Rumo à inovação e renovação da gestão dos periódicos SciELO

Por Abel Packer

Ao concluir mais um ano de operação, a equipe do Programa SciELO deseja a todos os leitores do blog SciELO em Perspectiva Boas Festas e que o ano de 2014 seja pleno de realizações. O ano de 2013 foi marcante na história do SciELO e da sua parceria com as instituições e sociedades científicas que publicam periódicos de qualidade. A comemoração dos 15 anos de operação regular do programa e da Rede SciELO foi enriquecida pela ampla e profunda análise e debate dos seus acertos e avanços, das lições aprendidas, dos problemas que persistem, assim como, dos desafios e perspectivas futuras que se apresentam.

A Reunião da Rede SciELO e a Conferência SciELO 15 Anos, realizadas entre 22 e 25 de outubro de 2013, serviram de fórum público para que a análise e o debate em torno do Programa SciELO, convergissem com o debate internacional das conjunturas, forças e dos principais temas que estão promovendo a renovação da comunicação científica, a partir das características próprias dos periódicos dos países em desenvolvimento e emergentes. A avaliação da proposta e dos resultados da conferência, feita por cerca de 30% dos participantes, foi muito positiva: 86% tiveram suas expectativas correspondidas e 89% consideraram as conferências como muito boas (37.5%) ou excelentes (53.5%) e alinhadas com o estado atual da comunicação científica.

Nos últimos anos, e mais particularmente em 2013, aumentaram as manifestações de questionamentos dos meios de comunicação da pesquisa em consequência das inovações,  reestruturações e soluções em curso que apontam para o acesso aberto, a publicação continuada de artigos no lugar de fascículos, o uso de ferramentas das redes sociais para a gestão e disseminação de informação, novas métricas para medir influência, uso e impacto dos artigos, etc. Certamente as inovações, reestruturações e novas soluções afetam interesses econômicos e poderes arraigados, assim como resistências às mudanças per se.

Os questionamentos de maior impacto na comunidade científica e na sociedade vieram de reportagens da Nature, Science e The Economist e da sua repercussão nos blogs acadêmicos e  jornais.  Estes questionamentos realçam as ameaças à condução clássica das funções que são críticas para a pesquisa e comunicação científica, como é a reprodutibilidade dos experimentos, a avaliação séria e transparente dos manuscritos por pares e o impacto real e influência das pesquisas além das medidas, muitas vezes viciadas, dos indicadores bibliométricos baseados em citações. Muitos dos questionamentos e das repercussões se justificam pelo aumento da retratação de artigos por diferentes tipos de fraudes e comportamentos reprovados pela ética da comunicação científica, pelo uso indevido de indicadores bibliométricos, como o fator de impacto, para avaliar a qualidade da pesquisa e a proliferação dos chamados periódicos predatórios que exploram o mecanismo de taxa de publicação (Article Processing Charge) para a arrecadação de dinheiro e publicação sem critérios de qualidade. No Brasil, aos questionamentos listados soma-se a crítica crescente ao chamado produtivismo científico.

Em consequência, a análise e debate sobre o Programa SciELO reafirmaram e aprimoraram as linhas prioritárias de ação que vem orientando o seu desenvolvimento nos últimos anos, ou seja, a profissionalização, a internacionalização e sustentabilidade da gestão e operação dos periódicos, considerando e privilegiando as particularidades das diferentes áreas temáticas. Entre as expectativas previstas e/ou desejáveis relativas ao aperfeiçoamento dos periódicos SciELO, destacamos as seguintes:

  • Valorização crescente dos periódicos publicados nacionalmente como componentes essenciais da infraestrutura nacional de pesquisa e comunicação científica que asseguram a cobertura de temas e prioridades de pesquisa e de formas mais adequadas de comunicação dos seus resultados, incluindo o uso do multilinguismo.
  • Desenvolvimento da plataforma SciELO de serviços comuns de editoração, publicação, indexação e interoperabilidade como meio de profissionalizar e internacionalizar os periódicos realçando sua independência editorial, características próprias, políticas editoriais e prioridades de pesquisa. O desenvolvimento e operação da plataforma comum de serviços visa dotar os periódicos com capacidade de gestão dos manuscritos, revisão de textos, formatação, publicação e disseminação equivalente aos periódicos de referência internacional. A diminuição radical dos tempos de processamento dos manuscritos é um dos principais resultados esperados. O desenvolvimento da plataforma visa minimizar os custos fixos de operação por meio do uso de escalas de serviços de qualidade e assim contribuir para o fortalecimento e a sustentabilidade financeira dos periódicos.
  • A plataforma de serviços comuns do SciELO facilitará também a adoção das inovações que vem se consolidando internacionalmente, como é a publicação continuada dos artigos sem a composição de fascículos, formas mais eficientes e transparentes de revisão dos manuscritos, uso intensivo das redes sociais, etc.
  • Fortalecimento das funções e objetivos clássicos do Programa SciELO em contribuir para ampliar e fortalecer a visibilidade, disponibilidade, uso, impacto e credibilidade dos periódicos de qualidade que indexa. Neste sentido, o programa vem ampliando as alianças e as instâncias de indexação e interoperabilidade internacional como é a operação a partir de 2014 do SciELO Citation Index na plataforma Web of Science da Thomson Reuters, o aprimoramento da interoperabilidade com o Google Acadêmico, o CROSSREF, o ORCID e as plataformas de gestão e intercâmbio de informação como Mendeley e o uso das ferramentas de redes sociais, como é o caso do blog SciELO em Perspectiva que prevê a publicação de conteúdos das diferentes áreas temáticas a partir da experiência iniciada com os periódicos de ciências humanas.
  • Fortalecimento da modalidade de publicação em acesso aberto com base no princípio que o conhecimento científico é um bem público, particularmente quando financiado por recursos públicos e que deve ser democratizado como forma de ampliar o seu uso e impacto. O SciELO foi pioneiro na adoção do acesso aberto e trouxe uma contribuição marcante para a disseminação da pesquisa nos países onde opera. De fato, a América Latina é a região do mundo cujos periódicos de qualidade são prioritariamente publicados em acesso aberto. Entretanto, existe sempre a preocupação com retrocessos como ocorreram nos últimos anos com sociedades científicas e instituições de pesquisa que abandonaram a publicação dos seus periódicos em acesso aberto para operarem sob a égide de publishers comerciais.  A expectativa é que essas sociedades e instituições alinhem-se no futuro próximo com o movimento internacional de acesso aberto.

Os desenvolvimentos relacionados requerem também avanços, inovações e renovações nas políticas nacionais de avaliação e financiamento dos periódicos. Muitas destas políticas estão baseadas em soluções formuladas há muitos anos, e se tornaram obsoletas em relação às modalidades contemporâneas de editoração, publicação e interoperabilidade da informação científica. A proposta da plataforma SciELO de serviços comuns, baseada no custeio por artigo e utilizando serviços de acordo com o estado da arte, contribui para que as agências de fomento reorientem suas políticas de apoio e financiamento da comunicação científica.

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

PACKER, A. Rumo à inovação e renovação da gestão dos periódicos SciELO [online]. SciELO em Perspectiva, 2013 [viewed ]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2013/12/18/rumo-a-inovacao-e-renovacao-da-gestao-dos-periodicos-scielo/

 

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