Ciência e vida: Entrevista – Homenagem ao Dr. Greene

Lewis Joel Greene

Lewis Joel Greene

Lewis Joel Greene nasceu em 10 de agosto de 1934, na cidade de Nova York, Estados Unidos. Bacharel com ênfase em química pelo Amherst College (1955), fez doutorado em bioquímica e biologia celular pela Universidade de Rockefeller (1962). Após seu doutorado, trabalhou por 12 anos como pesquisador do Departamento de Biologia do Brookhaven National Laboratory. Em 1968, recebeu uma bolsa Fulbright para visitar o Departamento de Farmacologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) como convidado do Professor Mauricio Rocha e Silva. Esta experiência foi determinante para Greene e sua família decidirem morar no Brasil. Em 1974, foi contratado na mesma Universidade, onde, a partir de 2000, atuou como professor de biologia celular e molecular até sua aposentadoria compulsória em 2004. Foi Coordenador do Centro de Química de Proteínas da FMRP de 1975 a 2004. Em 1980, Eduardo M. Krieger, Sergio H. Ferreira e Greene assumiram a responsabilidade pela editoração do Brazilian Journal of Medical and Biological Research, publicado 100% em inglês, representando cinco sociedades biomédicas brasileiras. Em 1985, foi um dos fundadores e presidiu a Associação Brasileira de Editores Científicos (ABEC), entidade que permanece até hoje e representa a classe de editores científicos no Brasil. Recebeu diversas homenagens, mas suas mais significativas ocorreram em 1997, quando foi eleito Membro Titular da Academia Brasileira de Ciências e em 2002, quando foi introduzido na Ordem do Mérito Científico Brasileiro. Continua a trabalhar em seu grupo de pesquisa, atuando como chefe do Centro de Química de Proteínas do Hemocentro de Ribeirão Preto. Também publicou 130 artigos em periódicos, que receberam mais de 3000 citações em revistas internacionais, 304 resumos em congressos e 131 trabalhos apresentados em eventos. Orientou 26 alunos de Mestrado e 30 alunos de Doutorado, participou de 266 eventos da área de saúde e científica, além de organizar outros 17 eventos. Eleito por seus pares foi membro do Comitê Científico do SciELO por sete anos. Acredita-se que ele é o editor científico que mais tempo permanece na função no Brasil, são mais de 30 anos no comando da Brazilian Journal of Medical and Biological Research. Este é um breve resumo da vida pregressa do Dr. Greene e sua experiência como editor será compartilhada com as respostas a seguir.

1. Como formar um editor de periódico científico?

Acho que os editores de revistas científicas não são formados, mas sim “acontecem”. Acredito que encontrar prazer na pesquisa, ter curiosidade a respeito da pesquisa, ser produtor eficaz de ciência e ser um especialista em uma ou mais áreas são as características da maioria dos bons editores que já conheci. Em 2006, proferi uma palestra para cerca de 400 jovens aspirantes a editores na Ásia e tive a impressão de que estava falando para uma classe de contadores.

2. Quais as funções dos periódicos científicos do Brasil?

A função mais visível dos periódicos científicos é a de publicar trabalhos que comuniquem a ciência brasileira para o resto do mundo. Devido à natureza do processo de revisão por pares, os periódicos podem também criar critérios para o desenvolvimento e a publicação da pesquisa. Este papel educativo é desempenhado de maneira mais eficaz pelas revistas editadas pelas sociedades científicas porque elas operam em nível nacional. Um periódico pode também promover áreas científicas locais publicando simpósios.

3. Qual o fluxograma ideal para um periódico científico?

Acho que não existe fluxograma ideal para uma revista científica porque os objetivos dos vários periódicos, bem como as condições locais, podem ser muito diferentes.

4. A participação efetiva e profissional de um editor internacional pode ser importante para os periódicos nacionais?

Não sei. A resposta dependeria do editor internacional específico e do periódico específico. O fato de um editor ser internacional não garante sucesso. Trata-se de atitude de povo colonizado.

5. Como o senhor vê a evolução das políticas públicas de apoio aos periódicos?

A evolução das políticas públicas de apoio aos periódicos tem sido positiva, com fundos oferecidos pelas agências nacionais (FINEP, CNPq e CAPES). O evento governamental mais importante foi o apoio ao SciELO, que começou como projeto da FAPESP e da BIREME e que disponibilizou de graça para o mundo inteiro os trabalhos publicados em periódicos brasileiros.

