Preprints – o caminho a seguir para o compartilhamento rápido e aberto do conhecimento

Por Jan Velterop

Em 19 de janeiro de 2017, algo notável aconteceu. Um preprint intitulado “Um Roteiro de Dados de Citação para Publishers Científicos1” foi postado no bioRχiv, o servidor de preprints de Cold Spring Harbor. A postagem de preprints no bioRχiv acontece o tempo todo, de modo que não é algo notável. O que é notável é o fato do autor principal (e autor correspondente) ter ‘Elsevier’ em sua afiliação. Eu vejo isso como um sinal de esperança. Como discuti anteriormente, os preprints podem vir a ser uma solução para o fato de que grande parte da literatura científica não é compartilhada tão abertamente, tão amplamente e tão rapidamente quanto possível, porque está sendo “refém” da necessidade da maioria dos pesquisadores em obter reconhecimento formal por meio da publicação de seu trabalho em um periódico arbitrado por pares para finalidade de progresso na carreira.

A solução seria a comunicação e o compartilhamento de resultados de pesquisa, de um lado, e a publicação formal em um periódico arbitrado por pares, de outro, podendo estes serem processos separados e paralelos.

Houve recentemente vários desenvolvimentos que me deixam otimista de que este modelo de separar compartilhamento de reconhecimento formal pode ocorrer. E se até mesmo autores afiliados com publishers tradicionais optar por publicar um preprint ao invés de esperar até que um periódico arbitrado aceite seu manuscrito, o meu otimismo apenas aumenta. Naturalmente, a pressão de seis ou sete coautores pode ter influenciado na decisão de publicar um preprint antes do artigo mencionado acima, mas, de qualquer forma, este é um dos desenvolvimentos encorajadores.

Outros acontecimentos incluem o anúncio, em 10 de janeiro de 20172, pela Wellcome Trust, a prestigiosa fundação beneficente global, independente, que financia mais de 14.000 pesquisadores em ciências de vida e medicina em mais de 70 países, de que agora aceita preprints em pedidos de auxílio a pesquisa. A Wellcome Trust não está só. Também o Medical Research Council (MRC) do Reino Unido apoia preprints3.

Os preprints já existem há muito tempo. Mesmo antes da Internet. Antes do surgimento da Internet, a partir da década de 1950, eles eram simplesmente impressos e enviados por correio para pesquisadores interessados e bibliotecas, muito antes dos artigos serem revisados pelos pares e publicados em algum periódico. Isso aconteceu, no entanto, apenas na área da física. Esta prática pré-Internet e a familiaridade da comunidade da física com o conceito levaram ao desenvolvimento do primeiro repositório eletrônico de preprint criado em 1991 por Paul Ginsparg nos Laboratórios Nacionais de Los Alamos (mais tarde foi transferido para a Universidade Cornell). Por muito tempo, o servidor de preprint da física foi o único – embora tenha gradualmente incluído disciplinas como matemática, ciências da computação, biologia quantitativa, finanças quantitativas e também estatística. O conceito de preprints, no entanto, também se popularizou em outras disciplinas. E não apenas nas ciências naturais; nas ciências sociais e humanas, há também vários repositórios de preprints, um desenvolvimento indubitavelmente fomentado pela disponibilidade da plataforma do Open Science Framework (OSF), construído com software open source.

Em uma recente conferência em Berlim, Jessica Polka, diretora da ASAPbio, “a iniciativa que promove o uso produtivo de preprints em ciências da vida”, apresentou um slide4 que bem visualiza o crescimento dos preprints. O gráfico nem mesmo mostra todos os servidores de preprints existentes, como várias pessoas apontaram, mas mesmo assim, mostra uma tendência muito clara.

Preprints estão se afirmando em biologia

Os desenvolvimentos no que diz respeito aos preprints são importantes, pois, ao menos na minha opinião, apresentam uma solução não apenas para o problema da publicação tardia e dependente de assinatura (isto é, não universalmente acessível) dos resultados da pesquisa, mas também para o problema de alguns resultados da pesquisa não serem de forma alguma publicados, principalmente devido à falta de interesse dos periódicos em aceitá-los. Este é o caso, por exemplo, dos chamados resultados nulos ou negativos. Tais resultados são muito mais importantes do que é geralmente percebido, uma vez que a informação sobre, por exemplo, a falta de eficácia de um fármaco ou procedimento médico é crucial para os profissionais da prática clínica. Os preprints podem, mas não necessariamente devem ser publicados posteriormente em um periódico. Neste sentido, a Nature informa que “a decisão de um geneticista de não publicar seu preprint finalizado em um periódico recebe o apoio de cientistas”5. Alguns benefícios e consequências do amplo uso de preprints foram discutidos, e potenciais preocupações foram mitigadas, em um post anterior do SciELO em Perspectiva, de Ernesto Spinak, sob o título “O que é este tema dos preprints?”6.

