Práticas de comunicação científica na Física de Altas Energias: potencialidade dos preprints

Por Gonzalo Rubén Alvarez e Sônia Elisa Caregnato

Na área da Física de Partículas e Campos, também conhecida como Física de Altas Energias (FAE), a preocupação e a necessidade da rápida circulação da informação e divulgação das descobertas científicas entre os membros da comunidade remontam à década de 1960. Por muito tempo, as clearinghouses serviram como canais de informação alternativos, constituindo-se como repositórios institucionais de armazenamento e disseminação de versões preliminares de artigos, cujo objetivo era estimular a aceleração da comunicação das pesquisas entre os físicos, contornando assim a demora provocada pelo processo de avaliação por pares exigido pelas revistas especializadas da área.

A adoção de um sistema de comunicação pode variar conforme as particularidades de cada disciplina e área, e está relacionada com o objeto de estudo, a estrutura organizacional, o método de investigação, a natureza da pesquisa (teórica/experimental), entre outros. Constituída no interior das grandes colaborações internacionais (teamwork), a FAE exige altos investimentos financeiros para a realização dos complexos programas experimentais distribuídos em pouquíssimos laboratórios. Nesse contexto, a rapidez na transmissão das informações científicas é primordial no campo visto que o atraso no processo de comunicação pode ter consequências graves, inviabilizando a continuação das pesquisas com os “grandes” detectores e aceleradores de partículas, provocando significativas perdas econômicas e duplicidade dos experimentos.

A “cultura” de preprints na FAE oportuniza a participação dos membros de “colégios invisíveis” na avaliação e controle da qualidade de resultados preliminares de pesquisa, promovendo a colaboração remota entre os físicos e o consenso na validação dos dados científicos. Iniciativas Open Access que possibilitassem a livre circulação das informações e o autoarquivamento de relatórios e manuscritos em repositórios institucionais ou clearinghouses, com a finalidade de aumentar a visibilidade e a interação entre os pesquisadores deixaram de ser novidade na FAE há muito tempo. Dessa conduta, em 1969, foi desenvolvido no interior do centro de pesquisa norte-americano Stanford Linear Accelerator Center (SLAC) o primeiro servidor de preprints, o Stanford Public Information Retrieval System (SPIRES). No início da década de 1970, a Stanford University, detentora do SLAC, adota o SPIRES com fins acadêmicos, buscando atender as demandas informacionais dos seus professores, alunos e funcionários. A evolução de SPIRES como sistema de informação foi marcada pelo advento da World Wide Web em 1991 e pela ação colaborativa de diversos laboratórios na área da física experimental: European Organization for Nuclear Research (CERN), Deutsches Electronen Síncrotron (DESY), Fermi National Accelerator Laboratory (Fermilab) e SLAC. Ao trabalharem conjuntamente no desenvolvimento do SPIRES, esses laboratórios aperfeiçoaram-no para funcionar como um banco de dados interoperável com outros repositórios de preprints, como arXiv, NASA-ADS, PDG, HepData e ele, então, passou a ser conhecido como INSPIRE.

O arXiv é um repositório temático de acesso aberto em Física, criado por Paul Ginsparg em 1991 no Los Alamos National Laboratory (LANL), abrangendo preprints de diversas outras áreas, além da principal, como Biologia Quantitativa, Ciências da Computação, Economia, Engenharia Elétrica e Ciência de Sistemas, Estatística, Finanças e Matemática. O arXiv é uma prática inovadora que complementa o sistema de publicação tradicional, propiciando a divulgação imediata de resultados científicos e a aceleração da comunicação entre os membros da comunidade. A utilização do arXiv como repositório de pré-publicações não é obrigatória para os pesquisadores, mas se apresenta como uma alternativa para os físicos buscando o reconhecimento da autoria de uma investigação por parte dos colegas e uma maior visibilidade da produção.

A potencialidade dos preprints como fontes de comunicação científica foi corroborada por alguns pesquisadores, dentre eles Alvarez e Caregnato1, ao comprovarem que 70% dos documentos submetidos no arXiv no período de 2010-2015 foram posteriormente publicados pelos principais veículos de divulgação da área. Tal indicador retrata uma coexistência pacífica entre dois canais de difusão com características e objetivos diferentes, os preprints e os artigos originais. A pré-publicação como mecanismo para acelerar o processo de comunicação entre os cientistas parece ser uma prática consolidada em áreas como a FAE. Ainda, ela promove a curiosidade, a atenção e a interação científica, estimulando a participação dos pares, através de comentários e sugestões, no desenvolvimento das investigações, tornando o processo de construção do conhecimento mais consensual e colaborativo.

