Entrevista com Vincent Larivière

Vincent Larivière

Vincent Larivière

Vincent Larivière é doutor em Estudos sobre Informação pela School of Information Studies, McGill University e atualmente é Professor Assistente da School of Library and Information Science, Université de Montréal.

Larivière abordará na Conferencia SciELO 15 Anos o tema controverso dos indicadores bibliométricos baseados em citações, como o Fator de Impacto, utilizados na análise da produção científica, em particular em países em desenvolvimento. É de sua opinião que seu uso indiscriminado exerce um efeito deletério sobre os temas de interesse regionais em favor dos temas internacionais de interesse dos periódicos “alto impacto”. Na entrevista concedida a SciELO em Perspectiva, Larivière também observa que a cienciometria é uma ciência multidisciplinar, pois cerca de um terço da produção científica sobre o tema é publicada em periódicos de áreas fora da ciência da informação.

1. O estudo bibliométrico sobre a história dos Estudos de Biblioteconomia e Informação (EBI) que conduziu recentemente mostra que a EBI passou de um foco profissional para outro, mais acadêmico. Você poderia comentar sobre o impacto mais amplo desta mudança? Estaria restrito ao domínio da pesquisa ou também afeta as funções de bibliotecários e profissionais da ciência da informação?

A pesquisa em EBI não pode (e não deve!) ser separada da prática. Ao longo do último século, a função do cientista da informação e a do bibliotecário mudaram, abandonando as funções tradicionais de catalogação e classificação para a prestação de serviços de pesquisa, recuperação de informação e treinamento de usuários. Os resultados tendem a mostrar que os temas de pesquisa são um reflexo do que afeta a profissão: menos pesquisa está sendo feita em bibliotecas e catalogação, enquanto mais trabalho está sendo realizado sobre as questões relacionadas com o acesso, comportamento da busca de informações e análise de dados, entre outros. Em outras palavras, a parte da disciplina “ciência da informação” tem um papel cada vez mais importante, tanto em pesquisa quanto em prática.

2. Você também destaca a importância dada aos métodos bibliométricos como um campo formal do EBI. Métodos bibliométricos têm sido intensivamente utilizados em outras áreas e disciplinas, particularmente nos chamados estudos cientométricos. Como a cientometria se relaciona com EBI, considerando que uma grande proporção de seus artigos é de autoria de pesquisadores de outras disciplinas e publicados em periódicos não-EBI? A cientometria se tornou ou está se tornando uma disciplina separada do EBI, centrada nas métricas de resultados de pesquisa?

A cientometria tem estado, historicamente, no cruzamento entre a biblioteconomia e a ciência da informação – de onde a ferramenta e os métodos provêm – e da sociologia da ciência, que prove seu enquadramento teórico. Assim, desde o início, bibliometria tem sido bastante “interdisciplinar”. Com o advento, em 1980, do paradigma do construtivismo social na sociologia da ciência, que está mais interessada em estudos de casos a nível micro do que na estrutura da ciência a nível macro, métodos bibliométricos perderam parte do seu interesse para muitos sociólogos da ciência (e são menos publicados em periódicos dessa comunidade). Periódicos da ciência da informação e de política científica, por outro lado, mantiveram-se como o local natural para tais estudos. Eu acho que a bibliometria/cientometria é o cerne da ciência da informação e, na verdade, é uma das nossas poucas exportações: cerca de metade dos trabalhos que utilizam métodos bibliométricos é publicada fora de periódicos EBI, com cerca de um terço publicado em periódicos da área médica e ciências naturais.

3. Métodos bibliométricos baseados em citações levaram à criação do Fator de Impacto, que se tornou a expressão mais popular dos métodos bibliométricos em comunidades de pesquisa. No entanto, o seu uso generalizado na avaliação de pesquisa e sistemas de recompensa tem sido amplamente criticado. A declaração DORA resume as reclamações contra o uso do Fator de Impacto em comparação à produtividade individual e de instituições de pesquisa. Muitos indicadores alternativos têm sido sugeridos para medir o desempenho de periódicos, mas o uso do Fator de Impacto permanece inalterado, se não em expansão. De acordo com o estado atual do conhecimento, para que fins a utilização do Fator de Impacto ainda é aceitável?

Apesar de suas inúmeras falhas – assimetria entre o numerador e o denominador, a incomensurabilidade entre as disciplinas e inclusão de autocitações, entre outros – o Fator de Impacto ainda fornece uma indicação útil da posição relativa de uma revista dentro de um subcampo. Mas não é necessário seu uso em excesso ao interpretar as diferenças entre os valores obtidos por vários periódicos – especialmente quando se trata da terceira casa decimal! O Fator de Impacto deve ser visto como uma indicação “holística” de sua posição (de nível superior, intermediário, baixo, etc.). Lembremo-nos de que o indicador foi proposto pela primeira vez para ajudar bibliotecários a escolherem os periódicos que deviam subscrever, em vez de uma medida para avaliar a pesquisa e pesquisadores.

