Eu escrevi isso… eu não escrevi isso… agora escrevo outra coisa…

Por Ernesto Spinak

Diferentemente do revisionismo histórico onde “o passado resulta ser imprevisível”, assume-se que a pesquisa científica se constrói sobre revisões cumulativas e é o futuro que se apresenta imprevisível.

A sociedade espera que o conhecimento científico seja baseado em pesquisas confiáveis e resultados críveis, conduzidos por equipes de profissionais regidos por códigos de ética e protocolos experimentais provados. É característica do conhecimento científico a capacidade de predizer resultados. É lógico esperar que novos descobrimentos modifiquem conhecimentos anteriores, os ampliem e inclusive, às vezes, os refutem completamente. Está na mecânica das coisas.

Nos processos de pesquisa pode-se produzir erros, ou oferecer-se resultados incompletos ou sem a precisão necessária, ou cujas conclusões não estão devidamente fundamentadas. A pressão por publicar e determinar prioridades nos resultados muitas vezes conspira contra a maior precisão e transparência da pesquisa e, às vezes, lamentavelmente, há fraudes, manipulação de dados, plágio, e outras práticas contrárias à ética. Porém são poucas. É por isso que existem os processos de avaliação por pares, o controle editorial, as normas éticas e toda uma serie de procedimentos que foram sendo elaborados por consenso ao longo de décadas. Um destes procedimentos está relacionado com o reconhecimento de erros em artigos já publicados, e como modificam-se ou cancelam-se, e como informa-se à comunidade científica para que tome-se devida nota.

O sistema tradicional de publicação científica surgido no mundo do papel terminava em um artigo publicado em um periódico que, salvo exceções, considerava-se como o ponto final do processo, algo estático que raramente seria mudado e que, eventualmente, seria citado por outros pesquisadores. Quando surgia a necessidade de fazer correções ou retratações de um artigo publicado, começava-se todo um processo longo e complexo que podia durar um ou dois anos, até que finalmente publicava-se uma nota no mesmo periódico ou, às vezes, em outro periódico. Entretanto, a comunidade científica nem sempre estava informada desta eventualidade e o artigo original com erros podia continuar sendo citado em sua versão original.

O sistema tradicional de publicação de periódicos científicos não estimula os pesquisadores a realizar alterações pós-publicação necessárias a um artigo, inclusive sendo recomendável e agindo de boa fé. Ademais, há uma resistência pelos autores a publicar notas de alterações sob a etiqueta “retratações”, pois o termo inclui muitos matizes, desde alterações não significativas, importantes, ou completas, até retratações por erros graves, plágio, fabricação de dados e má fé.

Afortunadamente, este cenário editorial está deixando de ser o quadro real, está entrando rapidamente em obsolescência e deve ser mudado. Hoje em dia, com servidores de preprints, DOI, revisão por pares aberta pré e pós-publicação, assim como o acesso aberto ao texto e dados, o cenário da comunicação científica está dando um giro copernicano. Como comentou-se em um post anterior1 os periódicos científicos serão a etapa estável de um processo dinâmico e recursivo de publicação, onde os artigos não necessariamente estarão fechados. Os artigos poderiam estar em versão beta por longo tempo (como o buscador Google, que não tem nada de mal).

É assim que quatro autores afiliados à COPE, Crossref e BioMed Central acabam de publicar na semana de 20 de março de 2017 um preprint2 no bioRxiv que crava o bisturi no mesmo centro do problema e sugere uma solução geral e efetiva que moderniza a dinâmica das publicações e suas ulteriores modificações à altura do melhor estado da arte.

A ideia central dos autores é que deve-se ter consciência de que um artigo publicado não tem porque permanecer sem alterações e estático para sempre. Também que os manuais do COPE em sua última versão de 20093 sobre retratações não refletem as diferentes situações, pois a mesma terminologia usada neste manual assume que mudar algo é uma espécie de admissão de culpa.

Em consequência, será preciso gerar uma nova nomenclatura e instrumentar procedimentos mais simples e abreviados que vinculem corretamente as referências bibliográficas aos artigos em sua última versão disponível, com suas eventuais correções, e a partir desta versão, gerar as cadeias de vínculos com as versões anteriores. Tudo isso usando uma modificação inteligente dos números de DOI com uma aplicação do Crossref4. Esta prática permitiria registrar as referências bibliográficas com exatidão de uma maneira que nunca antes foi possível. Os pesquisadores poderiam citar a última versão de um artigo ou, se desejarem, uma versão anterior, sem se importar se é uma versão preprint, ou postprint ou uma cópia institucional, original ou corrigida. E esta proposta não é somente para os artigos, pois pode se estender também aos protocolos registrados de experimentos, e a datasets em acesso aberto.

Os autores do artigo propõem um modelo onde o termo “retratação” e seus sinônimos são substituídos por um termo geral de semântica neutra, ou “emenda” e por sua vez estabelecem uma tipologia de emendas com diferentes escalas e efeitos na mensagem com a seguinte escrita de metadados:

  • Declaração geral que indica “O autor e/ou o periódico deseja fazer as seguintes emendas ao seguinte artigo publicado [referência]”.
  • Tipo de emenda: (baseada na seguinte escala)
    • Não substantiva (erratas, problemas tipográficos, etc.)
    • Substantiva: correções, partes que são substituídas, autoria, adição de evidências
    • Completa: o artigo em sua forma atual deve ser alterado, o que inclui, ademais, as retratações.
  • Elementos da emenda
    • Quem faz a correção, o autor, o editor, a instituição, etc.
    • O tipo de emenda, referida à escala anterior
    • Link para a publicação que está sendo emendada e outros links relevantes associados
    • Data
    • Notas de escopo.

