Periódicos que aumentaram o valor da APC receberam mais artigos

Por Ernesto Spinak

O acesso aberto (AA) às publicações científicas on-line surgiu há duas décadas. Entre as expectativas de sua ampla adoção, considerou-se superar a crise orçamentária enfrentada pelas universidades e outras instituições de ensino e pesquisa devido ao constante aumento dos preços de assinatura sobre a inflação. É neste contexto internacional que surgiu a Rede SciELO, há 20 anos, um projeto pioneiro na época e hoje o mais importante no âmbito dos países em desenvolvimento, com mais de 1.650 periódicos e 812 mil artigos publicados em texto completo até o momento da redação deste post. O SciELO adotou o acesso aberto com o objetivo de maximizar a visibilidade dos periódicos e a pesquisa que eles comunicam.

As empresas multinacionais que publicam periódicos científicos, relutantes no início ao modelo AA, captaram os sinais do mercado e incorporaram o conceito, mas para poder cobrir os custos de infraestrutura e processo editorial, incorporaram a taxa de processamento de artigo (article processing charge, APC), também conhecida como tarifa ou taxa de publicação. A APC é uma taxa cobrada por vezes dos autores para que disponibilizem um artigo em acesso aberto em um periódico de acesso aberto ou um periódico híbrido. Esta taxa pode ser paga pelo autor, instituição do autor ou seu financiador de pesquisa. Não apenas empresas comerciais incorporaram a APC, mas também muitas sociedades científicas e instituições de pesquisa e universidades a têm incorporado ao processo, devido aos custos crescentes exigidos pelas novas tendências de publicação, como servidores de preprints, DOI, controles de plágio, profissionais internos de apoio e outros custos. Um periódico com altas taxas de rejeição viu seus custos aumentar consideravelmente e teve que distribuí-los entre uma seleção menor de artigos que é finalmente publicada.

Estes custos elevados produzidos pela incorporação de controles de qualidade e as tecnologias necessárias tampouco escaparam aos periódicos não comerciais, como aqueles publicados pela Rede SciELO, razão pela qual vários deles começaram a cobrar APC.

No SciELO Brasil, com 297 periódicos ativos no mês de [maio de 2019], [68] cobram APC, ou seja, 23%, e há um crescimento lento da adoção da APC. Os periódicos em geral são financiadas por um mix de fontes, com recursos das instituições responsáveis, subsídios públicos e outras fontes, como APC.1

Nos últimos cinco anos, houve um aumento nas APCs três vezes maior que a inflação nos países europeus e Estados Unidos. Isso levanta duas questões:

  • Esta hiperinflação (semelhante ao que aconteceu com as assinaturas) será um impedimento para os autores publiquem em periódicos que cobram APC?
  • O que acontecerá com programas como o Plano S, que impõe mandatos sobre governos e instituições de financiamento para publicar em periódicos de AA?

Um estudo conduzido por Shaun Yon-Seng Khoo2, da Universidade de Montréal, no Canadá, examinando periódicos que introduziram a APC há 4 ou 5 anos ou que mudaram seu modelo de subscrição para AA, não mostrou evidência de que a introdução da APC reduzisse os volumes de artigos publicados. Uma análise de sensibilidade da APC em 319 periódicos publicados pelos quatro maiores publishers comerciais de acesso aberto financiados por APC (BioMed Central – BMC, Frontiers, MDPI e Hindawi) revelou que de 2012 a 2018 as maiores APCs foram associadas a um maior volume de artigos. Estes resultados indicam que a hiperinflação da APC não é suprimida através da competição de mercado e seleção do autor. Em contrapartida, a demanda por publicações de periódicos científicos pode ser mais semelhante à demanda por necessidades, ou mesmo bens de prestígio, que apoiarão a hiperinflação da APC em detrimento de pesquisadores, instituições e financiadores.