4. Há também uma crítica comum em relação à aplicação do Fator de Impacto em periódicos das ciências sociais e das humanidades (CSH), dada a natureza da pesquisa em suas disciplinas e a questionada cobertura de indexação dada pela Web of Science (WoS) e Scopus que são utilizados pelos pesquisadores e sistemas de avaliação. Em sua opinião, os periódicos em ciências sociais e humanas estão destinados a não ter índices adequados e, portanto, indicadores bibliométricos?

Aqui é preciso distinguir os países que têm o Inglês como língua principal de todos os outros países. Para o primeiro grupo de países – Estados Unidos, Reino Unido, etc – a literatura CSH é relativamente bem coberta nas bases de dados atuais (por exemplo, Web of Science e Scopus), uma vez que estas indexam literatura em inglês, principalmente. Para o segundo grupo de países, estas duas bases de dados principais cobrem apenas uma pequena fração da literatura CSH,  uma vez que, geralmente, aí se encontram temas de interesse mais local e, portanto, publicados em periódicos nacionais em outros idiomas que não o inglês. Existe, portanto, uma necessidade de bases de dados nacionais, tais como Scielo, no Brasil e a Érudit em Québec, para citar algumas, a fim de ter uma cobertura adequada de pesquisa no CSH. Nós também precisamos ter uma melhor cobertura de livros e capítulos de livros, que representam uma proporção significativa da produção de pesquisas nestas disciplinas.

5. O JCR produz listas de classificação anuais de periódicos com base no Fator de Impacto, onde a maioria dos principais periódicos do ranking é, na verdade, publicado por empresas comerciais. Você acha que esta associação comercial contribuiu para reforçar o mau uso do Fator de Impacto, uma vez que também tem sido usado como um fator de posicionamento de marketing comercial?

Definitivamente! Periódicos querem melhorar seus Fatores de Impacto, pois sabem que um Fator de Impacto maior provavelmente vai levar a “melhores” submissões e, por sua vez, mais assinaturas. Eles podem ser mais propensos a aceitar trabalhos sobre temas que eles sabem que vão atrair mais citações. Além disso, o fato de que muitos periódicos realmente anunciam seu Fator de Impacto em sua página Web reforça legitimidade do indicador, especialmente tendo em conta que a maioria dos pesquisadores fora do EBI não tem ideia sobre suas limitações reais!

6. Nos países em desenvolvimento e emergentes, a demanda para publicar em periódicos de alto impacto foi explicitamente promovida por sistemas de avaliação institucional de pesquisa e reconhecimento nacionais e institucionais. Estas políticas representam um grande obstáculo para a melhoria da competitividade dos periódicos nacionais em receber manuscritos de alta qualidade. Como você avalia as consequências destas políticas para a capacidade total de pesquisa nacional?

Estas políticas realmente têm vários efeitos adversos. Além de reduzirem a competitividade dos periódicos nacionais, também podem influenciar os temas de trabalho acadêmico dos pesquisadores, que poderão passar de temas locais para os internacionais, sendo este último mais provável de ser publicado em uma revista de alto impacto. Assim, os problemas locais relacionados com a educação, a saúde ou a história – que são de importância crucial para a nação – podem se tornar escassos.

7. Por que o Google Scholar é praticamente ignorado como uma fonte métrica, embora tenha uma ampla cobertura dos periódicos de ciências sociais e humanas?

Embora a cobertura do Google Scholar seja, por estudos recentes, muito melhor do que a WoS e Scopus, ele ainda tem algumas limitações quando se trata da compilação de indicadores bibliométricos avançados. Apesar do fato de que as instituições e os países são (e devem ser) o principal foco de análises bibliométricas, é muito difícil, se não impossível, para compilar dados bibliométricos a este nível. Por outro lado, os dados sobre os pesquisadores individuais estão prontamente disponíveis, apesar do facto de que, em minha opinião, isso deveria, definitivamente, ser evitado. Também é impossível extrair conjuntos de dados do Google Scholar ou para usar uma API com ele. Finalmente, o Google Scholar também é um alvo móvel: os números que obtêm muitas vezes variam de um dia para o outro.

8. Você vai participar da Conferência SciELO 15 Anos no painel cientometria – Medição da Qualidade da Pesquisa e de Periódicos. O objetivo do painel é discutir os pontos fortes e fracos de análises cienciométricas atuais e os métodos de medição de pesquisa e qualidade de periódicos. Como você vê o propósito deste painel?

Eu acho que é muito importante ressaltar as várias limitações dos indicadores bibliométricos. Embora eu esteja muito feliz em ver que os métodos bibliométricos estão sendo usados c​​om maior frequência, tenho a sensação de que alguns pesquisadores nem sempre entendem os dados que eles estão usando. Decisões importantes são, por vezes, feitas com base nestes indicadores, e é imperativo que estes estejam baseados na interpretação correta do indicador adequado.

 

[Revisado em 23 Agosto 2013]

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

SCIENTIFIC ELECTRONIC LIBRARY ONLINE. Entrevista com Vincent Larivière [online]. SciELO em Perspectiva, 2013 [viewed ]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2013/08/16/entrevista-com-vincent-lariviere/

 

2 Thoughts on “Entrevista com Vincent Larivière

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