Livros eletrônicos – mercado global e tendências – Parte II: A publicação do livro impresso e digital no contexto mundial

Por Ernesto Spinak

Foto: SciELO.

Foto: SciELO.

O recente informe Global eBook: a report on market trends an developments, 20161, que começamos a analisar em um post anterior2, fornece uma visão a nível global do desenvolvimento do mercado de ebooks que, logo após uma década de crescimento ininterrupto, nos últimos três anos desacelerou, ao menos por parte dos editores tradicionais. (Nota: todas as cifras mencionadas neste post, a menos que se indique uma referência, provêm do Global eBook). Devido à extensão do informe, este post está sendo publicando em partes.

A introdução de modelos digitais na indústria do livro começou a modificar a cadeia de produção e exploração, onde o tradicional negócio, estável por longos períodos, mudou desde as coleções em bibliotecas e assinaturas de modelos “pay per download” e distribuição em acesso aberto. A mudança que está sendo produzida é análoga à da indústria da música, onde os suportes permanentes como os CDs estão desaparecendo e se impõem os modelos de streaming de música em portais de vídeo.

Outro elemento que se soma ao cenário é a publicação digital por conta própria (self-publishing) por parte dos chamados “indies” (autores independentes). Estes novos atores no mercado têm um grande potencial, especialmente nos países do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), mas não dispõem ainda de infraestrutura suficiente. A publicação por conta própria está florescendo e entre 2014 e 2015 foram publicados quase 460 mil novos títulos, sendo 75% destes publicados apenas por três serviços online de software: Smashwords, CreateSpace da Amazon e Lulu.

Diferentemente dos países desenvolvidos, nos países da Ásia, especialmente China e Índia, os dispositivos leitores mais importantes são os telefones móveis e, de forma muito marginal, os tablets e leitores de ebook, como Kindle. Esta independização do PC como instrumento leitor faz ingressar novos agentes externos ao mundo editorial, cujo interesse está centrado nas tecnologias de comunicação.

No caso da Índia, devido ao importante esforço do governo em prol da alfabetização, mais de 60% dos livros impressos são livros destinados à educação. Como consequência, a educação superior na Índia, por mais de uma década, vem adotando modelos digitais de publicação, em particular periódicos eletrônicos na área STM (Science, Technology and Medicine), que se originam em grande parte fora da Índia e são produzidos pelos principais grupos editoriais do mundo em STM, embora nas Ciências Sociais e Humanidades exista uma modesta lista de periódicos publicados por Sage Índia. Por outro lado, os principais distribuidores na Índia – Balani Infotech e o Grupo Asia Pacific Limited – distribuem uma ampla variedade de conteúdos eletrônicos (ebooks, PDF, audiobooks, periódicos, literatura clássica, etc.) produzidos por mais de 200.000 editoras ao redor do mundo. Além disso, também o India’s National Library and Information Services Infrastructure for Scholarly Content (NLIST) da Information and Library Network (INFLIBNET) fornece às universidades e colleges da Índia acesso previamente pago a mais de 80.000 ebooks e milhares de periódicos eletrônicos, onde mais de 90% das fontes eletrônicas estão radicadas nos Estados Unidos.

Merece destaque também o fato de que a publicação em acesso aberto está ganhando terreno na Índia no setor STM e nas Ciências Sociais, em um mercado calculado atualmente em mais de 40 bilhões de dólares. Da mesma forma que na Europa e EUA, muitos autores na Índia estão incursionando nos serviços de self-publishing, usando os serviços de Amazon com custos muito baixos.

Pois bem, observando o panorama global é natural que surjam perguntas sobre quais são os componentes principais e as discussões que estão dando forma aos mercados de ebooks.

O mercado livreiro, tradicionalmente, era um negócio de pequenas e médias empresas que tomavam suas próprias decisões de mercado, inclusive aquelas que faziam parte, em forma descentralizada, de corporações maiores. A chegada do mercado global e a introdução de atores globais, em particular no mercado do ebook, é uma mudança importante neste cenário.

Do ponto de vista do consumidor, os ebooks se acrescentam, como mais uma oferta, aos conteúdos e formatos digitais, sem muita diferença entre ver filmes, ouvir música, jogar videogames e conversar nas redes sociais. Portanto, é previsível que neste novo ecossistema todos os tipos de conteúdos serão vistos nas telas que os consumidores preferirem e que possam apresentar qualquer tipo de meios, sem importar se os conteúdos são produzidos por editores tradicionais, por “indies”, ou qualquer outro tipo de obras produzidas e distribuídas por todo tipo de criadores. Os livros serão um ingrediente a mais no menu. Isso incluirá os conteúdos publicados profissionalmente ou por piratas.

Até o momento, os atores relevantes a nível mundial são em pequeno número, com destaque para Amazon e Apple. Hoje em dia, a agenda digital global e a transformação da comunicação por telefonia móvel está sendo impulsionada pelos “quatro cavaleiros” formados por Amazon, Google, Apple e Facebook.

