Wellcome Open Research, o futuro da Comunicação Científica? [Publicado originalmente no blog LSE Impact of Social Sciences em fevereiro/2019]

Por Robert Kiley e Michael Markie

Imagem: Leyre Labarga.

Trata-se de um momento interessante para a publicação científica. A tecnologia e inovações que contornam barreiras ao compartilhamento da pesquisa e permitem acesso rápido à pesquisa que antes eram apenas ideias, são agora comuns. Esta tendência é exemplificada pelo rápido crescimento e aceitação de servidores de “preprints” (por exemplo, bioRxiv) e plataformas de publicação apoiadas por financiadores, como o Wellcome Open Research, que estão alterando os sistemas legados de publicação de pesquisa.

No entanto, grande parte da indústria editorial demorou a se adaptar às oportunidades oferecidas pela Internet e permaneceu restrita a sistemas de avaliação de pesquisa que valorizam mais onde alguém publicou, do que o valor intrínseco do que foi publicado. Entretanto, isso está mudando e está sendo impulsionado por uma demanda da comunidade de pesquisa por sistemas mais racionais e holísticos de avaliação de pesquisa.

Este impulso para acelerar o impacto da pesquisa através de práticas de pesquisa mais colaborativas e abertas é agora prioridade para muitas agências de fomento à pesquisa. Uma que se destaca pelo crescente número de agências de financiamento de pesquisa, que aderiram aos princípios da Declaração de São Francisco sobre Avaliação de Pesquisa (San Francisco Declaration on Research Assessment, DORA1) e as demandas mais contundentes que estão sendo feitas pelos financiadores de pesquisa para que os pesquisadores forneçam acesso rápido e aberto às suas descobertas (mais recentemente anunciadas pelo Plano S2).

Wellcome Open Research

Em 2016, o Wellcome decidiu experimentar um modelo de publicação focado não apenas em acesso aberto, mas em todos os aspectos da pesquisa aberta. O resultado foi o Wellcome Open Research3. Uma plataforma que foi desenvolvida com o F1000 para prover acesso aberto como padrão, mas também para ir muito além, permitindo que os pesquisadores publiquem e compartilhem uma ampla gama de resultados de pesquisa; protocolos de estudo, notas de dados, bem como artigos de pesquisa tradicionais.

A plataforma tem uma política obrigatória de dados abertos – todos os artigos incluem uma declaração de disponibilidade de dados/software – que permite que a comunidade use, reutilize e elabore sobre pesquisas publicadas. Nos casos em que os dados não podem ser compartilhados abertamente por razões legais ou éticas, a declaração de disponibilidade de dados deve explicar o processo pelo qual um pesquisador pode obter acesso.

O outro princípio importante do Wellcome Open Research é que o processo de revisão por pares é completamente aberto e ocorre após o artigo ser publicado. Sob este modelo, o papel dos pareceristas convidados não é aceitar ou rejeitar um artigo para publicação – isso já foi há muito superado – porém ajudar os autores a aperfeiçoar seu trabalho. Esse processo transparente resultou em revisões construtivas e diálogo civil entre autores e pareceristas, que se comunicam diretamente, sem um editor que arbitre as decisões ou atue como gatekeeper.

Nos dois anos em que o Wellcome Open Research está em operação, publicamos artigos de 2185 autores únicos, afiliados de 727 instituições de 73 países. Dos 166 artigos publicados em 2018, 73 (44%) eram artigos de pesquisa não tradicionais, cujos pesquisadores até então tiveram dificuldades em publicar em outros veículos. É importante ressaltar que os artigos na plataforma também são bem lidos e citados, e que 32% de todos os artigos têm ao menos uma citação, enquanto o artigo mais citado4 recebeu 13 citações5 (de acordo com o PMC Europa) e 22 citações6 (de acordo com a plataforma Dimensions).

Uma das coisas mais encorajadoras sobre o Wellcome Open Research é que este modelo de publicação foi adotado por pesquisadores financiados pelo Wellcome e é agora a 4a via mais utilizada por pesquisadores financiados pelo Wellcome para publicar suas descobertas. O número de publicações na plataforma aumentou 38% nos últimos 12 meses, e as submissões continuam a crescer. A resposta de uma pesquisa de autores também destacou que a velocidade da publicação e a capacidade de compartilhar uma variedade de resultados de pesquisa foram as principais razões pelas quais os autores usaram a plataforma. Em relação ao tempo de publicação, o tempo médio desde a submissão até o artigo passar pela revisão por pares e ser submetido para indexação no PubMed e Scopus é de apenas 77 dias.

