Livros eletrônicos – mercado global e tendências – Parte III – Final: A publicação do livro impresso e digital no contexto mundial

Por Ernesto Spinak

Foto: SciELO.

Foto: SciELO.

O recente informe Global eBook: a report on market trends and developments, 20161, que começamos a analisar em posts anteriores2,3, fornece uma visão a nível global do desenvolvimento do mercado de ebooks que, logo após uma década de crescimento ininterrupto, nos últimos três anos desacelerou, ao menos por parte das editoras tradicionais. (Nota: todas as cifras mencionadas neste post, a menos que se indique uma referência, provêm do Global eBook). Devido à extensão do informe, este post foi publicando em três partes.

A reestruturação do mercado de livros em sua alta complexidade e, portanto, o preço dos ebooks, é determinado pelas estratégias contraditórias (e antigas) na Europa para atribuição de preços, a pirataria, e as batalhas legais nos EUA. Na Europa, os preços de venda são estabelecidos pelos publishers, motivo pelo qual os preços foram mantidos artificialmente estáveis. Nos países que por lei têm preços fixos, os revendedores têm uma margem de apenas 5% para variar acima ou abaixo, e este grau de rigidez varia entre os países europeus. Os preços dos ebooks estão desnecessariamente engessados por um esquema estabelecido pelo mundo editorial da “era do papel”.

Os ebooks estão cada vez menos integrados a este modelo editorial. Na medida em que a Amazon consegue uma maior participação de mercado com os serviços de auto publicação, com diferentes segmentos que enfocam nichos diferentes de audiências, vão sendo modeladas estratégias de preços diferentes que saem por diferentes canais de venda. No momento, apenas a Amazon tem um guarda-chuva que abarca o amplo espectro de livros cobrindo toda a gama de preços começando com valores tão baixos como 3 a 5 euros, o que os torna de consumo massivo. Na Alemanha, mais da metade dos ebooks vendidos pelas principais livrarias online custam menos de 5 euros e este é o segmento onde se encontra a maioria dos livros auto publicados, que são selecionados pela Amazon, Bookwire e outras cadeias livreiras que os usam para promoções especiais como “seleção do mês”.

Até que ponto a pirataria afeta os ebooks não se sabe; a dimensão que abarca o mercado pirata não é conhecida (ou não é revelada). A pirataria pode ser entendida como um mercado paralelo que amadurece junto com todo o mercado de consumo digital. Uma análise dos cinco principais sites piratas europeus destaca que é um negócio em franco desenvolvimento. Estes sites não entregam os livros a partir de seus servidores, mas oferecem links a servidores externos onde os livros estão alojados; os sites piratas apenas funcionam como “páginas amarelas”. O tráfico nestes sites é massivo, alguns deles registram mais de um milhão de visitas mensais, e frequentemente estão entre os 100 a 400 sites mais visitados em seus próprios países. Cada mercado principal de ebooks, para cada idioma, é objetivo de alguns poucos piratas focados nas audiências culturais principais, desde a ficção até os documentos acadêmicos e pesquisa em ciência, tecnologia e medicina (Science, Technology and Medicine, STM), como o conhecido exemplo do site SciHub.

A publicação por conta própria (self-publishing)

Como vimos na parte II2 desta série de posts, nos últimos anos desenvolveu-se um mercado editorial paralelo que oferece toda a cadeia de valor, incluindo os serviços de edição, aos autores que querem publicar seus próprios livros por conta própria (self-publishing); estes autores são denominados indies (independent authors).

Em 2013, nos EUA os indies conseguiram publicar mais best-sellers que qualquer outra editora individual. O mercado total nos EUA para os livros auto publicados é estimado em aproximadamente 180 milhões de dólares, ou seja, 11% do valor total do mercado de ebooks naquele país, com um total de quase 459 mil títulos publicados neste ano (2013).

