Ética editorial: as arbitragens fraudulentas

Foto: Jake Bouma

Foto: Jake Bouma.

Apesar de todas as precauções e seriedade profissional com que operam os periódicos científicos internacionais de prestígio, nos últimos meses começaram a surgir sinais preocupantes de fraudes no processo de arbitragem (peer review) que motivou a retratação de centenas de artigos. Isso inclui periódicos editados por importantes grupos editoriais como, entre outros, Springer, Wiley, Taylor & Francis, PLoS, Nature Publishing Group, e BioMed Central.

Os resultados de pesquisa realizados por equipes independentes fazem suspeitar de maneira fundamentada que, por detrás destes casos de má conduta científica, existem empresas organizadas que realizam um comércio lucrativo com processos de revisão fraudulentos. Por exemplo, oferecendo a pesquisadores agregar seu nome entre os autores de um artigo que está em processo de aceitação mediante um pagamento que pode chegar a USD 15.000 dependendo do Fator de Impacto do periódico onde se publique o artigo. Outro procedimento usado é aproveitar de fragilidades dos softwares de processamento de artigos das editoras, ingressando revisores “fantasmas” com endereços não institucionais, chegando ao caso, em várias situações, que o autor de um artigo pudesse ser um dos revisores de seu próprio artigo.

Uma pesquisa realizada pelo Scientific American analisou a linguagem de 100 artigos que continham padrões de texto suspeitos, com a aparência de terem sido manipulados para superar os controles de plágio, mas que, entretanto, se repetiam de um artigo ao outro (veja como enganar os programas na nota abaixo).

Entre os casos investigados destaca-se o de 32 artigos de metanálise, onde um certo “modelo” de texto se repetia sendo aplicado a diferentes artigos sobre variações de certos genes. Os artigos provinham de pelo menos 28 pesquisadores que trabalham em diferentes instituições e em ao menos quatro cidades diferentes da China. Este não é um simples caso de plágio, no qual pesquisadores independentes estejam copiando um mesmo segmento de texto por casualidade. Pelo contrário, o texto suspeito contém uma particularidade muito curiosa e reveladora no qual menciona-se o “diagrama de funil de Begger” (Begger’s funnel plot), que não existe. Este nome é um erro acidental onde se misturam os nomes dos pesquisadores em estadística Colin Begg e Matthias Egger, que inventaram uma ferramenta estatística para detectar vieses em estudos de metanálise.

O estudo do caso (Begger’s funnel plot) foi realizado por Guillon Filion1, em uma pesquisa digna da série televisiva CSI, em que, usando técnicas de filogenética computacional, pode-se reconstruir a genealogia dos artigos, chegando à conclusão que os diferentes artigos procedentes de diferentes instituições tinham um ghostwriter em comum em alguma instituição que fornecia serviços na China.

A equipe do Scientific American entrou em contato com a instituição MedChina que oferece dezenas de temas à venda (topics for sale) e contratos para transferência de artigos a periódicos científicos. O representante de MedChina explicou que os artigos que oferecem à venda já passaram pelo processo de arbitragem, só lhes faltam serem corrigidos e enviados novamente para publicação. O preço depende do Fator de Impacto do periódico solicitado e se a pesquisa é experimental ou de metanálise. Este problema de venda de artigos e projetos não surge somente a nível das publicações científicas porque, nas palavras de Yang Wei, presidente da Fundação Nacional de Ciências da China (NSFC)2, eles enfrentam o problema a cada ano quando devem avaliar mais de 150.000 solicitações a financiamento competitivo e encontram-se centenas de casos de “considerável similaridade”.

A Nature publicou recentemente uma série de indicadores (tips) aos editores que poderiam ser sinais de alerta de que o autor estaria tentando usar a seu favor as fragilidades do sistema automatizado de controle de arbitragem para assegurar que o revisor de seus trabalhos possa ser ele mesmo, ou algum de seus conhecidos a quem tenha recomendado.

  • O autor solicita a exclusão de alguns pareceristas e fornece uma lista da maioria dos cientistas da área.
  • O autor recomenda como revisores pessoas que não são facilmente encontradas online.
  • O autor fornece endereços de e-mail em Yahoo ou Gmail, e não em endereços de instituições acadêmicas.
  • Os artigos enviados ao revisor são retornados em tempos muito breves, as vezes apenas horas.

O mundo da publicação científica baseia-se, em última instância, em um sistema de honestidade, confiança e ética. Se o sistema de arbitragem começa a ser minado, apresenta-se uma ameaça considerável, que uma vez danificado será muito difícil restabelecê-lo. Por esta razão o Committee on Publication Ethics (COPE) interveio3, começando a trabalhar com os editores, agências de publicação e entidades nacionais relevantes para determinar como enfrentar esta nova situação a longo prazo.