Os custos de publicação no Wellcome Open Research também são significativamente menores do que em outros locais de publicação. Em dezembro de 2018, o Wellcome havia sido faturado por 297 artigos a um custo total de £ 204.315; o que resulta em uma APC (article processing charge, taxa de processamento de artigo) média de £ 688 (£ 825, incluindo impostos). Em contraste, o valor médio de APC pago pelo Wellcome no ano 2016-17 foi de £ 2.269. De forma simplificada, a publicação no Wellcome Open Research é 64% mais barata que uma APC média.

Como acontece com qualquer modelo de publicação, há elementos que poderiam ser melhorados e estamos constantemente evoluindo. Por exemplo, estamos mudando as perguntas que os pareceristas fazem ao revisar os protocolos clínicos, lembrando que tais submissões já foram aprovadas pelos comitês de revisão institucionais e que o ensaio clínico já pode ter sido iniciado.

Como será o futuro?

Vários outros financiadores de pesquisa também desenvolveram suas próprias plataformas de publicação; incluindo a Fundação Bill e Melinda Gates (Gates Open Research7), o Conselho de Pesquisa em Saúde da Irlanda (HRB Open Research8) e a Academia de Ciências da África do Sul (AAS Open Research9). Imagine, no entanto, se toda a pesquisa original foi publicada usando os princípios abertos que temos desenvolvido e testado com o F1000 e que podem ser conectadas e disponibilizadas por meio de um único portal aberto?

Neste futuro potencial, o conteúdo seria independente de editores, mas o conteúdo da pesquisa teria que ser publicado de uma maneira compatível com princípios abertos e aqueles requeridos por financiadores e instituições. De uma só vez, disponibilizamos todas as descobertas da pesquisa mais rapidamente e, com base na experiência do Wellcome, a custos mais baixos do que o sistema atual.

Ademais, o requisito de incluir declarações de disponibilidade de dados/software apoiaria os esforços para garantir que a pesquisa fosse reprodutível. A reprodutibilidade poderia ser melhorada ainda mais pelo fato de que a plataforma encorajaria todos os elementos do processo de pesquisa – protocolos, notas de dados, software, etc. – a serem publicados.

Uma consequência do fato de que a plataforma publicaria tudo – depois que as verificações básicas da idoneidade da publicação fossem realizadas, como detecção de plágio, disponibilidade de software, etc. – seria que os problemas de desperdício de pesquisa e viés de publicação também seriam resolvidos.

Este sistema também anunciaria uma maneira nova (e melhor) de realizar a avaliação do pesquisador, já que não seria mais possível usar o nome do periódico como selo de qualidade (já que todos os artigos são publicados sob o mesmo conjunto de princípios, tornando o nome da plataforma irrelevante).

Uma desvantagem potencial seria a dificuldade de separar o joio do trigo, ou a sobrecarga de informação, um serviço que os periódicos tipicamente procuraram oferecer. No entanto, sob este modelo, outras agências, especialmente as sociedades científicas, poderiam assumir um novo papel para resolver este problema. Não tendo mais que competir para publicar pesquisa original, as sociedades cientificas poderiam usar a expertise de seus membros para identificar as melhores pesquisas em suas respectivas áreas publicadas na plataforma.

Tal serviço de curadoria, no qual os especialistas não apenas selecionam a melhor pesquisa, mas explicam por que eles a consideraram impactante, também pode se tornar uma fonte de receita. Isso é especialmente importante, pois as sociedades científicas estão lutando para ver como podem continuar a apoiar o ecossistema de pesquisa sob um modelo do Plano S. Se este modelo se tornasse prevalente, os artigos poderiam começar a atrair selos de excelência de diferentes curadorias. De fato, um único artigo poderia ter vários selos, todos baseados na qualidade e no impacto desta pesquisa e não no veículo de publicação.