A principal plataforma de software para auto publicação – Smashword – foi usada para a edição de mais de 276.000 títulos por mais de 25.000 autores individuais, seguida pelos serviços da CreateSpace da Amazon com outros 200 mil títulos exclusivos para a loja Kindle. O mesmo cenário se repete no Reino Unido, onde 12% dos títulos produzidos neste ano foram auto publicados. Da mesma forma, na Alemanha, a participação da Amazon no mercado para ebooks é de 64%, cujos autores fazem o upload de seus próprios livros nas plataformas de venda da Amazon, seguidos pelas plataformas Kobo, Beam e Google.

Esta transformação e crescimento do mercado de auto publicação levou a considerar que a auto publicação pode chegar a se converter em “corrente principal” (mainstream), e a percepção dos publishers é que a motivação principal, no terreno da ficção, não é a ganância econômica dos autores, mas a promoção da autoestima. No meio deste debate, nem Amazon nem Barnes & Noble revelam informações detalhada de vendas. Obviamente, este é um segmento da indústria livreira que em poucos anos está mudando dramaticamente os modelos de comportamento e as cadeias de valor do setor.

Plataformas de assinatura

Em 2014 emergem com força os modelos de assinatura para leitores oferecendo “tarifas planas”, o que acende outra controvérsia nos debates da publicação para consumo digital.

Destacam-se neste movimento o surgimento de novas empresas com capital de risco (start ups) ou a transformação de antigas editoras como a editorial Scribd, que se reconstruiu como uma plataforma que fornece mais de 80 milhões de leituras ao mês dando acesso a mais de um milhão de títulos de 900 editoras, atuando como um hub global que cobre vários países. Esta empresa fornece acesso e leitura de até 4 livros por US$8,99 ao mês. O debate se acelera com o lançamento da Kindle Unlimited pela Amazon, começando nos EUA, e imediatamente se estendendo ao Reino Unido e Alemanha.

Esta mudança de modelo dos consumidores em geral, passando da venda de produtos à assinatura por uso, foi analisada na revista The Economist em 20134, onde se lê:

“No Século 21, as mudanças nos hábitos de consumo estão mudando o panorama global de negócios, talvez para sempre. Existe uma mudança expressiva em curso na forma pela qual, como consumidores e empresas, estamos buscando o consumo de bens e serviços. Em particular, agora valorizamos a conveniência e a flexibilidade das assinaturas de serviços em lugar de comprar os produtos diretamente”.

Como será afetado o mercado de ebooks, entretanto, é muito cedo para saber, pois a pergunta crucial que ninguém ainda pode responder é se o volume de assinaturas de ebooks terminará redesenhando a indústria editorial ou não, e em que medida. Quantos autores e editoras se submeterão a esta tendência, quão rapidamente o farão e, finalmente, se os leitores pagarão por este tipo de serviço, são perguntas para as quais ninguém ainda sabe a resposta.

As páginas amarelas

O informe que comentamos conclui com um extenso apêndice, onde em 30 páginas registram-se centenas de instituições de alcance regional ou global que se dedicam à: (a) edição de ebooks; (b) organizações que agregam conteúdos de terceiros, fazem a distribuição e fornecem serviços de suporte à publicação eletrônica; (c) organizações educativas que publicam livros eletrônicos (muitas delas em acesso aberto); e (d) serviços de plataforma de leitura online por assinatura.

Publicações eletrônicas de organizações educativas

A publicação digital de livros educativos tem figurado entre os programas dos Ministérios de Educação de muitos governos nos países emergentes, com resultados distintos. Por um lado, manifestam-se resistências do mercado editorial à difusão gratuita de conteúdos, porém também há resistência das corporações de docentes e professores em utilizá-los em sala de aula. Não obstante as resistências, também é possível mostrar êxitos, onde tomaremos como exemplos apenas dois países entre muitos: Brasil e Índia.

No Brasil, entre várias iniciativas, mencionamos o programa Nuvem de Livros, no qual 270 editoras oferecem mais de 15.000 livros a quase 3 milhões de assinantes; o programa CAPES para a educação superior; o Minha Biblioteca para informação em STM usado por 250 universidades; e também o SciELO Livros.