6. O BJMBR foi pioneiro na adoção do APC como forma de financiamento. Como foi esse processo? Ele deve ser estendido aos demais periódicos nacionais?

Acho que este processo poderia ser estendido a todos os periódicos nacionais que sejam de alta qualidade e que satisfaçam outros critérios do SciELO. Entretanto, existe hoje uma nova tendência na publicação de periódicos, que está se tornando cada vez mais comum. A ideia é que os autores, utilizando verbas providenciadas pelas agências de fomento, pagarão uma “publication charge” de US$ 500 a 3000/artigo. Para alguns periódicos, esta pode ser a única fonte de renda. Isso criará um novo tipo de competição entre os periódicos científicos internacionais e brasileiros.

7. O Fator de Impacto do BJMBR tem permanecido por anos pouco acima de 1. Porque o BJMBR não avança mais no fator de impacto?

O fator de impacto de uma revista é uma medida do número total de citações dos trabalhos publicados dentro de dois anos desde a publicação dos mesmos (ISI). As considerações mais relevantes a respeito do fator de impacto do BJMBR são: 1) A palavra “Brazilian” no título; 2) Trata-se de periódico geral, de maneira que a frequência de submissões repetidas pelo mesmo laboratório é baixa; 3) o fato de o fator de impacto ser perto de 1 também contribui, às vezes, para uma menor qualidade dos trabalhos submetidos. O problema maior a respeito do fator de impacto não é o conceito, mas sim o modo como ele vem sendo utilizado. É incorreto usar fatores de impacto para avaliar a pesquisa de indivíduos, departamentos, instituições e universidades.

8. A ABEC desempenhou um papel positivo na editoração científica brasileira?

Sim, mas acho que a ABEC deveria dedicar-se mais a reuniões e congressos voltados a questões amplas no que diz respeito à publicação dos periódicos. Um simpósio com duração de três horas não é tempo suficiente para explorar um assunto e chegar a uma conclusão bem pensada.

9. Nas últimas décadas, “dividiu-se para conquistar”. Hoje temos centenas de periódicos nacionais, competindo eventualmente pelo mesmo nicho. Em que medida isto é saudável e como aprimorar o sistema?

Acho que a competição entre periódicos é saudável, desde que seja justa. Temos alguns periódicos que existem apenas porque um chefe de um departamento ou um diretor de uma escola quer que eles continuem.

10. O programa Qualis da CAPES tem tido influência na qualidade dos periódicos científicos brasileiros?

É difícil responder a esta pergunta, porque eu não concordo com muitas das posições tomadas pelo Qualis e a CAPES nos últimos anos. Entretanto, acho que o Portal da CAPES é uma das contribuições mais importantes para a ciência brasileira como um todo e não apenas para os estudos de pós-graduação. Mas, por outro lado, a ênfase na produtividade (número de trabalhos publicados), a utilização do fator de impacto para classificar áreas de pós-graduação e a ausência de métodos para avaliar os alunos de pós em termos das ferramentas básicas, eu considero como algumas das principais deficiências do sistema. Acredito que eles precisam aprender como aprimorar a ferramenta.

11. Tratando da internacionalização da produção científica, a Capes está analisando propostas para a contratação de editoras internacionais com o objetivo de editar os periódicos brasileiros em destaque. Em sua opinião quais são as vantagens e desvantagens dessa ação?

O Brazilian Journal of Medical and Biological Research (BJMBR) foi convidado a contratar editora internacional para compartilhar a produção e distribuição da Revista. A seleção dos trabalhos seria de responsabilidade dos Editores brasileiros (vantagem), que receberiam remuneração da editora (desvantagem). A produção das versões impressa e eletrônica seria responsabilidade da editora (vantagem), que se responsabilizaria também pela colocação nos seus “sites” de acesso livre (desvantagem). A escolha dos “sites” de acesso livre (desvantagem), bem como a definição (desvantagem) e cobrança (desvantagem) da taxa de publicação, seriam de responsabilidade da editora. O BJMBR seria incluído no programa de publicidade da editora (vantagem). O BJMBR recusou este convite porque as desvantagens superavam as vantagens. Pessoalmente, acho que esta iniciativa não é de interesse dos periódicos brasileiros e reflete a atitude de um povo “colonizado”.

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

SCIENTIFIC ELECTRONIC LIBRARY ONLINE. Ciência e vida: Entrevista – Homenagem ao Dr. Greene [online]. SciELO em Perspectiva, 2014 [viewed ]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2014/11/28/ciencia-e-vida-homenagem-ao-dr-greene/

 

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