Recursos gastos globalmente em assinaturas de periódicos podem ser completamente transferidos para um modelo de negócio de acesso aberto para liberar acesso aos periódicos?

Por Nicholas Cop

Foto: Ano Lobb.

Foto: Ano Lobb.

Poderíamos usar os recursos gastos globalmente em assinaturas de periódicos científicos por bibliotecas acadêmicas, centros de pesquisa e outros, e fazer sua transição, ou alterar sua proposta para custear a publicação destes mesmos periódicos e artigos em acesso aberto? Isso seria alcançar um sonho do movimento de Acesso Aberto e da sociedade como um todo. O acesso a todo o conhecimento publicado resultante da pesquisa científica não seria mais restrito, em qualquer lugar do mundo, por qualquer forma de barreira, tal como acesso pago a conteúdos! O bem público seria mantido. Sem investimentos adicionais.

Um estudo1 recente e muito interessante conduzido pela Biblioteca Digital Max Plank, publicado como White Paper2 sobre a Política de Acesso Aberto, enfoca precisamente este cenário. O documento quantifica, pelo que parece ser pela primeira vez na história, se tal sonho é possível e conclui que é, de fato!

O estudo começa por salientar o rápido crescimento da publicação de acesso aberto, e o fato de que novos periódicos não têm futuro real se forem lançados como periódicos de assinatura em vez de periódicos de acesso aberto. Apresenta-se como exemplo o novo periódico em acesso aberto, PLOS One, que se tornou o maior periódico do mundo em termos de número de artigos publicados e citações recebidas.

A análise do estudo apoia a proposta de mudança no modelo de negócio inerente da publicação acadêmica, mudando os pagamentos de assinaturas de periódicos para pagamentos por serviços de publicação de acesso aberto, como as taxas de processamento do manuscrito (Author Processing Charges, APC3) na denominada Via Dourada de Acesso Aberto. Neste cenário, os orçamentos de aquisição de periódicos de bibliotecas acadêmicas poderiam ser consolidados e, assim, transformados em um orçamento para serviços de publicação em acesso aberto.

De forma geral, números razoavelmente confiáveis ​​sobre APC estão atualmente sendo produzidos. Os financiadores, instituições e bibliotecas acadêmicas não só querem manter o controle de quanto pagam, mas também ter a certeza de que não estão sendo duplamente faturados no caso de periódicos híbridos. Agências de fomento e instituições também estão cada vez mais interessadas ​​em verificar que os artigos pelos quais pagaram APC estão, de fato, sendo disponibilizados em acesso aberto.

O estudo usa um método muito inteligente, simples e claro para apoiar sua premissa, e a matemática é bastante simples. Dados sobre APC para a Alemanha, Reino Unido e França foram usados para gerar uma APC média de EUR 2.000 por artigo4, segundo os cálculos. Em seguida, a produção total de artigos científicos e artigos de revisão de cada país foi deduzida para que os trabalhos com vários autores fossem contabilizados apenas uma vez para o país do autor correspondente. Este número foi chamado de “artigos APC-relevantes”, em outras palavras, o número real (corrigido) de artigos e artigos de revisão que representam a produção científica do país, que poderiam cobrar a APC, caso fossem todos financiados para ser publicados em acesso aberto.

A quantia que um país poderia ter gasto se todos os seus resultados científicos fossem publicados em acesso aberto foi então calculada:

(Artigos APC-relevantes) x APC = total de pagamentos estimados para publicar em acesso aberto

Este resultado foi comparado com os gastos totais estimados do país em assinaturas de periódicos. Em todos os casos as despesas de subscrição excederam os gastos calculados com APC (Tabela 1), indicando que, de fato, há dinheiro suficiente no sistema para uma transição total ao Acesso Aberto Via Dourada, sem risco ou impacto financeiro.

Tabela 1 – Gasto total com assinaturas (2013) vs. gasto total previsto com APC

Nota: Os dados são referentes a 2013. A APC média utilizada é de EUR 2.000. Os dados relativos ao número total de artigos são a partir do Web of Science. Os dados para o total das despesas com assinaturas foram derivados de analistas-chave, como Simba e PNB Paribas. Os dados de artigos APC- relevantes para os EUA foi extrapolada com base na tendência de Alemanha, Reino Unido e França.

Um estudo similar a este está sendo realizado nos EUA. O objetivo é pesquisar um modelo sustentável de APC para a publicação em acesso aberto que deve fornecer, como um de seus resultados, uma –estimativa mais clara do que é apresentado na Tabela 1 em relação ao APC total e o gasto total com assinatura de periódicos nos EUA.

A Biblioteca Digital Max Plank realizou a mesma análise a nível institucional para prever como as instituições poderiam ser afetadas financeiramente com uma transição tão completa para a publicação de acesso aberto. O número de publicações APC-relevantes para uma determinada instituição foi calculado como sendo na faixa de 40% a 60% da produção total de uma instituição. Este valor foi baseado no que é relatado pelas cerca de 30 universidades alemãs que participam do programa de financiamento pelo DFG (Fundação Alemã de Pesquisa) e pela experiência mais de 10 anos que o Instituto Max Plank tem no pagamento das APC de seus pesquisadores. Os resultados desta análise foram ainda mais acentuados do que aqueles em nível de país em apoio a uma transição total para o acesso aberto.

Nós já estamos a caminho…

Alguns publishers, como a IOP e a Sociedade Real de Química, estão experimentando um novo tipo de modelo híbrido denominado de “compensação” que compensa os custos de subscrição de periódicos de acordo com a da APC paga pelos artigos publicados em acesso aberto. Este modelo de compensação, caso levada à sua conclusão lógica, poderia fornecer o modelo de negócio para fazer a transição de todas as despesas de assinatura para o financiamento de serviços de acesso aberto (APC), a fim de publicar todos os periódicos e artigos científicos em acesso aberto. Assim, há esperança de que, progressivamente, todos os periódicos científicos possam ser publicados integralmente em acesso aberto!

