Acesso aberto revisado: critérios mais rígidos preservam a credibilidade

Por Lilian Nassi-Calò

O acesso aberto vem se afirmando como forma preferencial de publicação de resultados de pesquisa, principalmente quando esta é financiada com recursos públicos. Muitos estudos apontam que o modelo é economicamente sustentável e que os recursos empregados em assinaturas de periódicos seriam mais que suficientes para financiar este modelo de negócios. Ademais, a percepção sobre a qualidade de publicações de acesso aberto vem melhorando na comunidade científica.

Campanhas difamatórias sobre o acesso aberto, entretanto, também se tornaram mais frequentes nos últimos anos. Os maiores responsáveis pela atribuição – infundada – de baixa qualidade e ausência de revisão por pares deste modelo de publicação são os publishers e periódicos predatórios. O termo se tornou popular desde a publicação do artigo de John Bohannon na Science em 20131,2, no qual o autor procurava denegrir a imagem do acesso aberto como um todo pelo fato de 157 de 304 publicações de acesso aberto terem publicado artigos fraudados e gerados por computador de baixíssima qualidade. Diz-se de periódicos predatórios, ou pseudo-journals aqueles que alegam ser publicações científicas de acesso aberto, porém existem tão somente para arrecadar taxas de publicação ou Article Processing Charges (APC). Soma-se ao artigo de Bohannon a lista publicada – e sistematicamente atualizada – de publishers e periódicos predatórios de Jeffrey Beall3. Este bibliotecário da Universidade do Colorado (Denver, CO, EUA) também se tornou conhecido por tratar o SciELO como a “favela das publicações”, em contrapartida aos periódicos de publishers comerciais – a “boa vizinhança”. Como era de imaginar, a comunidade científica brasileira e internacional reagiu proporcionalmente, a exemplo da SPARC, que considera o SciELO “um modelo para o resto do mundo”4.

O índice mais completo de periódicos de acesso aberto é o Directory of Open Access Journals (DOAJ), criado em 2003 por iniciativa da Open Society Institute e da Universidade Lund, na cidade de mesmo nome na Suécia. Em princípios deste ano o índice incluía mais de 11 mil periódicos científicos. Assim como o acesso aberto, o DOAJ foi alvo de críticas por alegadamente incluir periódicos predatórios em sua base. Isso o levou a tornar mais restritos os critérios de inclusão de novos periódicos e a demandar, há dois anos, que todos os periódicos indexados deveriam ressubmeter sua solicitação de ingresso no diretório. Este processo resultou na falha de 3.300 títulos em reenviar seu pedido de indexação, os quais deverão ser excluídos permanentemente. A reestruturação do DOAJ foi tema de notícia na Nature na edição de 9 de maio5.

Lars Bjørnshauge, diretor administrativo do diretório, afirmou na matéria que está “ absolutamente certo” de que a maioria destes periódicos que não ressubmeteram ao índice “não são publicações antiéticas (predatórias), porém periódicos que não estão familiarizados com a forma de prover a informação necessária para submissão”.

Atualmente, o DOAJ conta com 8.848 periódicos. Este número inclui periódicos que ressubmeteram ao DOAJ mas ainda não foram analisados, em vista dos novos critérios em vigor desde março de 2014, aqueles que ressubmeteram e foram aprovados e novos periódicos que submeteram sob os novos critérios e foram aprovados.

Uma característica de publicações predatórias é utilizar títulos que parecem indicar serem de países líderes em pesquisa científica como Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, países da Europa e outros, quando na verdade estão baseados principalmente na África, Paquistão, China e Índia. A América Latina, por possuir principalmente periódicos de acesso aberto sem fins lucrativos ligados a instituições de pesquisa e sociedades científicas, tem menos de 0,5% de publishers predatórios e apenas 2% de autores publicam em periódicos desta natureza. O Programa SciELO é certamente responsável pela boa reputação da maioria das publicações da região.

Os periódicos predatórios continuam a ser o tema preferido de Beall, que expressou não acreditar que a medida do DOAJ produza resultados confiáveis. Em sua opinião, a informação sobre os periódicos que submetem inscrição no DOAJ é de responsabilidade dos próprios publishers e seria, por isso, questionável. Beall, entretanto, deveria saber que qualquer processo de submissão a bases de dados bibliográficas reputadas como o Web of Science, Scopus, ou Medline parte de informação fornecida pelo próprio editor do periódico ou do publisher. Cabe aos comitês que julgam, apurar a veracidade desta informação e avaliar a integridade do periódico. Certamente o DOAJ faz o mesmo.