No que se refere aos livros, a Amazon, que começou como uma loja online de venda de livros, se desenvolveu, criando toda uma cadeia de valor como um sub mercado de publicação global incluindo os serviços de edição aos autores (indies), uma praça de mercado para terceiros, uma plataforma para leitura, uma comunidade de leitores com mais de 20 milhões de assinantes e um novo dispositivo Kindle Unlimited por assinatura mensal e acesso a mais de um milhão de títulos. A indústria de auto publicação está fortemente dominada pela Amazon através de toda a Europa. Em particular, na área de materiais educativos, a Amazon começou a realizar convênios em grande escala com autoridades de vários países, não apenas nos EUA, seu país de origem, porém em competição com editoras locais na Índia e China, em um mercado estimado em bilhões de dólares. Tudo isso gerou uma série de disputas políticas na Europa impulsionadas pelas grandes editoras tradicionais.

Considerando as iniciativas dos outros dois dos “quatro cavaleiros”, podemos dizer que:

  • Apple segue dominando o mercado de tablets com mais de 40% do mercado, seguida pela Samsung, com 25% e Amazon com uma cifra modesta menor que 5%, ainda que isso esteja começando a variar pela preferência do público por tablets multifuncionais, levando o sistema Android a superar a Apple.
  • Referente ao Google, sua iniciativa de busca de texto completo em livros digitalizados, chamada inicialmente Google Book Search, Google Print e Google Library Project, em conjunto chamadas agora de Google Books, dispunham em 2015 de mais de 25 milhões de livros.

Outros atores menores, mas também importantes são Rakuten Kobo (Canadá) que informa possuir mais de 26 milhões de assinantes em 90 países e um inventário de mais de 4,7 milhões de títulos e Tolino (Alemanha) com uma ampla base de sócios na Europa.

A alta complexidade dos mercados de ebooks, nos quais surgiram várias batalhas legais na Europa e EUA, compreende as diferentes estratégias contraditórias (e antigas) da atribuição de preços, a pirataria e as facilidades de auto publicação. Este cenário pode ser visto como oportunidade ou ameaça, segundo o lado em que se encontra do balcão. A consequência desta situação demonstra que se encontra em maturação um mercado diferente para os livros, onde duas estratégias parceiras que começam a se destacar: as plataformas de assinatura e a auto publicação de livros (incluindo as opções de Creative Commons).

Este será o conteúdo da terceira e última parte desta série de posts.

Notas

1. WISCHENBART, R., et al. Global eBook: a report on market trends an developments. Rüdiger Wischenbart Content and Consulting (RWCC). 2016. Available from: http://www.global-ebook.com/

2. SPINAK, E.Livros eletrônicos – mercado global e tendências – Parte I: A publicação – impressa e digital – no contexto mundial. SciELO em Perspectiva. [viewed25 June 2016]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2016/06/22/livros-eletronicos-mercado-global-e-tendencias-parte-i-a-publicacao-impressa-e-digital-no-contexto-mundial/

Referências

WISCHENBART, R., et al. Global eBook: a report on market trends an developments. Rüdiger Wischenbart Content and Consulting (RWCC). 2016. Available from: http://www.global-ebook.com/

SPINAK, E. Livros eletrônicos – mercado global e tendências – Parte I: A publicação – impressa e digital – no contexto mundial. SciELO em Perspectiva. [viewed 25 June 2016]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2016/06/22/livros-eletronicos-mercado-global-e-tendencias-parte-i-a-publicacao-impressa-e-digital-no-contexto-mundial/

Links Externos

Amazon Publishing – <http://www.advicesbooks.com/index.php/what-is-amazon-publishing/>

CreateSpace – <https://www.createspace.com/>

Goodreads – <https://www.goodreads.com/>

Google Books – <https://books.google.com/>

Kindle Unlimited – <https://www.amazon.com/gp/feature.html?docId=1002872331>

Lulu – <https://www.lulu.com/>

Rakuten Kobo – <https://store.kobobooks.com/es-es>

Smashwords: your ebook, your way – <http://www.smashwords.com/>

Tolino – <http://mytolino.de/>

 

spinakSobre Ernesto Spinak

Colaborador do SciELO, engenheiro de Sistemas e licenciado em Biblioteconomia, com diploma de Estudos Avançados pela Universitat Oberta de Catalunya e Mestre em “Sociedad de la Información” pela Universidad Oberta de Catalunya, Barcelona – Espanha. Atualmente tem uma empresa de consultoria que atende a 14 instituições do governo e universidades do Uruguai com projetos de informação.

 

Traduzido do original em espanhol por Lilian Nassi-Calò.

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

SPINAK, E. Livros eletrônicos – mercado global e tendências – Parte II: A publicação do livro impresso e digital no contexto mundial [online]. SciELO em Perspectiva, 2016 [viewed ]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2016/07/13/livros-eletronicos-mercado-global-e-tendencias-parte-ii-a-publicacao-do-livro-impresso-e-digital-no-contexto-mundial/

 

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