Acelerando a comunicação científica via preprints

Por Ernesto Spinak

Imagem adaptada da original por freepik.

O processo tradicional de comunicação acadêmica consome muito tempo, tanto dos autores quanto dos pareceristas, o que acaba atrasando a comunicação dos cientistas. Além disso, esta lentidão também conspira contra o interesse dos pesquisadores em afirmar sua precedência nas descobertas. Por este motivo, nos últimos tempos, os procedimentos começaram a se popularizar para acelerar a disseminação mais rápida de trabalhos como o “ahead of print” e, mais recentemente, os servidores de preprints. Para esta nota, definimos preprints como versões de trabalhos de pesquisa, geralmente antes da arbitragem e publicação em um periódico. De qualquer forma, devemos reconhecer que diferentes comunidades de disciplinas atribuem significados diferentes ao conceito, conforme publicado anteriormente neste blog1.

Em resposta a estes avanços, a instituição Knowledge Exchange, um grupo de universidades de seis países europeus, realizou uma pesquisa em setembro de 2018 sobre os benefícios, atitudes das organizações de pesquisa e as estratégias e objetivos dos prestadores de serviços que estão incorporando preprints como uma forma de acelerar a comunicação científica.

A metodologia foi baseada em uma revisão abrangente da literatura relevante – o relatório inclui mais de 80 referências – e 38 entrevistas com pesquisadores de prestigiosas universidades europeias e algumas americanas, principalmente nas áreas de biologia, química, psicologia, física, matemática e economia, com menos ênfase na área de humanidades, pois, nestas disciplinas, os servidores de preprints ainda não são frequentes. Editores acadêmicos tradicionais não foram entrevistados, pois esta comunidade está discutindo preprints via o Committee on Publication Ethics (COPE).

A principal razão para a adoção desta modalidade de publicação – com base no sucesso de iniciativas como o arXiv – é o estabelecimento da precedência de descobertas, a diminuição do tempo para comunicar os resultados de pesquisa e a oportunidade de receber comentários e feedback sobre o trabalho depositado no servidor.

Os entrevistados também expressaram preocupação em disponibilizar informes ao público que ainda não foram arbitrados e também a possibilidade de que periódicos acadêmicos de prestígio pudessem posteriormente rejeitar o artigo para publicação. Mas os autores também reconhecem que há um equilíbrio entre riscos e benefícios. Por exemplo, os preprints impedem o roubo de trabalhos ou parte de trabalhos (scooping), estabelecendo prioridade com datas determinadas. Outra das possíveis vantagens é que pesquisadores mais jovens podem criar um registro de publicação mais rapidamente. Os servidores de preprints também podem hospedar trabalhos de pesquisa que não sejam atraentes para os principais periódicos, como pesquisas que mostram resultados nulos ou negativos.

No momento da redação do informe, mais de 60 plataformas estavam disponíveis para armazenamento, compartilhamento e, em alguns casos, permissão para comentários sobre os preprints. Além disso, dado o número de plataformas diversas, o panorama é caracterizado por algum grau de fragmentação de serviços, diferença de procedimentos e nível de controle exercido pelos proprietários das plataformas. Os servidores de preprints geralmente são mal integrados nos fluxos de publicação, sendo que algumas de suas fraquezas são a falta de manipulação das versão e rastreamento (tracking) automático de manuscritos.

Duas preocupações também emergiram das entrevistas: (i) a duplicação de informação quando um manuscrito está no servidor de preprints e também em repositórios digitais; e (ii) falta de consistência das diferentes plataformas com relação à preservação de longo prazo dos trabalhos depositado em servidores (em suas diferentes versões).

As tecnologias por trás destas plataformas mostram uma experimentação interessante, mas há pouca colaboração entre os atores em jogo. A pesquisa mostrou que existem pelo menos 24 servidores baseados no Open Science Framewok (OSF), mas outros 18 usam soluções ad-hoc proprietárias, sendo que raramente são usados Figshare, DSpace, F1000, Drupal, etc. Um problema geral é que os trabalhos como preprints estão sendo depositados no formato PDF, não no idioma estruturado de marcações, com ou sem metadados suficientes, o que dificulta que as máquinas tenham acesso total ao conteúdo.

Também existem diferentes políticas de preservação digital, pois seria necessário resolver quem cobrirá os custos de infraestrutura e tecnologia para manter os trabalhos em um servidor de preprints, se houver cópias nos repositórios on-line. Isso torna incerto o futuro financeiro.

