Internacionalização como indicador de desempenho de periódicos do Brasil: o caso da psicologia

Por Lilian Nassi-Calò

Foto: SciELO

Foto: SciELO

À medida que os periódicos se aperfeiçoam e melhoram seu desempenho, atingem uma audiência maior e mais exigente, e consequentemente, atraem melhores artigos. O caminho para o fortalecimento das publicações com ampliação da audiência passa quase sempre por sua internacionalização, que inclui atrair tanto leitores como autores de outras partes do mundo, sustentando e reforçando o círculo virtuoso maior audiência – melhores artigos.

A crescente adoção da publicação em língua inglesa pelos periódicos do Brasil vem contribuindo para expandir as fronteiras da ciência produzida no país, em um salto de qualidade e relevância sem precedentes. A internacionalização da ciência brasileira comunicada nos periódicos editados nacionalmente e no exterior – que ademais da simples publicação em inglês também inclui a inclusão de autores, editores e membros do comitê editorial internacionais, levou a introduzir este componente na avaliação de desempenho das publicações por agências e programas de apoio a pesquisa no país. Ademais, a internacionalização é um dos componentes prioritários promovidos pelo Programa SciELO, ao lado do fortalecimento da profissionalização e da sustentabilidade financeira, como forma de consolidar internacionalmente os periódicos – e a pesquisa – do Brasil.

A psicologia é uma das áreas no Brasil comprometida com a internacionalização da ciência produzida, bem como dos periódicos que edita, em especial na última década, quando passaram a disponibilizar títulos e resumos, além de material suplementar em inglês, a língua franca da ciência. Com o intuito de quantificar e avaliar o grau de internacionalização dos periódicos de psicologia do Brasil, Chris Fradkin, pesquisador em Ciências da Psicologia da Universidade da California, EUA, conduziu um estudo1 bibliométrico baseado em quatro indicadores: (1) artigos em inglês; (2) presença de editores estrangeiros; (3) autores estrangeiros; e (4) estilo do estudo. Os três primeiros fazem parte dos critérios recomendados por Rogerio Meneghini, Diretor Científico do Programa SciELO, e o quarto foi introduzido pelo autor. O estudo teve por finalidade medir as relações entre os índices presumidos de internacionalização e ‘internacionalização no mundo real’, termo definido por Fradkin que representa o status dos periódicos em termos de internacionalização, dos principais periódicos em psicologia do Brasil.

A amostra do estudo consistiu dos 17 periódicos de psicologia do Brasil incluídos em 2014 no SCImago Journal Rank (SJR). Em 2015, estes periódicos publicaram 759 artigos no total, dos quais 672 foram objeto do estudo bibliométrico de Fradkin, excetuando editoriais, resenhas de livros, entrevistas, cartas ao editor e outros. Estes artigos foram analisados com base nos seguintes parâmetros: texto do artigo em língua inglesa; integrantes do corpo editorial com afiliação de país de língua nativa inglesa; instituição de afiliação do autor principal (autor correspondente) de um país de língua inglesa; estilo do estudo empírico; e publisher internacional. A fim de obter uma frequência de grau de internacionalização, o número de artigos com cada uma destas características independentes foi comparado ao número total de artigos.

Os 17 periódicos de psicologia do Brasil melhor avaliados segundo o SJR situam-se no terceiro ao quinto quintil, posicionando-os bem abaixo da média internacional. No panorama nacional, entretanto, 14 deles são ranqueados no topo do estrato Qualis CAPES da área de Psicologia, classificados como A1 ou A2. Estes periódicos têm número de citações por artigo contabilizado em 2012-2013 entre 0.02 e 0.58. Todos, com exceção de dois (Psychology & Neuroscience e Psicologia: Reflexão e Crítica), são publicados por publishers nacionais e nove não são indexados pelo SciELO (incluindo os dois títulos acima que foram excluídos ao passarem a ser editados por publishers comerciais).

A análise dos melhores periódicos de psicologia do Brasil revelou que, de fato, existe uma correlação estatisticamente significativa entre o grau de internacionalização e três dos quatro parâmetros adotados por Fradkin. Apenas o percentual de textos em língua inglesa não mostrou correlação com o grau de internacionalização dos periódicos. Os outros três critérios, a saber, maior prevalência de membros do conselho editorial não brasileiros originários de países de língua inglesa; maior percentual de autores com afiliação institucional de países de língua inglesa; e maior proporção de artigos de natureza empírica mostraram correlação com o grau de internacionalização dos periódicos.

