa. Um comitê científico e consultivo foi criado para garantir a qualidade das editoras e dos livros que serão indexados e disponibilizados em SciELO.

Oito anos depois os números são expressivos: 19 editoras, 5 coleções, 766 livros e 10380 capítulos em acesso aberto e quase 93 milhões de downloads. Um alcance inimaginável para um país que tem pouquíssimas livrarias e uma grande parcela da população com reduzido poder aquisitivo. Não há dúvida que o SciELO Livros acompanha a expansão da universidade brasileira e, ao mesmo tempo, lhe oferece gratuitamente recursos educacionais fundamentais: os livros. Mais ainda, alcançou Portugal, os países de língua portuguesa na África e os interessados na produção acadêmica brasileira em livros em todos os continentes. Como resultado não antecipado, e não necessariamente conhecido, é que o SciELO Livros faz parte da diplomacia cultural e científica brasileira. Cresceu geograficamente permitindo que a produção científica e intelectual enraizada em problemas regionais pudesse ser conhecida e se torna progressivamente uma plataforma de acesso aberto ao livro universitário latino-americano com o ingresso de casas editoriais de diferentes países da região. Um outro resultado importante é um esforço de revalorização do livro acadêmico como produção científica a partir do acesso aberto em uma plataforma com filtros de qualidade.2 Se ele tem historicamente, e ainda hoje, um lugar destacado nas ciências humanas, esse destaque tem sido desafiado pela grande valorização nos processos avaliativos (individuais, institucionais e da pós-graduação) de artigos em periódicos científicos.3 A revalorização do livro acadêmico será também a valorização, tão urgente, das ciências humanas e sociais. Os impactos da circulação e difusão de livros acadêmicos de acesso aberto certamente ainda precisam ser apreendidos por métricas específicas e incorporados pelas agências de fomentos em educação, ciência e tecnologia. Mas os milhões de downloads são indicadores relevantes para o início dessa conversa.

O SciELO Livros, portanto, não é uma oferta passageira para degustação dos leitores em tempos febris. Não é uma ação eventual em emergências sanitárias. É parte integrante de uma política pública de acesso aberto ao conhecimento que vem se consolidando no Brasil há 2 décadas e que vem mudando a ecologia da publicação científica nacional, particularmente no campo dos periódicos, mas que se estende decisivamente para o livro universitário. Respostas às crises sanitárias têm como suporte esses acervos de conhecimento aberto. Há dez anos estávamos discutindo qual seria o futuro do livro impresso no mundo cada vez mais digital, mas composto de sociedades desiguais. O SciELO Livros tem sido uma das boas e perenes respostas: o futuro do livro é o do conhecimento acessível e apropriável pelo maior número de leitores e progressivamente alinhado com a ciência aberta.

Notas

1. Free Resources on MUSE During COVID-19 [online]. Project Muse. 2020 [viewed in 13 April 2020]. Available from: https://about.muse.jhu.edu/resources/freeresourcescovid19/

2. Uma mesa-redonda sobre livros foi realizada no 43o Encontro Nacional da ANPOCS em outubro de 2019 com a participação de Cynthia Sarti (Unifesp), Michel Misse (UFRJ), Gilberto Hochman (Fiocruz) e Daniela Alves (UFV). Provavelmente a primeira em décadas vis-à-vis a discussão as contínuas mesas sobre periódicos científicos nas ciências sociais.

3. Dados extraídos do SciELO Periódicos indicam majoritariamente que as revistas de ciências sociais e humanidades citaram mais livros e capítulos do que artigos nos últimos 10 anos. Agradeço a Rogério Mugnaini e Amanda Ramalho pela informação.

Referência

Free Resources on MUSE During COVID-19 [online]. Project Muse. 2020 [viewed in 13 April 2020]. Available from: https://about.muse.jhu.edu/resources/freeresourcescovid19/

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

HOCHMAN, G. SciELO Livros e o acesso aberto em tempos epidêmicos: Mais importante que nunca [online]. SciELO em Perspectiva, 2020 [viewed ]. Available from: https://blog.scielo.org/blog/2020/04/13/scielo-livros-e-o-acesso-aberto-em-tempos-epidemicos-mais-importante-que-nunca/

 

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