Bjørnshauge concorda que há publishers que provêm informação falsa, porém o DOAJ apoia campanhas educacionais pela integridade na publicação científica e conta com o apoio de ao menos “uma dúzia de embaixadores” que apuram e apontam publishers questionáveis. Ele afirma que avaliar caso a caso cada periódico postulante é uma abordagem direta e efetiva e “a maioria dos pesquisadores podem identificar se um veículo é apropriado em 10-15 minutos”. Ele afirma receber 80 submissões por semana e nos últimos dois anos, o DOAJ rejeitou mais de 5.400 periódicos, mas nem todos são publicações predatórias. Muitos editores desconhecem regras de direitos autorais, permissões e transparência editorial, o que faz com que seus periódicos sejam rejeitados.

É importante ressaltar que o DOAJ, em uma iniciativa conjunta com o Committee of Publication Ethics (COPE), a Open Access Scholarly Publishers Association (OASPA) e a World Association of Medical Editors (WAME) publicaram em 2013 o conjunto de normas conhecido como “Princípios de Transparência e Boas Práticas em Publicação Científica” (Principles of Transparency and Best Practice in Scholarly Publishing)6. Estas organizações se dedicam a estabelecer normas de conduta na publicação científica e identificar princípios de ética e transparência que distinguem periódicos legítimos daqueles não legítimos, muitas vezes fraudulentos. De acordo com o texto das normas, os critérios derivam principalmente daqueles desenvolvidos pelo DOAJ por ocasião de sua criação em 2003. As organizações participantes tem por objetivo disseminar o conjunto de normas para seus associados com o objetivo de fazer com que mais publishers sigam os princípios éticos que norteiam as boas práticas em comunicação científica.

Os princípios reúnem 16 tópicos, incluindo a avaliação por pares, corpo editorial, direitos autorais, conduta para lidar com má conduta científica, conflito de interesse, fontes de receita, publicidade e muitos outros, cobrindo praticamente todos os aspectos inerentes à publicação científica.

Em se tratando de um trabalho em progresso, como informa o texto dos “Princípios”, acaba de ser publicado em 13 de maio de 20167 uma revisão dos critérios de aplicação para associação na OASPA. Esta organização criada em 2008 representa um amplo espectro de publishers de acesso aberto e outras organizações, e informa que vem continuamente revendo e melhorando os critérios de inclusão com a finalidade de conformar uma comunidade apta a discutir e explorar modelos de negócios, ferramentas e padrões de acesso aberto.

Além das organizações acima mencionadas que atuam em prol das boas práticas em publicação de acesso aberto, há iniciativas de crowdsourcing como Journalysis.org e Quality Open Access Market (QOAM) que contam com pesquisadores voluntários para avaliar periódicos e compartilhar suas experiências, caso tenham publicado em determinado periódico. Eles podem atribuir quatro categorias de conceitos sobre as publicações, incluindo “ameaça para autores”. Bjørnshauge, do DOAJ, apoia esta iniciativa e afirma ser produtivo contar com autores desinteressados para opinar sobre a idoneidade das publicações. Beall certamente desaprova.

Notas

1. NASSI-CALÒ, L. Polêmico artigo na Science expõe fragilidades da revisão por pares em um conjunto de periódicos de acesso aberto. SciELO em Perspectiva. [viewed 15 May 2016]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2013/11/05/polemico-artigo-na-science-expoe-fragilidades-da-revisao-por-pares-em-um-conjunto-de-periodicos-de-acesso-aberto/

2. BOHANNON, J. Who’s Afraid of Peer Review? Science. 2013, vol. 342, nº 6154, pp. 60-65. DOI: 10.1126/science.342.6154.60

3. VELTEROP, J. A área cercada da ‘boa’ vizinhança da publicação de Jeffrey Beall. SciELO em Perspectiva. [viewed 15 May 2016]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2015/08/01/a-area-cercada-da-boa-vizinhanca-da-publicacao-de-jeffrey-beall/

4. ALPERIN, J.P., et al. Acesso aberto na América Latina: um modelo para o resto do mundo [Publicado originalmente no blog da SPARC]. SciELO em Perspectiva. [viewed 15 May 2016]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2015/08/18/acesso-aberto-na-america-latina-um-modelo-para-o-resto-do-mundo-publicado-originalmente-no-blog-da-sparc/

5. BAKER, M. Open-access index delists thousands of journals. Nature. 2016. DOI: 10.1038/nature.2016.19871

6. Principles of Transparency and Best Practice in Scholarly Publishing. Open Access Scholarly Publishers Association (OASPA). 2013. Available from: http://oaspa.org/principles-of-transparency-and-best-practice-in-scholarly-publishing/

7. Reviewing OASPA Membership Applications: OASPA’s Continued Commitment to Best Practices in Open Access Publishing. Open Access Scholarly Publishers Association (OASPA). 2016. Available from: http://oaspa.org/reviewing-oaspa-membership-applications/