Pode parecer paradoxal o fato de que a publicação de artigos em inglês não esteja associada a um maior grau de internacionalização. Esta opção, na verdade é a primeira medida adotada por periódicos em busca de maior visibilidade e presença internacional. O Programa SciELO, em particular a coleção SciELO Brasil, vem de longa data recomendando aos editores dos periódicos que indexa aumentar o número de artigos publicados em inglês, ou bilíngue. Este percentual aumentou na coleção de 48% em 2011 para 62% em 2015. A meta do SciELO para 2019 é chegar a 75% dos artigos na língua franca da ciência. Ademais, estudos2,3 apontam correlação positiva entre publicação em inglês – por parte de pesquisadores do Brasil e da América Latina – e número de citações.

Publicar em inglês apenas, entretanto, não confere maior credibilidade ou rigor aos estudos, assim como não é suficiente publicar em inglês para atingir maior grau de internacionalização. O autor do estudo salienta, entretanto, a internacionalização por meio da inclusão de mais membros do comitê editorial ou autores com afiliação de países de língua inglesa em periódicos do Brasil não significa substituir atores brasileiros pelos estrangeiros. Trata-se, em sua opinião, de complementar sua expertise, com contribuição de pesquisadores estrangeiros cuja língua nativa é o inglês, no processo editorial (avaliação por pares, decisões editoriais, revisão dos textos e resumos em inglês), bem como enfocar os conteúdos para um público-alvo global, de forma a melhorar a qualidade geral dos periódicos do Brasil. Este salto de qualidade que sugere Fradkin inclui ainda dar preferência à publicação de estudos empíricos, metodologicamente mais adequados à audiência internacional do que estudos descritivos. O autor acrescenta ainda que seria desejável considerar a participação de pareceristas estrangeiros no processo de peer review. Informação sobre a composição do quadro de pareceristas, entretanto, não está sempre disponível nas publicações, porém, seria uma importante contribuição, em sua opinião. Cabe ressaltar que o estudo em questão apresenta uma visão estranhamente limitada de afiliação internacional restrita às instituições de países de língua nativa inglesa. Entretanto, na literatura científica em geral e na metodologia do SciELO em particular, a colaboração internacional inclui afiliação institucional de qualquer país, exceto aquele de publicação do periódico.

A despeito da noção geral do conceito de internacionalização dos periódicos ou da ciência como um todo, não está claro qual patamar deve ser atingido para caracterizar esta condição. Fradkin sugere ser o momento no qual certo grupo de periódicos atingisse os índices de impacto de periódicos do primeiro quintil. Entretanto, segundo Abel Packer, Coordenador do Programa SciELO, atingir valores acima da mediana, ou o segundo quintil, seriam ganhos extraordinários, pois é quase impossível atingir o primeiro quintil na estrutura atual de indexação que privilegia os periódicos já consolidados. De qualquer forma, os esforços empreendidos pelos periódicos do Brasil em prol de maior presença internacional, como aqueles propostos pelo Programa SciELO, visam melhorar continuamente sua qualidade, visibilidade e impacto, assim como da ciência que reportam. Como mostra este estudo da psicologia, há muitos potenciais casos de sucesso no horizonte.

Notas

1. FRADKIN, C. The Internationalization of Psychology Journals in Brazil: A Bibliometric Examination Based on Four Indices. Paidéia (Ribeirão Preto) [online]. 2017, vol. 27, no. 66, pp. 7-15, ISSN 0103-863X [viewed 26 February 2017]. DOI: 10.1590/1982-43272766201702. Available from: http://ref.scielo.org/xnr3sb

2. NASSI-CALÒ, L. Estudo aponta que artigos publicados em inglês atraem mais citações [online]. SciELO em Perspectiva, 2016 [viewed 26 February 2017]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2016/11/04/estudo-aponta-que-artigos-publicados-em-ingles-atraem-mais-citacoes/

