É hora de rever o sistema de pós-graduação brasileiro

Ribeirão Preto, 18/01/2015

O contraste entre o aumento do número de publicações científicas brasileiras e a aparente estagnação de seu impacto na maioria das disciplinas deveria ser uma fonte de preocupação para os decisores políticos responsáveis pela pós-graduação em universidades e a distribuição de bolsas de estudo e financiamento à pesquisa. Como a maior parte da pesquisa acadêmica no Brasil é realizada por estudantes de pós-graduação, é razoável considerar a modificação do nosso sistema de pós-graduação.

Ao longo dos anos, o investimento brasileiro em ciência e tecnologia tem aumentado significativamente, porém a filosofia básica de pós-graduação aparentemente mudou muito pouco. A ênfase continua a ser no número de diplomas e documentos produzidos, mais que na formação do aluno. Por formação queremos dizer as habilidades necessárias para realizar pesquisas e preparar a próxima geração de cientistas brasileiros. Estas incluem a capacidade de analisar problemas, formular soluções específicas, levar a cabo estas soluções no laboratório, pensar e escrever de forma clara, de modo que seja compreensível aos pares, e, finalmente, conhecer e compreender a história do desenvolvimento de sua área acadêmica. É claro que existem outras habilidades necessárias, mas estas são as mais importantes. Devemos esperar que os nossos alunos continuem a se desenvolver e amadurecer ao longo de suas carreiras acadêmicas. Isso não está acontecendo e, como regra geral, até agora viemos treinando técnicos em sua maior parte, em vez de doutores.

Em meados da década de 1970, houve muitas discussões sobre o fato de que o Brasil precisava produzir milhares de doutores para chegar a níveis de primeiro mundo em número de doutores/100.000 habitantes. Reconhecia-se que a maioria dos primeiros formados teriam uma formação menos que ideal, porém entendia-se e esperava-se que o sistema se tornasse mais rigoroso com o tempo. Infelizmente, isso não ocorreu e, para piorar a situação, os doutores mal treinados estão agora formando a próxima geração de doutores.

Historicamente, desde a institucionalização da pós-graduação no Brasil, nos anos sessenta, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), as universidades voltadas para a pesquisa (quase todas públicas) e as agências de fomento estaduais tiveram, todos eles, algum grau de responsabilidade sobre a estratégia para o desenvolvimento de cursos de pós-graduação no país, com uma contribuição substancial para a ciência brasileira. Eu sugiro que um painel de membros da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SPBC) seja convocado para analisar o desempenho da pós-graduação desde o seu início, em princípio dos anos 1970, e sugerir novas abordagens que podem ser mais eficazes do que a atual em relação à qualidade dos nossos alunos e do empreendimento científico no Brasil.

Lewis Joel Greene
ljgreene@fmrp.usp.br
(16)-2101-9366

 

Sobre Lewis Joel Greene

Atualmente é professor titular voluntário (colaborador sênior) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, no departamento de Biologia Celular, Molecular e Bioagentes Patogênicos. É supervisor do Centro de Química de Proteínas, na Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto, onde desenvolve estudos de caracterização química, funcional e estrutural de proteínas, utilizando abordagens tradicionais em química de proteínas e análise proteômica.

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

GREENE, L.J. É hora de rever o sistema de pós-graduação brasileiro [online]. SciELO em Perspectiva, 2015 [viewed ]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2015/01/26/e-hora-de-rever-o-sistema-de-pos-graduacao-brasileiro/

 

13 Thoughts on “É hora de rever o sistema de pós-graduação brasileiro

  1. Ronaldo on January 27, 2015 at 20:29 said:

    Exmo. Professor Greene,

    Com todo respeito, professor, eu não concordo com o Senhor. Tenho visto muitos jovens doutores brasileiros extremamente talentosos, até mesmo brilhantes, extremamente “hardworkers” e criativos. Muitos são até muito melhores do que muitos professores que eu tive.

    Por outro lado, concordo que o sistema de avaliação brasileira tem que mudar para melhorar.

    Assim, pergunto Professor, quais seriam suas sugestões para melhorar o sistema de pós-graduação do Brasil?

  2. Fabiano da Silva Costa on January 27, 2015 at 22:17 said:

    Acho que analisando mais profundamente a problemática colocada pelo professor está o conceito do que é importante pesquisar no Brasil. Há uma tendencia atual em menosprezar as áreas de humanas (literatura e sociais principalmente) em detrimento de áreas “técnicas” e que resultem em inovações para as industrias. As industrias multinacionais brasileiras teimam em fechar seus setores de ciencia e inovação e obrigarem as “públicas” – faculdades – a se comportarem como seus laboratorios particulares de pesquisa em troca de… nada. Acho preferivel que elas invistam em inovação em seus parques industriais e contratem os profissionais formados nessas universidades que, enquanto estagiarios na graduação ou pesquisadores na pós – servem de mão de obra baratissima para estas industrias, quem ganha com isso são os poucos professores que ganham comissoes ou financiamentos dessas empresas. Mais do que rever o sistema de pós graduação, devemos rever nossa visão neoliberal a respeito da função da ciencia e da pesquisa. Tudo é digno de se pesquisado, todo saber tem a mesma importancia

  3. Fernando Real on January 28, 2015 at 06:58 said:

    Concordo que a pós-graduação precisa ser revista. Contudo me parece bastante limitada a visão de que nossa estagnação científica se deve a uma possível (e contestável sob qualquer parâmetro de análise) baixa qualidade dos doutores formados. Se ela ocorre, ocorre em paralelo com um problema ainda mais grave no Brasil: a dependência excessiva da ciência brasileira pelo doutorando/mestrando. Precisamos, além de rever a pós-graduação e a avaliação dos doutores formados, reverter o quadro da ciência feita pelo doutorando para a ciência feita pelo pós-doutor/pesquisador. Isso inclui instituir contratos de duração limitada (sempre renováveis após análise de pares, ao contrário das bolsas que findam independentemente do desempenho) para pesquisadores, com dedicação integral à pesquisa. É preciso instituir a carreira de pesquisador em nossos quadros e dissociá-la do funcionalismo público.