Os primeiros servidores de preprints foram criados para colaboração aberta em pesquisa antes da publicação normal. No entanto, hoje a ideia de abertura está imediatamente associada ao acesso aberto e à ciência aberta. E isso tudo é um tema muito amplo.

Estamos diante de uma nova bolha? Que depois de atingir um pico de expectativas e seguido de decepções, diminuirá para níveis estáveis ou marginais. Outra das perguntas não respondidas no informe é: qual será o futuro dos preprints, ou seja, se o cenário da comunicação científica será focado nos pesquisadores ou editores e como isso afetará as decisões das agências de fomento.

Portanto, para garantir um futuro sustentável para os preprints, é necessário avançar na análise das responsabilidades dos líderes deste modelo de negócios; a participação de atores comerciais versus as comunidades de interesse; demonstrar com evidências as vantagens e desvantagens da publicação de preprints; e se concentrar no treinamento e suporte ao usuário. O cenário é distribuído entre entusiastas e céticos do modelo que permite publicar trabalhos não arbitrados.

Conclusões

O movimento a favor das preprints é inegável, embora ainda não esteja claro quem deve ser o responsável por promover esta forma de publicação e fazer esforços suficientes para defendê-la. Um papel crucial deve ser cumprido pelas agências de fomento à pesquisa, mas até agora a maioria destas organizações não considera os preprints uma prioridade ou requisito para a avaliação de uma solicitação de financiamento. Deve-se notar, no entanto, que agências-chave como o Wellcome Open Research e o National Institute of Health, NIH, (desde março de 2017), já aceitam preprints em referências e relatórios, e que o Wellcome, no futuro próximo, exigirá que os resultados dos projetos que financia sejam publicados pela primeira vez como preprints.

O tópico é de grande interesse para os leitores do SciELO em Perspectiva, uma vez que, por ocasião da Conferência SciELO 20 Anos, realizado em São Paulo no ano passado, foi anunciada a colaboração entre PKP e o Programa SciELO para o desenvolvimento de um servidor de preprints. Espera-se que o servidor PKP-SciELO Preprints inicie os testes piloto no início de 2020 e esteja em operação regular em meados do ano. Vamos esperar pelas notícias. Seria bom se inscrever no blog SciELO em Perspectiva2 e recomendá-lo aos seus colegas editores.

Notas

1. SPINAK, E. Sobre as vinte e duas definições de revisão por pares aberta… e mais [online]. SciELO em Perspectiva, 2018 [viewed 04 October 2019]. Available from: https://blog.scielo.org/blog/2018/02/28/sobre-as-vinte-e-duas-definicoes-de-revisao-por-pares-aberta-e-mais/

2. Inscreva-se no blog SciELO em Perspectiva <http://eepurl.com/CmTs5>

Referências

CHIARELLI, A., et al. Accelerating scholarly communication: The transformative role of preprints. Zenodo [online]. 2019 [viewed 04 October 2019]. DOI: 10.5281/zenodo.3357727. Available from: https://zenodo.org/record/3357727

Preprints [online]. Committee on Publication Ethics (COPE). 2018 [viewed 04 October 2019]. Available from: https://publicationethics.org/resources/discussion-documents/preprints

Reporting Preprints and Other Interim Research Products [online]. NIH Grants & Funding. 2017 [viewed 04 October 2019]. Available from: https://grants.nih.gov/grants/guide/notice-files/not-od-17-050.html

SPINAK, E. Sobre as vinte e duas definições de revisão por pares aberta… e mais [online]. SciELO em Perspectiva, 2018 [viewed 04 October 2019]. Available from: https://blog.scielo.org/blog/2018/02/28/sobre-as-vinte-e-duas-definicoes-de-revisao-por-pares-aberta-e-mais/

Links externos

OSF <https://osf.io/>

Wellcome Open Research <https://wellcomeopenresearch.org/>

Sobre Ernesto Spinak

Colaborador do SciELO, engenheiro de Sistemas e licenciado em Biblioteconomia, com diploma de Estudos Avançados pela Universitat Oberta de Catalunya e Mestre em “Sociedad de la Información” pela Universidad Oberta de Catalunya, Barcelona – Espanha. Atualmente tem uma empresa de consultoria que atende a 14 instituições do governo e universidades do Uruguai com projetos de informação.

Traduzido do original em espanhol por Lilian Nassi-Calò.

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

SPINAK, E. Acelerando a comunicação científica via preprints [online]. SciELO em Perspectiva, 2019 [viewed ]. Available from: https://blog.scielo.org/blog/2019/10/04/acelerando-a-comunicacao-cientifica-via-preprints/

 

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