Iniciativas em paralelo com o modelo de compensação, tal como a ESAC, podem trazer padronização aos fluxos de trabalho e a administração de taxas de serviços de acesso aberto, e podem ajudar ainda mais a quantificar e facilitar a transição de um sistema baseado em assinatura para um sistema sustentável de publicação em acesso aberto.

Pontos-chave do estudo

Os quatro pontos principais, ou “insights“, como são chamados no estudo, são verdadeiramente esclarecedores e que vale a pena repeti-los aqui (os títulos foram adicionados pelo autor deste post):

Sustentabilidade

  1. No âmbito do sistema de assinatura atual, valores entre EUR 3.800 e 5.000 já estão sendo pagos por artigo através de gastos com assinatura pelas bibliotecas.
  1. Já existe atualmente dinheiro suficiente no sistema. A transformação em grande escala do modelo de subscrição para publicação de acesso aberto é possível sem nenhuma despesa adicional.

Análise de Custos

  1. Para uma análise de custo significativa, é importante diferenciar os artigos APC-relevantes (artigos do autor correspondente) do resto do registro de publicações. Os primeiros exemplos a nível de país sustentam a alegação de que uma transformação de acesso aberto pode ser alcançada sem risco financeiro.
  1. Enquanto a fração de artigos APC-relevante a nível de país é muitas vezes próxima de 70%, ela pode facilmente se situar abaixo para cerca de 50% a nível institucional. Este princípio fundamental de distribuição deve ser considerado no cálculo dos custos para uma transformação em acesso aberto.

Conclusões

O fato de que aparentemente existem neste momento recursos suficientes no sistema baseado em assinatura para financiar serviços de publicação em acesso aberto voltados para a publicação de todos os periódicos científicos em acesso aberto, fornece impulso para a realização do sonho do acesso público a todo o conhecimento de pesquisa científica sem barreiras. E nós já estamos a caminho! Esta transição deve também aliviar as enormes pressões financeiras sobre bibliotecas acadêmicas e institutos de pesquisa dos países em desenvolvimento, que estão sujeitos às flutuações das taxas e restrições de conversão de câmbio para pagar por assinaturas de periódicos. Estas instituições geralmente têm orçamentos muito limitados de subscrição comparadas às contrapartes de países desenvolvidos. Isso coloca seus pesquisadores e educadores em grande desvantagem a nível mundial no acesso à informação necessária para o avanço econômico, social e tecnológico.

Notas

1 SCHIMMER, R., GESCHUHN, K.K., and VOGLER, A. Disrupting the subscription journals’ business model for the necessary large-scale transformation to open access. MPG. PuRe. 2015. DOI: 10.17617/1.3.

2 Nota do tradutor: White paper é um relatório de governo ou outra autoridade que fornece informação ou propostas sobre um determinado tema.

3 Author Processing Charge, ou Taxa de Processamento do Manuscrito, é uma taxa geralmente paga pelos autores para publicar em periódicos Via Dourada de Acesso Aberto.

4 Os dados de APC foram extraídos de registros da Biblioteca Digital Max Planck que são inseridos no GitHub da iniciativa OpenAPC, na German Research Foundation (DFG), no Austrian Science Fund (FWF), no SCOAP3 Consortium e na Wellcome Trust.

Referências

BJÖRK B.; SOLOMON, D. Developing an Effective Market for Open Access Article Processing Charges. Welcome Trust. 2014. Available from: http://www.wellcome.ac.uk/stellent/groups/corporatesite/@policy_communications/ documents/web_document/wtp055910.pdf

IOP Publishing and UK university libraries collaborate on open access offsetting pilot. RLUK Research Libraries UK. Available from: http://www.rluk.ac.uk/news/iop-publishing-uk-university-libraries-collaborate-open-access-offsetting-pilot/

IOP Publishing launches open access deal. IOP Institute of Physics. Available from: http://www.iop.org/news/14/may/page_63308.html

Principles for Offset Agreements. JISC Collections. Available from: http://www.jisc-collections.ac.uk/Global/News%20files%20and%20docs/Principles-for-offset-agreements.pdf

SCHIMMER, R., GESCHUHN, K.K., and VOGLER, A. Disrupting the subscription journals’ business model for the necessary large-scale transformation to open access. MPG. PuRe. 2015. DOI: 10.17617/1.3.

UC Davis and CDL Investigation of the Institutional Costs of Gold Open Access. ICIS. Available from: http://icis.ucdavis.edu/?page_id=286

Link externo

Efficiency and Standards for Article Charges – <http://esac-initiative.org>

 

spinakSobre Nicholas Cop

Nicholas Cop é o fundador e presidente da Nicholas Cop Consulting, LLC, com sede na Flórida, USA. Além de ser consultor do programa SciELO, a empresa fornece serviços de informação a nível internacional para instituições acadêmicas e bibliotecas, redes de informação e de pesquisa e publishers. Nicholas formou-se em física (B.Sc.) pela Universidade de McMaster, no Canadá e concluiu seus estudos de pós-graduação na Universidade de Toronto, também no Canadá.

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

COP, N. Recursos gastos globalmente em assinaturas de periódicos podem ser completamente transferidos para um modelo de negócio de acesso aberto para liberar acesso aos periódicos? [online]. SciELO em Perspectiva, 2015 [viewed ]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2015/05/26/recursos-gastos-globalmente-em-assinaturas-de-periodicos-podem-ser-completamente-transferidos-para-um-modelo-de-negocio-de-acesso-aberto-para-liberar-acesso-aos-periodicos/

 

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