Na rota da ciência aberta as Memórias do Instituto Oswaldo Cruz aceitam submissão de manuscritos preprints

Por Claude Pirmez

Por 350 anos o mundo científico tem sido moldado por um modelo de publicação onde os periódicos científicos representam a única fonte acreditada para a informação científica. Esse modelo é inteiramente baseado na capacidade e experiência dos editores e, mais recentemente, pelos revisores para selecionar, avaliar, editar e publicar os artigos que descrevam os resultados de pesquisa mais relevantes.

Ter uma publicação no mundo competitivo de hoje é uma questão de sobrevivência para um pesquisador típico: sem artigos publicados, não há informação certificada (leia-se revisada por pares) para seus pares; não há posição ou promoção; não há garantia de financiamento, e nenhum resultado é entregue à sociedade. Essa é a mensagem que nós aprendemos dos nossos mentores, professores, agências de financiamento, centros de pesquisa e gestores das universidades. A principal consequência desse cenário de publicação é que os fatos científicos não fluem imediatamente dos produtores (cientistas) para os usuários (pesquisadores e sociedade em geral).

A tecnologia digital, com o seu baixo custo, alta velocidade e disseminação instantânea, sem barreiras geográficas, fronteiras ou controle centralizado, rompeu o cenário descrito acima, e trouxe possibilidades não imaginadas há alguns anos: visibilidade imediata, ampla acessibilidade e rastreio contínuo de artigos científicos. Do ponto de vista dos periódicos tradicionais, as inovações digitais podem ser perturbadoras, colocando muitas ameaças aparentes ao modelo atual consolidado, no qual as decisões são muito concentradas nos editores, e o sistema editorial “certifica” os artigos publicados. Esse sistema é considerado como sendo a pior forma de publicação exceto todas as outras formas já experimentadas. Uma questão permanece: como decidir o que é uma boa publicação e o que deve ser rejeitado?

Muito esforço intelectual tem, certamente, sido empregado para resolver essa questão. Vias alternativas vem emergindo: um número bastante significativo de pesquisadores, pós-doutores ou estudantes de graduação leem artigos científicos abertos de forma interativa e adicionam comentários, correções e sugestões para melhora do texto. Essas atividades são compartilhadas, rastreadas, medidas e gravadas de forma permanente em servidores a um custo relativamente baixo para as agências de financiamento e para a sociedade em geral.

Há importantes forças opostas nesse modelo: por um lado, as agências de financiamento e investidores públicos que necessitam resultados imediatos e transparentes; por outro os grandes publishers que desejam que esse movimento aconteça da forma mais lenta possível.

A solução para a implementação de uma inovação como essa num futuro próximo parece estar bem ali na esquina com os preprints. A partir da prática de publicação aberta na área da física no arXiv aprendida nos últimos 20 anos, alguns inovadores lançaram iniciativas que gradualmente vêm transformando o panorama da publicação científica (no campo das biociências, vale mencionar o bioRxiv e PeerJ). Para a maioria dos campos de conhecimento há hoje algum tipo de preprint em curso (para uma boa lista de preprints, veja o site do OSF Preprints). A consolidação desse modelo de publicação, obviamente, levanta alguns desafios aos editores de periódicos tradicionais e suas práticas de publicação. A consequência mais direta é a mudança do modus operandi de um editor: mais do que controlar passivamente o fluxo de manuscritos recebidos pela revista, ou seja, escolher aqueles que devem seguir ou que devem ir para a lixeira, os editores devem olhar cuidadosamente nos preprints (ou no impacto que estão causando!) e então convencer os autores a submeter seu trabalho em suas revistas.

É chegada a hora de pensar no formato atual de publicação de resultados de pesquisa em revistas tradicionais como as Memórias do Instituto Oswaldo Cruz. Por mais de 100 anos (faremos 110 anos no próximo dia 12 de dezembro), as Memórias esteve comprometida com a oferta de práticas de publicação mais atualizadas para autores e leitores. Não seria diferente agora nesses tempos de “tempestade digital”. O corpo editorial das Memórias decidiu que este periódico, a partir de agora, aceita artigos que estejam em preprint. Essa decisão está de acordo com os recentes desenvolvimentos do cenário editorial, incluindo o SciELO, de quem desejamos ser parceiros e colaborar para o sucesso do SciELO Preprints. Isso será, certamente, um passo importante para a história da publicação científica brasileira.

Referência

PACKER, A.L., SANTOS, S. and MENEGHINI, R. SciELO Preprints a caminho [online]. SciELO em Perspectiva, 2017 [viewed 06 December 2017]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2017/02/22/scielo-preprints-a-caminho/

Links externos

General Information About arXiv – <https://arxiv.org/help/general>

OSF Preprints – <https://osf.io/preprints/>

 

Sobre Claude Pirmez

Médica com especialização em anatomia patológica, é pesquisadora titular do Instituto Oswaldo Cruz – FIOCRUZ, onde realizou estudos sobre a resposta imune a agentes infecto-parasitários, em particular a leishmaniose. Foi vice-presidente de Pesquisa da FIOCRUZ, e hoje é a editora-chefe do periódico Memórias do Instituto Oswaldo Cruz.

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

PIRMEZ, C. Na rota da ciência aberta as Memórias do Instituto Oswaldo Cruz aceitam submissão de manuscritos preprints [online]. SciELO em Perspectiva, 2017 [viewed ]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2017/12/07/na-rota-da-ciencia-aberta-as-memorias-do-instituto-oswaldo-cruz-aceitam-submissao-de-manuscritos-preprints/

 

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