O estudo mostrou os seguintes pontos:

  • A hiperinflação da APC é real. Dados de pagamento por APC em instituições europeias mostram que o aumento foi em média três vezes superior à inflação.
  • Não houve evidência de que a introdução da APC ao mudar do modelo de subscrição para o AA causou uma redução nos volumes de artigos publicados.
  • No período de 2012 a 2018, a média de APC de 319 periódicos dos quatro maiores editores de acesso aberto (BMC, Frontiers, MDPI e Hindawi) cresceu entre 2,5 e 6 vezes a inflação, porém o volume total de artigos mais que dobrou, passando de 58.007 para 127.528 artigos nestes periódicos. Nenhum publisher experimentou uma diminuição no volume de artigos; ao contrário, o aumento da APC esteve associado a um maior número de artigos submetidos.
  • Não há evidências de que os autores sejam sensíveis ao preço quando escolhem suas vias de publicação, pois os custos da APC estão correlacionados com o prestígio do periódico medido por seu impacto. Ademais, o prestígio do periódico e os indicadores relacionados como impacto e indexação são as principais considerações dos autores. Estes resultados sugerem que os autores provavelmente não considerarão um custo muito alto como um impedimento, pois a importância de publicar seu trabalho em um periódico mais “prestigioso” disponível é o componente mais importante de sua estratégia de publicação. Valores muito baixos de APC da ordem de US$ 100 também estão associados a periódicos potencialmente predatórios, enquanto periódicos AA legítimos cobram taxas na ordem de US$ 2.000. Dada a importância do prestígio e reputação do periódico no mercado editorial acadêmico, parece lógico que as publicações científicas sigam os princípios de “preço de prestígio” ou “consumo de status”, onde os aumentos de preços podem estar associados com o aumento da demanda.

Um autor poderia estar satisfeito em publicar em um periódico AA que não cobra APC, mas se ele tivesse capacidade de pagar, selecionaria um veículo que é percebido como de maior prestígio. Se as publicações são necessárias para a carreira do pesquisador, isso explica a baixa sensibilidade às mudanças de preço da APC, da mesma forma que os consumidores continuam a comprar alimentos básicos a despeito do aumento de preços.

Por sua vez, os publishers estão cientes de que podem estabelecer preços sem afetar sua participação no mercado. Por exemplo, a Frontiers e a MDPI tiveram o maior crescimento em volumes de artigos por periódico e também aumentaram seus valores de APC nas margens mais altas do mercado. Os publishers admitiram que não definem o preço com base no custo de produção, porém no valor econômico dos periódicos, em consonância com os comentários na literatura das publicações acadêmicas. Quando se atribui a um periódico um valor de impacto, o valor de prestígio aumenta e é possível impor uma APC mais alta.

Comenta o autor do artigo2:

A insensibilidade aos preços deixa os ambiciosos mandatos de financiadores de acesso aberto, como o Plano S, com poucas opções para controlar os custos de publicação cobrados pelos publishers comerciais. O Plano S propõe limitar as APCs a um valor não revelado (ELSE, 2018 apud KHOO, 2019). No entanto, não há um único valor razoável de APC. Periódicos que são percebidos como mais prestigiosos tendem a cobrar APCs mais altas (BJÖRK and SOLOMON, 2015 apud KHOO, 2019; POLLOCK and MICHAEL, 2019 apud KHOO, 2019), talvez pois tendem a ter uma taxa de rejeição mais alta e as APCs são contabilizadas apenas para os manuscritos aceitos. De fato, o presidente da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos argumenta que seu principal periódico teria que cobrar APC de US$6.000 apenas para fins de recuperação de custos (McNUTT, 2019 apud KHOO, 2019). Se bem que um dos princípios do Plano S é que os financiadores ou instituições devem pagar pelas APCs, as sociedades científicas ainda estão preocupadas com as barreiras de custo para os autores (GUZIK and AHLUWALIA, 2019 apud KHOO, 2019; PURTON, MICHELANGELI and FÉSÜS, 2019 apud KHOO, 2019). (…) o limite não pode ser definido muito baixo, caso contrário os pesquisadores financiados seriam excluídos de publicar naqueles periódicos que se acredita ocupar os mais altos níveis de sua disciplina. Portanto, os publishers podem aplicar pressão crescente sobre o limite de APC, elevando suas taxas acima disso e forçando os autores a buscar fundos suplementares para publicar em periódicos considerados de maior prestígio (PURTON, et al., 2019 apud KHOO, 2019).