  4. Pingback: ‘Doutores mal treinados formam novos doutores’ | CIOCCARI

  5. Mayara Cabral Cosmo on January 30, 2015 at 10:57 said:

    A visão do estimado Dr. com certeza é relevante no que tange a trajetória da Academia em diversas áreas do conhecimento. No entanto, na minha humilde opinião de graduanda de uma Universidade Federal, a questão está no cerne da educação básica, que não tem formado sequer cidadãos preparados para viver em sociedade, quanto mais futuros acadêmicos! A reformulação deve começar no ensino de base, para só então analisarem a qualidade dos cursos de pós-graduação no Brasil.

  6. Em 1998 publiquei, num dos capítulos da 1ª edição de meu livro Ciência: da filosofia à publicação, uma análise mostrando os erros da pós-graduação, os quais atestavam que estávamos produzindo pesquisadores medíocres ao invés de cientistas de bom nível. Mas os grandes gestores da ciência brasileira achavam que nossa ciência ia bem e que nos faltava apenas visibilidade. Foi um doloroso erro estratégico (apostaram sim no que o texto do Dr. Green fala sobre a década de 70: aumentar o número para produzir alguma qualidade – outro erro estratégico). Agora, quando em 2014 levamos pedradas violentas do exterior (particularmente da Nature, inclusive mostrando que nossa administração chega a ser irresponsável com o gasto do dinheiro em ciência), começam a falar que estamos mal e precisamos melhorar. O famoso “antes tarde do que nunca” não deveria ser aplicado aqui, pois implica em irresponsabilidade. Por que os gestores de ciência nacional deixaram chegar nesse quadro terrível que temos hoje? E todos sabemos que não se resolve nossa ciência apenas na universidade. É necessário ensino fundamental e médio de bom nível; mas dirão os míopes imediatistas – temos que resolver rapidamente!
    Até aqui nossa pós-graduação tem formado técnicos especializados, mas não cientistas. E isso ocorre porque quem os forma não sabe formar outra coisa. Esse é o problema. Enquanto a CAPES tentou trazer referenciais internacionais para nossa pós-graduação (mas isso não resolve o problema de formar um cientista), comitês internos lutaram contra isso, pensando sempre em manter sistemas avaliatórios que mantivessem no nível da mediocridade de certos avaliadores. Se nossa pós-graduação é ruim é porque nós orientadores somos ruins. Enquanto acharmos que ciência só se faz com tecnologia, ou para resolver questões imediatas, estaremos longe de termos escola para formarmos cientistas. A proposta de criação de uma profissão de cientistas é outra proposta absurda que afundará ainda mais nossa universidade, pois representa a tentativa explícita de conseguir subcontratar desempregados para tocar projetos de pesquisadores seniors, criando o que chamo de subprofissão de cientista, além do equívoco de reforçar a dicotomia ensino-pesquisa na universidade.
    Não acho que membros da Academia Brasileira de Ciências resolverão esse problema. Nossos grandes gestores trouxeram esse problema. A solução tem que sair de outra parte; daqueles que ficam na berlinda porque não entram no clubinho dos grandes gestores. Nossos gestores devem apenas nos explicar porque erraram tanto, com tantos indícios ao contrário.

    • Andre on March 29, 2015 at 08:33 said:

      Grande crítica, e grande resposta. Não adianta chamar os mesmos para apontar soluções, essas têm que vir de quem ficou de fora justamente por não aceitar os erros estratégicos de que estamos falando. Mas não basta ser da oposição, e pior do que está seria querer desconstruir as decisões acertadas que por algum motivo não funcionaram como esperado, talvez porque o contexto não permitia.

    • Tânia Gregório on October 23, 2017 at 14:06 said:

      Professor Volpato, como adquirir um exemplar de seu livro? Fiz buscas na internet e encontra-se esgotado. Gostaria muito de ler.

  7. Roberto DeLucia on February 8, 2015 at 15:07 said:

    O Prezado Colega Prof. Greene se posicionou por mudanças nos cursos de Pós-Graduação em especial na área de C& T na formação de doutores. Desde a implantação no ano 1970, os Cursos apresentavam dificuldades em sua organização pela falta de Pesquisadores credenciados & Grupos de Excelência e de recursos financeiros, visto que as Entidades de Auxílio à Pesquisa (ex. FAPESP) não dispunham de grandes recursos para financiamento, além do que eram corroídos pela inflação vigente. Na metade da década de 80, com aumento de recursos financeiros destinados à Pesquisa (ex.: 1% da arrecadação do Estado de São Paulo, FAPESP) possibilitou um ganho de produtividade que no correr do tempo perdeu qualidade, gerando o “produtivismo” atual, caracterizado por aumento do número de artigos publicados, de custo elevado em revista de
    baixo impacto. Esta situação agravou se com a formação de Doutores em tempo restrito de 4 anos que não se aplica nos cursos de Humanidades que exigem a leitura de textos em Bibliotecas bem equipadas. Vale lembrar que na formação de Doutores conta muito o ensino na Graduação cada vez mais desvalorizado e principalmente a Iniciação Científica. Acredito que este é o panorama da Pós-Graduação em São Paulo e nos demais Estados brasileiros que necessita de urgente reforma para romper com conformismo reinante.

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