eLife: um exemplo de aperfeiçoamento da avaliação por pares

Por Lilian Nassi-Calò

eLife

O Howard Hughes Medical Institute, a Sociedade Max Plank e o Wellcome Trust lançaram em 2012 o periódico arbitrado online e de acesso aberto eLife, que publica artigos na área de biomedicina e ciências da vida. A publicação sem fins lucrativos conta com Randy Schekman, da Universidade da Califórnia em Berkeley como Editor-chefe. Schekman foi agraciado com o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina em 2013, juntamente com dois outros pesquisadores por seus trabalhos sobre a regulação do transporte de vesículas através da membrana celular.

A iniciativa teve início em um workshop em 2010 organizado pelo Howard Hughes Medical Institute. Os participantes concluíram que havia a necessidade criar um modelo de publicação que atendesse às necessidades da comunidade acadêmica quanto à política editorial. A publicação conta com um quadro de Editores Seniores formado por pesquisadores renomados, experientes e ativos em suas áreas, que atua de forma independente em relação às instituições fundadoras do periódico.

eLife não é apenas outro periódico do tipo plataforma de acesso aberto que publica continuamente os artigos na medida em que são aceitos, sua política editorial é orientada à publicação rápida e eficiente de resultados de pesquisa científica de qualidade que contribuam para o desenvolvimento do conhecimento nas áreas cobertas. Entretanto, o maior destaque é a abordagem inovadora do seu processo de avaliação de manuscritos. Os autores recebem um parecer inicial em poucos dias após a submissão. A maior parte dos artigos passa por apenas uma rodada de revisão e os pareceres são consolidados, reunindo os comentários dos pareceristas. As decisões editoriais são tomadas exclusivamente por pesquisadores da área. O periódico não promove o Fator de Impacto, porém fornece indicadores qualitativos e quantitativos sobre o alcance dos artigos. Além disso, os artigos são publicados acompanhados por um resumo em linguagem simplificada (eLife Digests) para torná-los acessíveis a um público mais amplo como estudantes, pesquisadores de outras áreas e o público em geral, o que também atrai veículos de divulgação científica e jornais de grande circulação. O periódico é totalmente de acesso aberto de acordo com a atribuição CC-BY e não cobra taxa de publicação.

Peer review no eLife

O eLife adota um processo de peer review inovador, que visa assegurar objetivos claros da avaliação do manuscrito e comentários construtivos. As decisões são rápidas e eficientes, com as recomendações de revisão do artigo feitas pelos pareceristas de modo claro e factíveis, conduzidas preferencialmente em uma única rodada.

Um dos Editores Seniores do periódico responde aos autores dentro de três dias, em média, se seu trabalho passará por avaliação pelos pares. Ele próprio revisa o artigo, convidando também um ou dois pareceristas para opinar. Os pareceristas se reúnem para discutir suas recomendações e emitem um único parecer consolidado sobre as revisões que devem ser feitas para que o artigo seja aceito para publicação. Este parecer é enviado em média após 30 dias da submissão. Geralmente novas rodadas de revisão não são necessárias, já que o Editor Senior está preparado para avaliar as novas submissões sem ter de recorrer aos pareceristas.

Por motivos de transparência e abertura, o eLife publica em seguida ao artigo as partes mais relevantes da avaliação por pares e decisões, bem como as respostas dos autores, mediante sua autorização. O processo todo, da submissão online à aceitação leva, em média, 90 dias, um prazo muito inferior à maioria dos periódicos de renome, que podem levar até um ano ou mais.

Em janeiro deste ano, o eLife publicou um editorial intitulado “The pleasure of publishing”, da autoria do Editor Senior Vivek Malhorta e da Editora Senior e neurocientista Eve Marder1. O texto ressalta as características singulares do processo de avaliação por pares do periódico, que associa rigor e discernimento, ao lado de resultados e ideias que farão outros pesquisadores pensar diferentemente sobre seu tema de estudo. Eve Marder, professora do Departamento de Biologia da Universidade de Brandeis, Waltham, MA, EUA, foi apontada como Vice-editora da publicação por ocasião da publicação do milésimo artigo do periódico em 1°de maio. Nas palavras do editor-chefe, Randy Schekman, “Eve é uma defensora da reforma da avaliação por pares e da necessidade de abandonar as restrições impostas pelo modelo de comunicação científica focado na publicação impressa”.

Ao tomar o sistema de avaliação de manuscritos do eLife como um exemplo inovador, o blog SciELO em Perspectiva apresentará uma tradução livre deste editorial em um post separado.

Nota

1 MALHORTA, V; and MARDER, E. The pleasure of publishing. eLife. 2015, vol. 4:e05770. DOI: http://dx.doi.org/10.7554/elife.05770.

Referências

About. eLife Science. Available from: http://elifesciences.org/about.

eLife. Welcome Trust. Available from: http://www.wellcome.ac.uk/About-us/Policy/Spotlight-issues/Open-access/Journal/index.htm.

MALHORTA, V; and MARDER, E. The pleasure of publishing. eLife. 2015, vol. 4:e05770. DOI: http://dx.doi.org/10.7554/elife.05770.

 

lilianSobre Lilian Nassi-Calò

Lilian Nassi-Calò é química pelo Instituto de Química da USP e doutora em Bioquímica pela mesma instituição, a seguir foi bolsista da Fundação Alexander von Humboldt em Wuerzburg, Alemanha. Após concluir seus estudos, foi docente e pesquisadora no IQ-USP. Trabalhou na iniciativa privada como química industrial e atualmente é Coordenadora de Comunicação Científica na BIREME/OPAS/OMS e colaboradora do SciELO.

 

[Revisado – 13 Maio 2015]

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

NASSI-CALÒ, L. eLife: um exemplo de aperfeiçoamento da avaliação por pares [online]. SciELO em Perspectiva, 2015 [viewed ]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2015/05/06/elife-um-exemplo-de-aperfeicoamento-da-avaliacao-por-pares/

 

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