Conclusões

  • A publicação de AA surgiu como uma possível solução para a crise de custos de assinatura para periódicos científicos há cerca de 20 anos, porque se acreditava que a gratuidade de acesso seria uma forte competição para o modelo de negócios dos publishers.
  • A introdução de taxa de processamento de artigo (APC) por periódicos alinhados ao novo modelo de publicação, bem como seu aumento de preço, não mostra que os autores evitem submeter seus trabalhos a estes periódicos.
  • Pelo contrário, parece que quando os autores estão dispostos a pagar a APC, eles farão isso sem se importar muito com a quantia.
  • Os dados do estudo sugerem que os publishers estabelecem o valor da APC de acordo com o prestígio do título (leia-se “Fator de Impacto”) e os fundos disponíveis aos autores nos diferentes segmentos do mercado.
  • À medida que os periódicos de acesso aberto com APC se estabeleçam firmemente, deveria causar preocupação aos financiadores e às instituições, pois isso impulsionará uma maior hiperinflação no mercado de publicações acadêmicas.
  • A menos que financiadores e instituições aproveitem seu poder de barganha e estabeleçam políticas para limitar os custos, a demanda por parte dos autores (que se mostra inelástica às mudanças de preço) levará a que o acesso aberto financiado pela APC seja simplesmente uma continuação da crise dos periódicos ocorrida há 20 anos.

Notas

1. PACKER, A.L. Comunicação pessoal por e-mail de Abel Packer para Ernesto Spinak [online]. 11 May, 2019.

2. KHOO, S.Y.-S. Article Processing Charge Hyperinflation and Price Insensitivity: An Open Access Sequel to the Serials Crisis. LIBER Quarterly [online]. 2019, vol. 29, no. 1, pp.1–18 [viewed 22 May 2019]. DOI: 10.18352/lq.10280. Available from: https://www.liberquarterly.eu/article/10.18352/lq.10280/

Referências

JOHNSON, R. From Coalition to Commons: Plan S and the Future of Scholarly Communication. Insights the UKSG journal [online]. 2019, vol. 32, pp. 1-5 [viewed 22 May 2019]. DOI: 10.1629/uksg.453. Available from: https://insights.uksg.org/articles/10.1629/uksg.453/

KHOO, S.Y.-S. Article Processing Charge Hyperinflation and Price Insensitivity: An Open Access Sequel to the Serials Crisis. LIBER Quarterly [online]. 2019, vol. 29, no. 1, pp.1–18 [viewed 22 May 2019]. DOI: 10.18352/lq.10280. Available from: https://www.liberquarterly.eu/article/10.18352/lq.10280/

NASSI-CALÒ, L. Taxas de publicação em Acesso Aberto: nova crise das publicações seriadas? [online]. SciELO em Perspectiva, 2016 [viewed 22 May 2019]. Available from: https://blog.scielo.org/blog/2016/11/29/taxas-de-publicacao-em-acesso-aberto-nova-crise-das-publicacoes-seriadas

PACKER, A.L. Comunicação pessoal por e-mail de Abel Packer para Ernesto Spinak [online]. 11 May, 2019.

Sobre Ernesto Spinak

Colaborador do SciELO, engenheiro de Sistemas e licenciado em Biblioteconomia, com diploma de Estudos Avançados pela Universitat Oberta de Catalunya e Mestre em “Sociedad de la Información” pela Universidad Oberta de Catalunya, Barcelona – Espanha. Atualmente tem uma empresa de consultoria que atende a 14 instituições do governo e universidades do Uruguai com projetos de informação.

Traduzido do original em espanhol por Lilian Nassi-Calò.

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

SPINAK, E. Periódicos que aumentaram o valor da APC receberam mais artigos [online]. SciELO em Perspectiva, 2019 [viewed ]. Available from: https://blog.scielo.org/blog/2019/05/22/periodicos-que-aumentaram-o-valor-da-apc-receberam-mais-artigos/

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Post Navigation