O SciELO, pioneiro da publicação em acesso aberto na América Latina desde 1997 (antes da maioria as iniciativas de publicação em acesso aberto), também está no processo de criar um repositório de preprints. Trata-se de um desenvolvimento natural para o SciELO. Obviamente, sua motivação não é prover acesso aberto, uma vez que vem fazendo isso por quase vinte anos. Os planos do SciELO vêm da necessidade de acelerar o processo de publicação e aumentar sua transparência. E, é claro, por sua cultura – e desejo – de fomentar continuamente a inovação significativa.

Notas

1. COUSIJN, H., et al. A Data Citation Roadmap for Scientific Publishers [online]. bioRχiv. 2017. Preprint [viewed on 24 January 2017]. DOI: 10.1101/100784. Available from: http://biorxiv.org/content/early/2017/01/19/100784

2. We now accept preprints in grant applications [online]. Wellcome Trust. 2017 [viewed on 24 January 2017]. Available from: http://wellcome.ac.uk/news/we-now-accept-preprints-grant-applications

3. The MRC supports preprints [online]. Medical Research Council (MRC). 2017 [viewed on 24 January 2017]. Available from: http://www.mrc.ac.uk/news/browse/the-mrc-supports-preprints/

4. ASAPbio is a scientist-driven initiative to promote the productive use of preprints in the life sciences [online]. ASAPbio. 2017 [viewed on 24 January 2017]. Available from: http://asapbio.org

5. CHAWLA, D.S. When a preprint becomes the final paper. Nature [online]. 2017 [viewed on 24 January 2017]. Available from: http://www.nature.com/news/when-a-preprint-becomes-the-final-paper-1.21333

6. SPINAK, E. O que é este tema dos preprints? [online]. SciELO em Perspectiva, 2016 [viewed 24 January 2017]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2016/11/22/o-que-e-este-tema-dos-preprints/

Referências

ASAPbio is a scientist-driven initiative to promote the productive use of preprints in the life sciences [online]. ASAPbio. 2017 [viewed on 24 January 2017]. Available from: http://asapbio.org

CHAWLA, D.S. When a preprint becomes the final paper. Nature [online]. 2017 [viewed on 24 January 2017]. Available from: http://www.nature.com/news/when-a-preprint-becomes-the-final-paper-1.21333

COUSIJN, H., et al. A Data Citation Roadmap for Scientific Publishers [online]. bioRχiv. 2017. Preprint [viewed on 24 January 2017]. DOI: 10.1101/100784. Available from: http://biorxiv.org/content/early/2017/01/19/100784

PEASE, J. Open Access in the Physics Community before the Internet: Preprints [online]. Syracuse University Libraries Blogs, 2016 [viewed 24 January 2017]. Available from: http://library-blog.syr.edu/drs/2016/03/24/open-access-in-the-physics-community-before-the-internet-preprints/

SPINAK, E. O que é este tema dos preprints? [online]. SciELO em Perspectiva, 2016 [viewed 24 January 2017]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2016/11/22/o-que-e-este-tema-dos-preprints/

The MRC supports preprints [online]. Medical Research Council (MRC). 2017 [viewed on 24 January 2017]. Available from: http://www.mrc.ac.uk/news/browse/the-mrc-supports-preprints/

VELTEROP, J. O melhor de dois mundos [online]. SciELO em Perspectiva, 2016 [viewed 24 January 2017]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2016/06/13/o-melhor-de-dois-mundos/

We now accept preprints in grant applications [online]. Wellcome Trust. 2017 [viewed on 24 January 2017]. Available from: http://wellcome.ac.uk/news/we-now-accept-preprints-grant-applications

Link externo

Open Science Framework – <http://osf.io>

 

Sobre Jan Velterop

Jan Velterop (1949), geofísico marinho, tornou-se editor científico em meados dos anos 1970. Ele iniciou sua carreira como editor na Elsevier em Amsterdã. Em 1990 tornou-se diretor de um jornal holandês, mas retornou à publicação científica internacional em 1993 na Academic Press em Londres, onde desenvolveu o primeiro acordo nacional que permitiu acesso eletrônico a todos os periódicos AP por todas as instituições de ensino superior do Reino Unido (o que mais tarde foi denominado BigDeal). Ele foi Diretor na Nature, mas logo se dedicou para ajudar a fazer decolar o BioMed Central. Ele participou da Iniciativa de Budapeste para o Acesso Aberto. Em 2005 foi para a Springer, baseado no Reino Unido como Diretor de Acesso Aberto. Em 2008 ele deixa a Springer para apoiar o desenvolvimento de abordagens semânticas para acelerar descobertas científicas. Velterop é um ativo defensor do acesso aberto em conformidade com a Iniciativa de Acesso Aberto de Budapeste (BOAI) e do uso de microatribuições, a referência das denominadas “nanopublicações”. Ele publicou vários artigos sobre ambos os temas.

 

Traduzido do original em inglês por Lilian Nassi-Calò.

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

VELTEROP, J. Preprints – o caminho a seguir para o compartilhamento rápido e aberto do conhecimento [online]. SciELO em Perspectiva, 2017 [viewed ]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2017/02/01/preprints-o-caminho-a-seguir-para-o-compartilhamento-rapido-e-aberto-do-conhecimento/

 

4 Thoughts on “Preprints – o caminho a seguir para o compartilhamento rápido e aberto do conhecimento

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