Na Índia, motivados por um plano intensivo de alfabetização, onde foram investidos centenas de milhares de dólares, foi adotada desde muito cedo a publicação eletrônica para a educação em todos os níveis, começando pela escola primária. Sessenta por cento de tudo o que se publica na Índia (papel e digital) é de conteúdo educativo. Entretanto, existem problemas de acesso aos materiais digitais, porque, ainda que a presença da telefonia celular seja muito grande, a maioria dos conteúdos publicados está em inglês, que não é o idioma das classes sociais menos favorecidas. Ademais, o National Council of Educational Resources and Training oferece para download em PDF online a totalidade dos livros de textos necessários para o ensino primário e médio. Outro elemento a destacar na Índia é que a publicação sob licença Creative Commons está ganhando espaço em todas as áreas do conhecimento.

Minhas reflexões

Os ebooks ganharam seu espaço em vários segmentos de mercado, onde o gênero ficção é o mais bem-sucedido, a publicação científica e educativa em menor grau, porém com grande potencial, e alguns gêneros resistiram melhor no mundo do papel impresso. As editoras grandes e médias estão dando especial ênfase aos novos formatos de leitura em telas e, muito recentemente, um boom do mercado surgiu por parte dos autores que publicam seus próprios livros, que requerem plataformas online para edição, publicação e distribuição.

Os desenvolvimentos mais novos estão sendo impulsionados pelos grandes provedores que ocupam toda a cadeia de produção, como Amazon e a aliança Tolino na Europa. No mercado asiático, especialmente na China, a leitura em dispositivos não apenas se converteu em um passatempo popular, especialmente entre os mais jovens, como os hábitos de leitura estão mudando para os telefones móveis (smarphones). É aqui que tem início a competição entre as companhias com interesses nas tecnologias de comunicações, que nunca estiveram no mercado editorial. A batalha é travada não apenas na área dos conteúdos, mas também nos dispositivos, onde estão integrados, além da leitura, os videogames, os filmes e as redes sociais.

O novo cenário que enfrentam as editoras tradicionais está pleno de perigos e oportunidades, desde a criação de novos formatos até a reformulação dos canais de distribuição. O investimento necessário para satisfazer os desafios apresenta riscos aos atores de menor porte, investimento que as grandes corporações podem administrar com maior facilidade. Abrem-se oportunidades a novos empreendimentos (start-ups) e, mesmo assim, aos gigantes da Internet que não têm fundamental interesse na criação de conteúdos, mas que querem tomar porções maiores das comunicações de seus usuários e a interação social. Em consequência, não deveria ser uma surpresa o fato que as editoras levantem barreiras e debatam, no campo da legislação, as leis de competência e as leis de diretos autorais, para defender o que foi seu campo de ação desde sempre.

Este novo cenário apresenta duas oportunidades importantes para o âmbito educativo e as iniciativas pessoais ou sem fins lucrativos. O desenvolvimento de plataformas online que integram toda a cadeia de produção editorial de livros permitirá que indivíduos ou instituições possam produzir livros e outros documentos a custo muito baixo, e sem necessidade de ter complexas infraestruturas de hardware/software.

Da mesma maneira que anos atrás a criação de websites ou blogs era uma tarefa reservada aos especialistas em tecnologias de informação, consultores internacionais e treinamento avançado nas universidades, hoje em dia qualquer pessoa pode construir e manter sua linha do tempo no Facebook ou seu blog usando o WordPress ou o Joomla, de forma intuitiva, sem custos e com mínimo know-how. Consequentemente, poderia ser possível que os interessados publiquem e distribuam seus livros sem a intervenção dos publishers.