Conclusão

O modelo de publicação, desenvolvido pelo F1000 e implementado por vários financiadores, mostra que há uma forma diferente de publicação: uma que é mais rápida, mais aberta e mais transparente do que o sistema atual baseado em periódicos.

Se os princípios usados por esta plataforma fossem adotados universalmente, acreditamos que haveria benefícios significativos para a ciência e a sociedade. No Wellcome Trust, um dos nossos princípios é “agir com ousadia”. A plataforma Wellcome Open Research é uma evidência de que vivemos esse mantra e encorajamos outras pessoas a seguirem nosso exemplo e ajudamos a criar sistemas acadêmicos de comunicação e avaliação de pesquisa adequados para o século XXI.

Notas

1. San Francisco Declaration on Research Assessment (DORA) <https://sfdora.org/>

2. SCHILTZ, M. Why Plan S? [online] Coalition S. 2018 [viewed 27 February 2019]. Available from: https://www.coalition-s.org/why-plan-s/

3. Wellcome Open Research <https://wellcomeopenresearch.org/>

4. STEMPOR, P. and AHRINGER, J. SeqPlots – Interactive software for exploratory data analyses, pattern discovery and visualization in genomics. Wellcome Open Research [online]. 2016 [viewed 27 February 2019]. DOI: 10.12688/wellcomeopenres.10004.1. Available from: https://wellcomeopenresearch.org/articles/1-14/v1

5. CITES:27918597_MED – Search Results – Europe PMC <https://europepmc.org/search?query=CITES:27918597_MED>

6. Dimensions – SeqPlots – Interactive software for exploratory data analyses, pattern discovery and visualization in genomics <https://badge.dimensions.ai/details/id/pub.1064612987/citations>

7. Gates Open Research <https://gatesopenresearch.org/>

8. HRB Open Research <https://hrbopenresearch.org/>

9. AAS Open Research <https://aasopenresearch.org/>

Referências

KILEY, R. and CARR, D. Open access and Plan S: how Wellcome is tackling four key concerns [online]. Wellcome. 2019 [viewed 27 February 2019]. Available from: https://wellcome.ac.uk/news/open-access-and-plan-s-how-wellcome-tackling-four-key-concerns

STEMPOR, P. and AHRINGER, J. SeqPlots – Interactive software for exploratory data analyses, pattern discovery and visualization in genomics. Wellcome Open Research [online]. 2016 [viewed 27 February 2019]. DOI: 10.12688/wellcomeopenres.10004.1. Available from: https://wellcomeopenresearch.org/articles/1-14/v1

SCHILTZ, M. Why Plan S? [online] Coalition S. 2018 [viewed 27 February 2019]. Available from: https://www.coalition-s.org/why-plan-s/

Links externos

AAS Open Research <https://aasopenresearch.org/>

CITES:27918597_MED – Search Results – Europe PMC <https://europepmc.org/search?query=CITES:27918597_MED>

Dimensions – SeqPlots – Interactive software for exploratory data analyses, pattern discovery and visualization in genomics <https://badge.dimensions.ai/details/id/pub.1064612987/citations>

F1000 <https://f1000.com/>

Gates Open Research <https://gatesopenresearch.org/>

HRB Open Research <https://hrbopenresearch.org/>

San Francisco Declaration on Research Assessment (DORA) <https://sfdora.org/>

Wellcome Open Research <https://wellcomeopenresearch.org/>

 

Sobre Robert Kiley

Robert Kiley é Chefe de Pesquisa Aberta no Wellcome Trust e lidera o trabalho de alinhamento da política de acesso aberto do Wellcome ao Plano S.

Sobre Michael Markie

Michael Markie é Diretor de Publicação no F1000.

 

Artigo original em inglês

https://blogs.lse.ac.uk/impactofsocialsciences/2019/02/22/wellcome-open-research-the-future-of-scholarly-communication/

 

Traduzido do original em inglês por Lilian Nassi-Calò.

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

KILEY, R. and MARKIE, M. Wellcome Open Research, o futuro da Comunicação Científica? [Publicado originalmente no blog LSE Impact of Social Sciences em fevereiro/2019] [online]. SciELO em Perspectiva, 2019 [viewed ]. Available from: https://blog.scielo.org/blog/2019/02/27/wellcome-open-research-o-futuro-da-comunicacao-cientifica/

 

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