Reflexões

A dura competição dos pesquisadores para conseguir que seus artigos possam ser publicados em periódicos arbitrados de prestígio, que lhes permita avançar em suas carreiras acadêmicas ou conseguir financiamento a projetos, faz com que em alguns casos certas pessoas rebaixem os níveis de ética e cedam ante oferecimentos pouco transparentes para conseguir um “lugar ao sol”.

Aparentemente está surgindo uma nova atividade comercial chamada “fábricas de artigos” (paper mills). Se há gente que quer comprar, sempre aparecerá alguém que queira vender. As “paper mills” agregam uma nova capa de complexidade ao problema do plágio e da editoração científica.

Os comentários das últimas semanas nos blogs especializados agregam muitas sugestões. Profissionalizar os editores executivos de periódicos, melhorar o software de gestão para arbitragem, não permitir aos autores sugerir revisores nos periódicos que oferecem esta possibilidade, ou impulsionar o conceito de arbitragem em acesso aberto?

Temos um novo problema, aceitam-se soluções.

Nota sobre como enganar os controles de plágio automatizados

Para superar os controles dos programas automatizados de controle de plágio de texto, é suficiente usar um procedimento quase artesanal.

  1. Pegue o texto de seu artigo e proceda ao controle de plágio com um dos programas clássicos (iThenticate, Turnitin, Urkund, ou qualquer outro).
  2. O resultado será um documento com uma série de observações referentes a partes de seu texto reconhecidos como plágio.
    2.1. Modifique os parágrafos marcados como suspeitos, alterando a ordem de algumas frases, fazendo paráfrases, ou usando sinônimos.
    2.2. Outro procedimento é traduzir o texto a outro idioma usando o Google e retornando a tradução. Por exemplo, escreva em inglês, traduza ao português, depois ao espanhol, e finalmente retorne ao inglês.
  3. Volte à etapa (1) até que o texto retorne sem observações.
  4. Se não houver observações, então seu texto não será considerado plágio pelos programas de controle.

O procedimento pode ser longo e trabalhoso, fato pelo qual algumas pessoas se perguntam se não seria melhor que o autor escrevesse diretamente o artigo4.

Notas

1 FILION, G. A flurry of copycats on PubMed. The Grand Locus. [viewed 26 December 2014]. Available from: http://blog.thegrandlocus.com/2014/10/a-flurry-of-copycats-on-pubmed.

2 For Sale: “Your Name Here” in a Prestigious Science Journal. Scientific American. [viewed 26 December 2014]. Available from: http://www.scientificamerican.com/article/for-sale-your-name-here-in-a-prestigious-science-journal/.

3 COPE statement on inappropriate manipulation of peer review processes. Publication Ethics. [viewed 26 December 2014]. Available from: http://publicationethics.org/news/cope-statement-inappropriate-manipulation-peer-review-processes.

4 “It’s fun to see new methods of chicanery surface as perpetrators are so inventive. In some cases you would think it was easier just to do the work right in the first place”. Comentário de Conrad Seitz.
It’s happened again: Journal “cannot rule out” possibility author did his own peer review. Retraction Watch. [viewed 26 December 2014]. Available from: http://retractionwatch.com/2014/11/10/it-happened-again-journal-cannot-rule-out-possibility-author-did-his-own-peer-review/.

Referências

Are companies selling fake peer reviews to help papers get published? Retraction Watch. [viewed 26 December 2014]. Available from: http://retractionwatch.com/2014/12/19/companies-selling-fake-peer-reviews-help-papers-get-published/.

Begger’s funnel plot: a marker for irregularities in scientific publication. Vacuum – Edward Vielmetti in Ann Arbor, MI 48104. Available from: http://vielmetti.typepad.com/vacuum/2014/12/beggers-funnel-plot-a-marker-for-irregularities-in-scientific-publication.html.

COPE statement on inappropriate manipulation of peer review processes. Publication Ethics. [viewed 26 December 2014]. Available from: http://publicationethics.org/news/cope-statement-inappropriate-manipulation-peer-review-processes.

FERGUSON, C, MARCUS, A, and ORANSKY, I. Publishing: The peer-review scam. Nature. 2014, vol. 515, nº 7528, pp. 480-482. [Viewed 27 November 2014] Available from: http://www.nature.com/news/publishing-the-peer-review-scam-1.16400.

FILION, G. A flurry of copycats on PubMed. The Grand Locus. [viewed 26 December 2014]. Available from: http://blog.thegrandlocus.com/2014/10/a-flurry-of-copycats-on-pubmed.

For Sale: “Your Name Here” in a Prestigious Science Journal. Scientific American. [viewed 26 December 2014]. Available from: http://www.scientificamerican.com/article/for-sale-your-name-here-in-a-prestigious-science-journal/.

