Ética Editorial – cronologia de um plágio

Prólogo

No ano 2006, pesquisadores japoneses informaram sobre uma técnica para criar células que tem a capacidade embrionária para se converter em quase qualquer tipo celular no corpo dos mamíferos, chamadas “células-mãe pluripotentes induzidas” (iPS). No início deste ano 2014, mais precisamente dia 27 de janeiro, outra equipe japonesa, liderada por Haruko Okobata, do famoso Instituto RIKEN de Biologia do Desenvolvimento do Japão, publicou na revista Nature um método surpreendentemente simples, que permite que as células sejam mais maleáveis que as iPS, através de um método mais rápido e mais eficiente.

Este descobrimento causou um grande impacto nos meios dedicados ao estudo das células-mãe. Antes de 2006 a pesquisa com células embrionárias se realizava com células procedentes de embriões destruídos, o que provocava protestos por razões éticas e religiosas.

Quando no ano 2006 os japoneses apresentam a tecnologia iPS, foi uma revolução, porque como explica um artigo no The Boston Globe:

O descobrimento de que células-mãe similares às embrionárias poderiam ser produzidas em um laboratório por meio da “reprogramação” de células maduras foi aclamado como um grande avanço na pesquisa e reconhecido com uma participação do Premio Nobel em 2012. (JOHNSON 2014) (Tradução livre)

Graças a estes descobrimentos, a pesquisa em células-mãe começou a receber centenas de milhões de dólares de fontes públicas e privadas.

Então agora, em janeiro de 2014, o descobrimento publicado em Nature por Obokata, do Instituto RIKEN, daria um impulso incrível para gerar células de modo mais rápido e eficiente, e que seriam utilizadas para tratar enfermidades nos tecidos que foram lesionados ou que se perderam completamente.

Começa a história

Fevereiro de 2014

Começam a surgir vozes dissidentes. Poucos dias depois da publicação na Nature, vários cientistas relataram suas preocupações sobre esta pesquisa em um blog, e publicaram mais de una dezena de posts sobre a manipulação das imagens incluídas no artigo de Obokata na Nature¹, e a possibilidade de plágio pela equipe de autores.

12 de março de 2014

A notícia do possível plágio e manipulação de dados se espalha e vários meios de comunicação ao redor do mundo publicam artigos sobre as denuncias e a possibilidade de que Obokata deveria fazer uma retratação do artigo e a Nature deveria agir de forma responsável.

14 de março de 2014

The Wall Street Journal informa que o diretor do Instituto RIKEN, Ryoji Noyori, premio Nobel ele próprio, pede desculpas pelos possíveis erros de estes trabalhos, e estabelece um comitê de pesquisa sobre o tema.

Então, um novo artigo no The Boston Globe² introduz a suspeita de que, além de manipulação de imagens, poderia haver um caso de plágio. No curso de poucas semanas, outros laboratórios tentaram replicar o experimento, mas como foi informado pelo Instituto Whitehead de pesquisa biomédica, associado ao MIT, as tentativas haviam sido infrutíferas. Nestes dias três coautores do artigo de Obokata ofereceram para se retratar, mas os outros autores não aceitaram. O Instituto RIKEN informa que teriam encontrado ao menos dois casos de manipulação de imagens, além do possível plágio da seção “Métodos”, que teria sido tomada da tese de doutorado de Obokata que, por outra parte, é uma descrição diferente do procedimento efetivamente utilizado.

20 de março de 2014

A controvérsia sobre Haruko Obokata e a possibilidade de que as acusações de plágio estejam corretas surgem como ameaças ao congelamento de fundos para financiar pesquisas com células-mãe.

17 de abril de 2014

O Instituto RIKEN, fundado em 2007, é um departamento especializado da Universidade de Weseda, criada em 1882 é de muito alto prestígio no Japão. Devido às críticas sobre o trabalho da equipe de Obokata, pelas dificuldades de replicar os resultados, e as acusações de plágio, a Universidade demandou uma investigação… não apenas sobre estes trabalhos, mas sobre TODAS as teses de doutorado aprovadas no instituto desde sua fundação, uma estimativa de 280 teses no total.

A investigação não será rápida ou fácil. Os primeiros resultados não são esperados até julho, com mais sondagens em profundidade para serem realizadas em qualquer tese que mostre evidência de alguma falta grave. (BAILEY 2014) (Tradução livre)

Epílogo

Deve ser destacada a reação séria e responsável da Universidade Weseda, pois consideraram que é prudente tomar medidas drásticas para avançar neste problema, devido a que o escândalo vem atraindo a atenção internacional sobre a instituição. Foram analisadas TODAS as teses aprovadas em busca de evidencia de falta grave e/ou plágio.