3. GAMBA, E. C., PACKER, A. L. and MENEGHINI, R. Pathways to Internationalize Brazilian Journals of Psychology. Psicol. Reflex. Crit. [online]. 2015, vol. 28, suppl. 1, pp. 66-71, ISSN 0102-7972 [viewed 26 February 2017]. DOI: 10.1590/1678-7153.20152840010. Available from: http://ref.scielo.org/hpnvd6

Referências

FRADKIN, C. The Internationalization of Psychology Journals in Brazil: A Bibliometric Examination Based on Four Indices. Paidéia (Ribeirão Preto) [online]. 2017, vol. 27, no. 66, pp. 7-15, ISSN 0103-863X [viewed 26 February 2017]. DOI: 10.1590/1982-43272766201702. Available from: http://ref.scielo.org/xnr3sb

GAMBA, E. C., PACKER, A. L. and MENEGHINI, R. Pathways to Internationalize Brazilian Journals of Psychology. Psicol. Reflex. Crit. [online]. 2015, vol. 28, suppl. 1, pp. 66-71, ISSN 0102-7972 [viewed 26 February 2017]. DOI: 10.1590/1678-7153.20152840010. Available from: http://ref.scielo.org/hpnvd6

MENANDRO, P. R. M., et al. The Brazilian Psychology Postgraduate System and the Internationalization Process: Critical Aspects, Evaluation Indicators and Challenges for Consolidation. Psicol. Reflex. Crit. [online]. 2015, vol. 28, suppl. 1, pp.57-65, ISSN 0102-7972 [viewed 26 February 2017]. DOI: 10.1590/1678-7153.2015284009. Available from: http://ref.scielo.org/2dmwxm

MENEGHINI, R. and PACKER, A. L. Is there science beyond English? Initiatives to increase the quality and visibility of non-English publications might help to break down language barriers in scientific communication. EMBO Reports [online]. 2007, vol. 8, no. 2, pp. 112–116 [viewed 26 February 2017]. DOI: 10.1038/sj.embor.7400906. Available from: http://embor.embopress.org/content/8/2/112

MENEGHINI, R. SciELO, Scientific Electronic Library Online, a database of open access journals. Higher Learning Res Commun. [online] 2013, vol. 3, no. 3, pp. 3-7 [viewed 26 February 2017]. DOI: 10.18870/hlrc.v3i3.153. Available from: http://www.hlrcjournal.com/index.php/HLRC/article/view/153

NASSI-CALÒ, L. Estudo aponta que artigos publicados em inglês atraem mais citações [online]. SciELO em Perspectiva, 2016 [viewed 26 February 2017]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2016/11/04/estudo-aponta-que-artigos-publicados-em-ingles-atraem-mais-citacoes/

PACKER, A. A internacionalização dos periódicos foi tema central da IV Reunião Anual do SciELO [online]. SciELO em Perspectiva, 2014 [viewed 26 February 2017]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2014/12/16/a-internacionalizacao-dos-periodicos-foi-tema-central-da-iv-reuniao-anual-do-scielo/

PACKER, A. Cresce a adoção do inglês entre os periódicos SciELO do Brasil [online]. SciELO em Perspectiva, 2016 [viewed 26 February 2017]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2016/05/10/cresce-a-adocao-do-ingles-entre-os-periodicos-scielo-do-brasil/

 

lilianSobre Lilian Nassi-Calò

Lilian Nassi-Calò é química pelo Instituto de Química da USP e doutora em Bioquímica pela mesma instituição, a seguir foi bolsista da Fundação Alexander von Humboldt em Wuerzburg, Alemanha. Após concluir seus estudos, foi docente e pesquisadora no IQ-USP. Trabalhou na iniciativa privada como química industrial e atualmente é Coordenadora de Comunicação Científica na BIREME/OPAS/OMS e colaboradora do SciELO.

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

NASSI-CALÒ, L. Internacionalização como indicador de desempenho de periódicos do Brasil: o caso da psicologia [online]. SciELO em Perspectiva, 2017 [viewed ]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2017/03/14/internacionalizacao-como-indicador-de-desempenho-de-periodicos-do-brasil-o-caso-da-psicologia/

 

2 Thoughts on “Internacionalização como indicador de desempenho de periódicos do Brasil: o caso da psicologia

  1. Pingback: Boletim de Notícias, 15/mar: algas de 1,6 bilhão de anos; palestras de física na web | Direto da Ciência

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Post Navigation