A respeito da confiabilidade que os preprints como canal de comunicação oferecem em áreas como a FAE, cientistas filiados ao CERN como Goldschmidt-Clermont2 acreditam que eles, de fato, podem conferir prioridades no âmbito da ciência, no sentido que, de acordo com o código de ética da comunidade de físicos de altas energias, o crédito e a autoria devem ser dados a um pesquisador para uma contribuição original, seja apenas uma ideia ou sugestão, independentemente da forma oral ou escrita em que ela é expressa. Apesar de toda a desconfiança gerada no meio acadêmico com a possibilidade de que o mercado possa ser “inundado” rapidamente com preprints a fim de garantir prioridades antiéticas, a autora citada afirma que a grande maioria de cientistas dá pouca atenção às práticas desonestas; ignorância, desprezo, indiferença e ironia são importantes meios de coerção em FAE. Dada a complexidade dos experimentos e o alto investimento que a pesquisa na área precisa para se concretizar, o anúncio dos resultados científicos devem passar necessariamente pelo julgamento da comunidade para que eles sejam validados e reconhecidos para dar início a novas investigações.

Além do arXiv na Física, outras áreas, inspiradas possivelmente nessa iniciativa, já instalaram seus repositórios de preprints com o intuito de melhorar a divulgação e discussão dos resultados de pesquisa. É caso do Cognitive Sciences Eprint Archive (CogPrints) que permite o autoarquivamento de documentos nas áreas de Antropologia (Arqueologia, Paleontologia), Biologia, Ciências da Computação (Inteligência Artificial, Robótica), Filosofia, Linguística, Medicina (Psiquiatria, Neurologia, Genética Humana), Neurociências, Psicologia, além de outras disciplinas incluídas nas ciências físicas, sociais e matemáticas e do Research Papers in Economics (RePEc) que proporciona a inclusão de manuscritos na área da Economia (RePEc, 2018).

No quesito inovação, entendemos que o sucesso alcançado pelas iniciativas Open Access SPIRES e arXiv na área da Física de Altas Energias aqui comentado, vai ao encontro do empreendimento do SciELO para implementar um servidor de preprints em 2018. A campanha do SciELO visa melhorar e acelerar o processo de comunicação científica em diferentes disciplinas através do uso e submissão de preprints, além de garantir aos pesquisadores a correspondente autoria pela descoberta. Certamente, a iniciativa trará discussões no âmbito dos processos editoriais e da avaliação da produção científica. No entanto, se torna primordial para refletirmos acerca da importância da rapidez da comunicação e o livre acesso à informação, visando a extensão da investigação nos diferentes campos científicos.

Esse post é baseado no artigo dos autores, “Preprints na comunicação científica da Física de Altas Energias: análise das submissões no repositório arXiv (2010-2015)”1, publicado no periódico Perspectivas em Ciência da Informação (DOI: 10.1590/1981-5344/2830).

Notas

1. ALVAREZ, G.R. and CAREGNATO, S.E. Preprints na comunicação científica da Física de Altas Energias: análise das submissões no repositório arXiv (2010-2015). Perspectivas em Ciência da Informação [online]. 2017, vol. 22, no. 2, pp. 104-117, ISSN: 1981-5344 [viewed on 15 February 2018]. DOI: 10.1590/1981-5344/2830. Available from: http://ref.scielo.org/whczt8

2. GOLDSCHMIDT-CLERMONT, L. Communication patterns in high-energy physics. High Energy Physics Libraries Webzine [online]. 2002, no. 6, ISSN: 1424-2729 [viewed on 15 February 2018]. Available from: http://webzine.web.cern.ch/webzine/6/papers/1/

Referências

ALVAREZ, G.R. and CAREGNATO, S.E. Preprints na comunicação científica da Física de Altas Energias: análise das submissões no repositório arXiv (2010-2015). Perspectivas em Ciência da Informação [online]. 2017, vol. 22, no. 2, pp. 104-117, ISSN: 1981-5344 [viewed on 15 February 2018]. DOI: 10.1590/1981-5344/2830. Available from: http://ref.scielo.org/whczt8

AYMAR, R. Scholarly communication in high-energy physics: past, present and future innovations [online]. European Review [online]. 2009, vol. 17, no. 1, pp. 33-51 [viewed on 15 February 2018]. DOI: 10.1017/S1062798709000556. Available from: https://www.cambridge.org/core/journals/european-review/article/scholarly-communication-in-highenergy-physics-past-present-and-future-innovations/405A6F78D3C4BA55418DEE7B1B62E23A

GENTIL-BECCOT, A., MELE, S. and BROOKS, T.C. Citing and reading behaviours in high-energy physics. Scientometrics [online]. 2010, vol. 84, no. 2, pp. 345-355, ISSN: 0138-9130 [viewed on 15 February 2018]. DOI: 10.1007/s11192-009-0111-1. Available from: https://link.springer.com/article/10.1007/s11192-009-0111-1

GOLDSCHMIDT-CLERMONT, L. Communication patterns in high-energy physics. High Energy Physics Libraries Webzine [online]. 2002, no. 6, ISSN: 1424-2729 [viewed on 15 February 2018]. Available from: http://webzine.web.cern.ch/webzine/6/papers/1/

Links externos

Cogprints <http://cogprints.org/>

RePEc <http://repec.org/>

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

ALVAREZ, G.R. and CAREGNATO, S.E. Práticas de comunicação científica na Física de Altas Energias: potencialidade dos preprints [online]. SciELO em Perspectiva, 2018 [viewed ]. Available from: https://blog.scielo.org/blog/2018/02/15/praticas-de-comunicacao-cientifica-na-fisica-de-altas-energias-potencialidade-dos-preprints/

 

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