Minhas reflexões

O que aconteceria caso as universidades dos países que compreendem o Programa SciELO fizessem um controle de plágio em todas as teses que se foram apresentadas ao longo dos últimos anos?

Poderia resultar em um genocídio de teses?

Visto que o problema existe, inclusive nas instituições e periódicos de elite como Nature, não seria uma necessidade imperiosa que os periódicos SciELO estabelecessem explicitamente em sua metodologia um procedimento de verificação de plagio?

A qualidade de um periódico não se estabeleceria somente por considerações formais, como comitê editor, cumprimento da frequência, resumo em dois idiomas, revisão por pares, etc., porém inclusive estabelecendo um sistema ou procedimento para detectar plágio.

O tema está aberto a opiniões na sessão Comentários.

Notas

¹ Alleged image manipulation. Haruko Obokata, STAP stem cells. 2014. http://stapcell.blogspot.in/

² JOHNSON, C. Y. Allegations are now swirling that the paper has issues with plagiarism. Probe of stem cell research finds errors, but no fraud so far. The Boston Globe. 14 March 2014. Available from: http://www.bostonglobe.com/news/science/2014/03/14/japanese-investigation-stem-cell-research-finds-errors-but-fraud-far/ZOoT6haaj6hWYpScF1gqUK/story.html

Referências

OBOKATA, H., et al. Stimulus-triggered fate conversion of somatic cells into pluripotency. Nature. 30 January 2014, vol. 505. Available from: http://www.nature.com/nature/journal/v505/n7485/full/nature12968.html

CYRANOSKI, D. Acid bath offers easy path to stem cells: Just squeezing or bathing cells in acidic conditions can readily reprogram them into an embryonic state. Nature. 2014, vol. 505. Available from: http://www.nature.com/news/acid-bath-offers-easy-path-to-stem-cells-1.14600

JOHNSON, C. Y. Scientists discover a new, simpler way to make stem cells. The Boston Globe. 29 January 2014. Available from: http://www.bostonglobe.com/news/science/2014/01/29/scientists-discover-new-simpler-way-make-stem-cells/EakSV8vc98L1wYqh97F3rK/story.html

The “landmark” stem cell paper may be retracted. The Hindu. 12 March 2014. Available from: http://www.thehindu.com/sci-tech/science/the-landmark-stem-cell-paper-may-be-retracted/article5777550.ece

MARTIN, A., and SEKIGUCHI, T. Head of Japan’s Riken Institute Apologizes Over Stem-Cell Papers. Disputed Papers Contained ‘Serious Errors’. The Wall Street Journal. 14 March 2014. Available from: http://online.wsj.com/news/articles/SB10001424052702304914904579438131341933464?mg=reno64-wsj&url=http%3A%2F%2Fonline.wsj.com%2Farticle%2FSB1000142405270230491490457943813 1341933464.html

Interim report on the investigation of the Obokata et al. articles. RIKEN. 14 March 2014. Available from: http://www.riken.jp/en/pr/press/2014/20140314_1/

BAILEY, J. Plagiarism Allegations Chill Promising Stem Cell Research. IThenticate. 20 March 2014. Available from: http://www.ithenticate.com/plagiarism-detection-blog/plagiarism-allegations-chill-promising-stem-cell-research#.U1WgkGwU-00

BAILEY, J. Japanese University to Evaluate All Science and Engineering Theses. iThenticate.17 April 2014. Available from: http://www.ithenticate.com/plagiarism-detection-blog/japanese-university-to-evaluate-all-science-and-engineering-theses?utm_campaign=blog-alerts&utm_source=hs_email&utm_medium=email&utm_content=12538321&_hsenc=p2ANqtz–uRAvZffrhmBtVF-vJmW_U8QbxHon8DChGhB1XqWDSN0-iPzsmMMmXadK2MB9Z2zDgltFSQQpN02SuTbB3bzD93YaKiw&_hsmi=12538321#.U1WgT2wU-00

 

spinakSobre Ernesto Spinak

Colaborador do SciELO, engenheiro de Sistemas e licenciado en Biblioteconomia, com diploma de Estudos Avançados pela Universitat Oberta de Catalunya e Mestre em “Sociedad de la Información” pela  Universidad Oberta de Catalunya, Barcelona – Espanha. Atualmente tem uma empresa de consultoria que atende a 14 instituições do governo e universidades do Uruguai com projetos de informação.

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

SPINAK, E. Ética Editorial – cronologia de um plágio [online]. SciELO em Perspectiva, 2014 [viewed ]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2014/05/22/etica-editorial-cronologia-de-um-plagio/

 

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