Referências

ALPERIN, J.P., et al. Acesso aberto na América Latina: um modelo para o resto do mundo [Publicado originalmente no blog da SPARC]. SciELO em Perspectiva. [viewed 15 May 2016]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2015/08/18/acesso-aberto-na-america-latina-um-modelo-para-o-resto-do-mundo-publicado-originalmente-no-blog-da-sparc/

BAKER, M. Open-access index delists thousands of journals. Nature. 2016. DOI: 10.1038/nature.2016.19871

BEALL, J. Lista de publishers predatórios de Jeffrey Beall. Scholarly Open Access. 2015. Available from: http://scholarlyoa.com/publishers/

BOHANNON, J. Who’s Afraid of Peer Review? Science. 2013, vol. 342, nº 6154, pp. 60-65. DOI: 10.1126/science.342.6154.60

COP, N. Recursos gastos globalmente em assinaturas de periódicos podem ser completamente transferidos para um modelo de negócio de acesso aberto para liberar acesso aos periódicos?. SciELO em Perspectiva. [viewed 15 May 2016]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2015/05/26/recursos-gastos-globalmente-em-assinaturas-de-periodicos-podem-ser-completamente-transferidos-para-um-modelo-de-negocio-de-acesso-aberto-para-liberar-acesso-aos-periodicos/

NASSI-CALÒ, L. A percepção favorável ao acesso aberto melhora entre pesquisadores. SciELO em Perspectiva. [viewed 15 May 2016]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2015/09/17/a-percepcao-favoravel-ao-acesso-aberto-melhora-entre-pesquisadores/

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NASSI-CALÒ, L. O Acesso Aberto como alternativa de sustentabilidade na comunicação científica. SciELO em Perspectiva. [viewed 15 May 2016]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2016/01/14/o-acesso-aberto-como-alternativa-de-sustentabilidade-na-comunicacao-cientifica/

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RAJAGOPALAN, J. Taking open access one step further: The role of SciELO in the global publication landscape [originally published in Editage Insights]. SciELO in Perspective. [viewed 15 May 2016]. Available from: http://blog.scielo.org/en/2015/10/23/taking-open-access-one-step-further-the-role-of-scielo-in-the-global-publication-landscape-originally-published-in-editage-insights/

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VELTEROP, J. O que está atrasando a transição ao acesso aberto se não custa mais?. SciELO em Perspectiva. [viewed 15 May 2016]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2015/09/10/o-que-esta-atrasando-a-transicao-ao-acesso-aberto-se-nao-custa-mais/

Links externos

Committee on Publication Ethics (COPE) – <http://publicationethics.org/‎>

Directory of Open Access Journals (DOAJ) – <https://doaj.org/>

Open Access Scholarly Publishers Association (OASPA) <http://oaspa.org/>

World Association of Medical Editors (WAME) <http://www.wame.org/>

 

lilianSobre Lilian Nassi-Calò

Lilian Nassi-Calò é química pelo Instituto de Química da USP e doutora em Bioquímica pela mesma instituição, a seguir foi bolsista da Fundação Alexander von Humboldt em Wuerzburg, Alemanha. Após concluir seus estudos, foi docente e pesquisadora no IQ-USP. Trabalhou na iniciativa privada como química industrial e atualmente é Coordenadora de Comunicação Científica na BIREME/OPAS/OMS e colaboradora do SciELO.

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

NASSI-CALÒ, L. Acesso aberto revisado: critérios mais rígidos preservam a credibilidade [online]. SciELO em Perspectiva, 2016 [viewed ]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2016/05/25/acesso-aberto-revisado-criterios-mais-rigidos-preservam-a-credibilidade/

 

7 Thoughts on “Acesso aberto revisado: critérios mais rígidos preservam a credibilidade

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  2. Muito bom e esclarecedor artigo de opinião. O modelo Open Access é sem sombra de dúvidas um modelo a ser seguido por muitos periódicos ou mesmo todos.

  3. De fato o modelo de acesso aberto é um modelo de inclusão, baseado no cooperativismo e como fim a socialização do conhecimento, tornando o acesso democrático ao que se chama “paises periféricos” no mesmo nível que os paises ditos de “primeiro mundo’.
    Este modelo tem sua antitese espalhada por toda a sociedade capitalista sob a chancela de “trabalho profissional”, livre iniciativa ou inserção de mercado, um modelo de exclusão que pretende fazer daqueles que têm mais dinheiro mais competentes. Porém em essencia o trabalho de ambos modelos depende apenas da ética do editor, dos autores e colaboradores (pessoas humanas) em fazer uma boa ciência. Desta forma os critérios estabelecidos pelo DOAJ são bem vindos e vem disciplinar e colocar todos sob o mesmo julgamento e consequente padrão de qualidade.

    Parabens á SciELO que, com o trabalho de uma pequena equipe, feito um trabalho gigantesco nos colocando de uma maneira profissional (na verdadeira acepção da palavra) no mesmo nível das melhores instituições mundiais.

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