Quanto tempo leva para fazer ciência? A emergência do tempo na comunicação científica

Por Thaiane Oliveira

Continuando a série de posts do Painel 3.1 “Comunicação rápida: preprints, peer-review, publicação contínua” da Conferência SciELO 20 Anos falando sobre a importância da gestão do tempo para a ciência.

Depois de coexistir com as correspondências, monografias e tratados – que muitas vezes levavam vários anos para serem publicados – no início do século XIX os periódicos científicos se tornaram a maneira mais rápida e conveniente de divulgar novos resultados de pesquisa. No entanto, a rapidez do processo da publicação impressa já não responde mais aos próprios avanços tecnológicos que tornaram o tempo uma moeda imprescindível. Desde que as tecnologias de comunicação e informação em ambiente digital foram popularizadas e têm se tornado um dos principais meios para a comunicação, a comunicação científica vem passando por uma nova transformação. Gradualmente, as revistas científicas passaram a ser disseminadas também através da internet e versões impressas vão diminuindo gradualmente, pois seu custo e falta de agilidade no processo editorial pouco refletiam os avanços das tecnologias de comunicação e a velocidade da informação na chamada era do conhecimento.

Porém, as mudanças nos modelos da comunicação científica não eram apenas uma resposta à velocidade e avanços tecnológicos aos quais a contemporaneidade está sujeita. Trata-se também de respostas à questões mais complexas que estão relacionadas a circulação da ciência, reconfiguração do trabalho acadêmico e mudanças sobre o paradigma da comunicação para além de determinismos tecnológicos. Em um modelo de comunicação pós-massiva, baseado em um processo conversacional aberto de muitos para muitos, o controle do fluxo da informação não se limita apenas ao sujeito que detinha os poderes tradicionais decisórios sobre o que ia se tornar publicável, como no modelo tradicional. Neste novo paradigma da comunicação, diferentes formas de produção de conteúdo autônomas emergem e se reconfiguram, disputando espaço e legitimidade sobre a informação nos ambientes digitais.

Este modelo também é refletido sobre a comunicação científica, na qual a responsabilidade da comunicação da ciência não se limita mais apenas ao editores de periódicos e agentes da comunicação institucional. Comunicar e divulgar a ciência passa a ser entendida também como responsabilidade do próprio pesquisador, cuja função de empreender a si mesmo e gestar a sua imagem também passa a ser entendida como parte do trabalho acadêmico1,2, dividido com outras atividades relacionadas ao ensino e pesquisa, entre elas, a avaliação de artigos para periódicos, por exemplo. Este acúmulo de funções do pesquisador, cuja gestão do tempo é um grande desafio também para ele, acaba gerando entraves no processo editorial. O fluxo editorial é constantemente impactado pela dependência do tempo livre do pesquisador para a realização da avaliação de artigos científicos dos periódicos, tornando o tempo entre a submissão e a publicação muito mais demorado e dificultoso para os próprios editores, que se desdobram em diferentes estratégias para conseguir pareceres de qualidade.

É neste contexto de “liberação do pólo emissor” da comunicação científica, do qual os pesquisadores passam a gerir a sua imagem de maneira autônoma como parte do trabalho acadêmico e diante das dificuldades enfrentadas na gestão do fluxo editorial, que modelos como preprint se tornam uma importante ferramenta para a disseminação do conhecimento, sobretudo em países que não fazem parte do eixo que vem dominando o mercado científico, como é o caso de parte da Europa e Estados Unidos, que formam um oligopólio das editoras científicas. Para a América Latina, modelos como o preprint não apenas permitem solucionar um problema sobre a gestão do tempo e a gestão do trabalho acadêmico, como tende a equilibrar as desigualdades geradas sobre a publicação científica de um modelo tradicional cuja decisão do editor é soberana. Um relatório3 publicado recentemente pela Clarivates Analytics que investigou tendências de rejeição e aprovação de artigos, a partir do ScholarOne e do Web of Science. Apesar do estudo apontar para uma melhora na taxa de aprovação direta e um recuo da taxa de rejeição direta para artigos de autores brasileiros, ainda é possível observar as diferenças de dinâmicas de publicação quando os autores são de países considerados periféricos ou semi-periféricos, como Irã, Índia e Brasil. Nestes países, o tempo de decisão sobre a rejeição é mais curto quando os autores são de países emergentes, enquanto que a maior parte dos revisores localizam-se nos Estados Unidos, Reino Unido, China e Japão.