As instituições educativas têm, da mesma forma, a oportunidade de criar todo o material de apoio educativo como textos online sob licenças Creative Commons, sem a dependência dos grandes publishers. Também é uma oportunidade para o surgimento de pequenas e médias empresas (PME) para oferecer serviços de consultoria e capacitação no uso das plataformas integradas para a edição de ebooks e materiais relacionados.

Notas

1. WISCHENBART, R., et al. Global eBook: a report on market trends an developments. Rüdiger Wischenbart Content and Consulting (RWCC). 2016. Available from: http://www.global-ebook.com/

2. SPINAK, E. Livros eletrônicos – mercado global e tendências – Parte I: A publicação – impressa e digital – no contexto mundial. SciELO em Perspectiva. [viewed 16 July 2016]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2016/06/22/livros-eletronicos-mercado-global-e-tendencias-parte-i-a-publicacao-impressa-e-digital-no-contexto-mundial/

3. SPINAK, E. Livros eletrônicos – mercado global e tendências – Parte II: A publicação do livro impresso e digital no contexto mundial. SciELO em Perspectiva. [viewed 16 July 2016]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2016/07/13/livros-eletronicos-mercado-global-e-tendencias-parte-ii-a-publicacao-do-livro-impresso-e-digital-no-contexto-mundial/

4. TZUO, T. New rules of the road for the Subscription Economy. The Economist. 2013. [viewed 15 July 2016] Available from: http://www.economistgroup.com/marketingunbound/consumers/zuora-rules-of-the-road-for-the-subscription-econome/

Referências

SPINAK, E. Livros eletrônicos – mercado global e tendências – Parte I: A publicação – impressa e digital – no contexto mundial. SciELO em Perspectiva. [viewed 16 July 2016]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2016/06/22/livros-eletronicos-mercado-global-e-tendencias-parte-i-a-publicacao-impressa-e-digital-no-contexto-mundial/

SPINAK, E. Livros eletrônicos – mercado global e tendências – Parte II: A publicação do livro impresso e digital no contexto mundial. SciELO em Perspectiva. [viewed 16 July 2016]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2016/07/13/livros-eletronicos-mercado-global-e-tendencias-parte-ii-a-publicacao-do-livro-impresso-e-digital-no-contexto-mundial/

TZUO, T. New rules of the road for the Subscription Economy. The Economist. 2013. [viewed 15 July 2016] Available from: http://www.economistgroup.com/marketingunbound/consumers/zuora-rules-of-the-road-for-the-subscription-econome/

WISCHENBART, R., et al. Global eBook: a report on market trends an developments. Rüdiger Wischenbart Content and Consulting (RWCC). 2016. Available from: http://www.global-ebook.com/

Links externos

CAPES – <http://www.capes.gov.br/>

CreateSpace – <http://www.createspace.com/>

Minha Biblioteca – <http://www.minhabiblioteca.com.br/>

Nuvem de Livros – <http://www.nuvemdelivros.com.br/>

SciELO Books – <http://books.scielo.org/>

SciHub – <http://sci-hub.cc/>

Scribd – <http://es.scribd.com/>

Smashwords: your ebook, your way – <http://www.smashwords.com/>

 

spinakSobre Ernesto Spinak

Colaborador do SciELO, engenheiro de Sistemas e licenciado em Biblioteconomia, com diploma de Estudos Avançados pela Universitat Oberta de Catalunya e Mestre em “Sociedad de la Información” pela Universidad Oberta de Catalunya, Barcelona – Espanha. Atualmente tem uma empresa de consultoria que atende a 14 instituições do governo e universidades do Uruguai com projetos de informação.

 

Traduzido do original em espanhol por Lilian Nassi-Calò.

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

SPINAK, E. Livros eletrônicos – mercado global e tendências – Parte III – Final: A publicação do livro impresso e digital no contexto mundial [online]. SciELO em Perspectiva, 2016 [viewed ]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2016/07/27/livros-eletronicos-mercado-global-e-tendencias-parte-iii-final-a-publicacao-do-livro-impresso-e-digital-no-contexto-mundial/

 

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