O procedimento de parte do editor do periódico é muito direto e pode ser realizado em breve tempo. O modelo analizado no artigo referido compara o processo atual recomendado pelo COPE (dois anos) com o tempo requerido com o novo modelo que se estima em 3 meses, dependendo da frequência do periódico. Recomenda-se ver o exemplo no artigo citado2 nas páginas 8-11.

A outra parte do modelo recomendado tem relação com a apresentação online ao público e os links usando as cadeias de DOI.

Se bem que cada editor usa seu próprio desenho para apresentação de conteúdos, o artigo sugere a seguinte implementação:

  • Cada emenda deve ter um link ao artigo que modifica, e vice-versa.
  • Versionamento de artigo: cada versão sucessiva do artigo deve ter um DOI próprio, assim como uma URL persistente, e os artigos devem indicar a data da versão. Quando um artigo está vinculado diretamente à homepage de um periódico, este link deve apontar para a versão mais recente.
  • Emendas gerais: as emendas devem estar vinculadas na ordem em que forem publicadas. Isso inclui não apenas os artigos, mas as figuras e outros elementos do artigo.
  • DOI (construção): Aqui presenta-se outra das ideias inovadoras. Se bem que os DOIs podem ser vinculados através do CrossRef para determinar a relação entre as versões, sugere-se agregar sufixos aos números de DOI para torná-lo evidente ao olho humano.

Exemplo: doi.org/10.1136/bmj.j1072.1; doi.org/10.1136/bmj.j1072.2, etc.

  • DOI (resolução): cada DOI deve estar vinculado diretamente à versão correspondente.

Esta modificação da estrutura de metadados irá requerer que os sistemas de publicação e de indexação façam as modificações necessárias para refletir as novas estruturas. Todos os metadados deveriam ter licença de utilização aberta para se propagar em diferentes interfaces e formatos. Estes requerimentos podem ser resolvidos com as tecnologias já disponíveis.

Minha opinião

A comunicação científica online sob o paradigma de acesso aberto, servidores de preprints e avaliação por pares aberta, requer procedimentos que são ideológica e tecnologicamente distintos dos métodos tradicionais herdados do papel. Os artigos publicados poderiam não ser estáveis por toda a eternidade. Correções, erros, emendas e quaisquer outras modificações devem ir deixando suas marcas no caminho e a comunidade científica deve ter a forma de seguir o rastro, de uma forma rápida, simples e eficiente.

Este avanço de metodologia representa um novo desafio ao SciELO, mas como demostrou-se pelos passados 19 anos, o Programa SciELO se manteve sempre na linha mais avançada apostando na modernização.

Notas

1. SPINAK, E. O que é este tema dos preprints? [online]. SciELO em Perspectiva, 2016 [viewed 25 March 2017]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2016/11/22/o-que-e-este-tema-dos-preprints/

2. BARBOUR, V., et al. Amending published articles: time to rethink retractions and corrections? [online] bioRxiv. 2017. [viewed 25 March 2017]. DOI: 10.1101/118356. Available from: http://biorxiv.org/content/early/2017/03/24/118356

3. Committee on Publication Ethics Retraction Guidelines [online]. Committee on Publication Ethics (COPE). 2009 [viewed 25 March 2017]. Available from: http://publicationethics.org/files/retraction%20guidelines.pdf

4. Crossmark [online]. CrossRef. 2017 [viewed 25 March 2017]. Available from: https://www.crossref.org/services/crossmark/

Referências

BARBOUR, V., et al. Amending published articles: time to rethink retractions and corrections? [online] bioRxiv. 2017. [viewed 25 March 2017]. DOI: 10.1101/118356. Available from: http://biorxiv.org/content/early/2017/03/24/118356

Committee on Publication Ethics Retraction Guidelines [online]. Committee on Publication Ethics (COPE). 2009 [viewed 25 March 2017]. Available from: http://publicationethics.org/files/retraction%20guidelines.pdf

Crossmark [online]. CrossRef. 2017 [viewed 25 March 2017]. Available from: https://www.crossref.org/services/crossmark/

SPINAK, E. O que é este tema dos preprints? [online]. SciELO em Perspectiva, 2016 [viewed 25 March 2017]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2016/11/22/o-que-e-este-tema-dos-preprints/

 

spinakSobre Ernesto Spinak

Colaborador do SciELO, engenheiro de Sistemas e licenciado em Biblioteconomia, com diploma de Estudos Avançados pela Universitat Oberta de Catalunya e Mestre em “Sociedad de la Información” pela Universidad Oberta de Catalunya, Barcelona – Espanha. Atualmente tem uma empresa de consultoria que atende a 14 instituições do governo e universidades do Uruguai com projetos de informação.

 

Traduzido do original em espanhol por Lilian Nassi-Calò.

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

SPINAK, E. Eu escrevi isso… eu não escrevi isso… agora escrevo outra coisa… [online]. SciELO em Perspectiva, 2017 [viewed ]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2017/03/31/eu-escrevi-isso-eu-nao-escrevi-isso-agora-escrevo-outra-coisa/

 

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