Tais dinâmicas não seriam naturalizadas neste ecossistema de publicações científicas se princípios como acesso livre e aberto, processo de avaliação transparente e difusão das pesquisas de maneira rápida, como os compartilhados pela Ciência Aberta, fossem adotados a partir de modelos de comunicação científica aberta e de fácil acesso para o público. Dentre estas iniciativas que estão reconfigurando a comunicação científica, o preprint vem se consolidando como um promissor espaço não apenas para agilizar o processo de publicação, mas também para tornar mais transparente o processo de produção de conhecimento científico, podendo até mesmo equilibrar as desigualdades sobre a visibilidade científica de países emergentes.

Notas

1. Em uma pesquisa realizada com pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento, e em diferentes níveis de carreira foi apontado que 17 de 18 pesquisadores entrevistados entendiam que a divulgação científica é compreendida como parte do trabalho acadêmico.

2. OLIVEIRA, T. Midiatização da Ciência: Reconfiguração do paradigma da comunicação científica na era digital. In: XXVII Encontro Anual da Compós, Belo Horizonte, 2018 [viewed 4 July 2018]. Available from: http://www.compos.org.br/data/arquivos_2018/trabalhos_arquivo_E2914S5R8AUHF69PEX0R_
27_6978_27_02_2018_09_23_29.pdf

3. POTTER, I. Connecting the dots from submission to decision, the fate of scholarly papers. In: Frankfurt Book Fair, Frankfurt, 2017 [viewed 4 July 2018]. Available from: http://www.sibi.usp.br/wp-content/uploads/2018/06/Clarivate_2017-FBF-Hotspot-Connecting-the-dots-1.pdf

Referências

LARIVIÈRE, V., HAUSTEIN, S. and MONGEON, P. The Oligopoly of Academic Publishers in the Digital Era. PloS ONE [online]. 2015, vol. 10, no. 6, pp. e0127502 [viewed 4 July 2018]. DOI: 10.1371/journal.pone.0127502. Available from: http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0127502

OLIVEIRA, T. Midiatização da Ciência: Reconfiguração do paradigma da comunicação científica na era digital. In: XXVII Encontro Anual da Compós, Belo Horizonte, 2018 [viewed 4 July 2018]. Available from: http://www.compos.org.br/data/arquivos_2018/trabalhos_arquivo_E2914S5R8AUHF69PEX0R_
27_6978_27_02_2018_09_23_29.pdf

POTTER, I. Connecting the dots from submission to decision, the fate of scholarly papers. In: Frankfurt Book Fair, Frankfurt, 2017 [viewed 4 July 2018]. Available from: http://www.sibi.usp.br/wp-content/uploads/2018/06/Clarivate_2017-FBF-Hotspot-Connecting-the-dots-1.pdf

 

Sobre Thaiane Oliveira

Professora do Programa de Pós-graduação em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense, coordenadora do Fórum de Periódicos e Comunicação Científica da Pró-reitoria de Pesquisa, Pós-graduação e Inovação da UFF e coordenadora do Laboratório de Investigação em Ciência, Inovação, Tecnologia e Educação (Cite-Lab).

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

OLIVEIRA, T. Quanto tempo leva para fazer ciência? A emergência do tempo na comunicação científica [online]. SciELO em Perspectiva, 2018 [viewed ]. Available from: https://blog.scielo.org/blog/2018/07/06/quanto-tempo-leva-para-fazer-ciencia-a-emergencia-do-tempo-na-comunicacao-cientifica/

 

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