HVISTENDAHL, M. China’s Publication Bazaar. Science. 2013, Vol. 342 nº 6162, pp. 1035-1039. DOI: 10.1126/science.342.6162.1035. Available from: http://www.sciencemag.org/content/342/6162/1035.full?sid=bf2d7b4f-0ec2-477b-8ee7-22acf7134d4b.

It’s happened again: Journal “cannot rule out” possibility author did his own peer review. Retraction Watch. [viewed 26 December 2014]. Available from: http://retractionwatch.com/2014/11/10/it-happened-again-journal-cannot-rule-out-possibility-author-did-his-own-peer-review/.

Publisher discovers 50 manuscripts involving fake peer reviewers. Retraction Watch. [viewed 26 December 2014]. Available from: http://retractionwatch.com/2014/11/25/publisher-discovers-50-papers-accepted-based-on-fake-peer-reviews/.

The Peer Review Scam: How authors are reviewing their own papers. Retraction Watch. [viewed 26 December 2014]. Available from: http://retractionwatch.com/2014/11/26/the-peer-review-scam-how-authors-are-reviewing-their-own-papers/.

Link Externo

Retraction Watch – <http://retractionwatch.com/category/by-reason-for-retraction/self-peer-review/>

 

spinakSobre Ernesto Spinak

Colaborador do SciELO, engenheiro de Sistemas e licenciado em Biblioteconomia, com diploma de Estudos Avançados pela Universitat Oberta de Catalunya e Mestre em “Sociedad de la Información” pela Universidad Oberta de Catalunya, Barcelona – Espanha. Atualmente tem uma empresa de consultoria que atende a 14 instituições do governo e universidades do Uruguai com projetos de informação.

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

SPINAK, E. Ética editorial: as arbitragens fraudulentas [online]. SciELO em Perspectiva, 2015 [viewed ]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2015/02/20/etica-editorial-as-arbitragens-fraudulentas/

 

5 Thoughts on “Ética editorial: as arbitragens fraudulentas

  1. odilon abrahin on February 24, 2015 at 23:55 said:

    Excelente texto!!!

    Existe também o revisor amigo, simplesmente um professor Dr. em geral conhece outros doutores, neste caso, ele sugere um revisor (amigo), e ainda cita alguns trabalhos deste amigo. Aumentando consideravelmente as chances de aceitação de seu manuscrito, depois este revisor “amigo” faz o procedimento inverso. Assim, todos ganham citações e aceites…….

    Onde ficou a ética e moral???

  2. É por isso que eu digo: se não cuidarmos do ser humano, nunca sairemos dessa engrenagem. Para cada sistema haverá sempre uma forma de burla, exceto se a pessoa sinceramente não quiser burlar. Nos maravilhamos com as conquistas tecnológicas das duas últimas décadas do século XX e deixamos de lado a formação moral e ética, que deveriam ser exercidas em todas as instâncias políticas, educacionais e de qualquer outro sistema social. Agora pagamos esse preço. E o pior é que há pessoas que não acreditam em mudança por meio da educação e preferem a coerção. No início, acho que ambas acabam andando juntas, mas devemos ter a perspectiva de que apenas a educação seja suficiente no futuro. Ao menos esse é o sonho!

  3. Waldinei Monteiro on March 9, 2015 at 10:34 said:

    Acredito que a única ferramenta que temos só funcionará a longo prazo, que é a educação. Insisto que depois que a necessidade de publicar passou a ser condição sine qua non para a obtenção tanto de reconhecimento junto às agências/instituições como de recursos, vivemos à beira da “selvageria”, onde publicar a todo custo é a regra.
    Por vezes deixamos o lado docente descoberto por tentar cobrir o lado pesquisa. As instituições ainda premiam o professor pesquisador pelos seus artigos, sejam eles escritos dentro ou não dos padrões requeridos pela ética, mas que foram produzidos em função da doação desse professor agora pesquisador, que muitas vezes em um ato heróico, solitário e até mesmo egoísta lançou mão dos recursos disponibilizados para se arriscar nessa epopéia. Por outro lado existem professores preocupados em construir o saber dentro do aprendiz universitário e desse construir muito resultado de pesquisa é possível ser produzido, e essa produção nem sempre tem o mesmo peso das outras que demandam mais investimento e por vezes infraestrutura refinada, além de cooperações nacionais/internacionais, por exemplo. Essa produção não aparece e nem sempre resulta imediatamente em retorno ao professor como recurso ou mesmo reconhecimento institucional, mas sim a longo prazo, quando esses por hora aprendizes estiverem do outro lado do balcão, atuando como profissionais quiçá, por vezes sendo professores, aí sim, alguma mudança teremos tomado conhecimento.
    Hoje vejo que temos que nos preocupar sim em produzir conhecimento, mas o principal de tudo está antes disso, temos que nos preocupar em formar pessoas. Isso é possível com educação.
    Como disse o Prof. Volpato, esse realmente é um sonho!

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