Intercâmbio de dados de pesquisa continua baixo e aumenta lentamente

Foto: Tripp

Foto: Tripp.

Nos últimos 10 anos foram produzidas mudanças perceptíveis nas políticas de dados abertos e compartilhamento de dados, especialmente em ciências biológicas. Uma pesquisa realizada em 20131 com 1.600 pesquisadores em ciências biológicas manifesta que esta mudança na direção de compartilhar dados foi produzida por três causas principais:

  • As políticas das agencias de fomento como o NIH dos Estados Unidos e também os projetos de pesquisa do Genoma Humano.
  • As ferramentas e a infraestrutura disponíveis para compartilhar dados em forma aberta.
  • As políticas de publicação dos periódicos científicos de alto impacto.

Apesar das mudanças significativas, a efetividade destas políticas ainda está bastante distante do objetivo desejado, pois um terço dos financiadores não ponderam como importante nas revisões dos projetos os planos de compartilhar dados, e outro terço das agências ignoram estes requisitos. Os resultados sobre outras áreas de pesquisa fora das ciências biológicas têm, todavia, resultados mais pobres.

Analisando do ponto de vista do paradigma da pesquisa científica – quanto à difusão dos resultados e à reprodutibilidade – parece estranha esta “resistência” a compartilhar dados. Uma explicação razoável é que existem tensões entre o que é de interesse público e o que são os interesses privados dos cientistas individuais. A ciência em seu conjunto avança por meio da disseminação da informação… porém a carreira dos cientistas avança pelas contribuições pessoais, as prioridades e os créditos individuais.

Dispor de dados abertos é uma parte constitutiva do método científico, pois permite a verificação dos resultados e avançar na pesquisa. Muitos cientistas estão dispostos a tornar disponíveis seus dados online, porém não conseguem por falta de recursos financeiros ou de infraestrutura. As agências de fomento que consideram este ponto em suas revisões de projetos levam em conta a preservação dos dados em curto prazo, porém não em longo prazo.

Para incentivar as políticas de compartilhar dados o NIH nos Estados Unidos, a partir de 2003, começou a requerer que as solicitações de fundos para projetos de pesquisa incluíssem planos para preservar os dados de forma aberta e, recentemente, também efetivou uma política para o projeto Genoma que começará em 2015 na mesma direção2.

De acordo a com a pesquisa que comentamos, em segundo plano e de menor importância, as políticas de publicação dos periódicos especializados tiveram alguma influência positiva em incentivar a compartilhar os dados das pesquisas. Um estudo recente3 realizado com 50 periódicos de alto impacto mostra que 88% destes têm algum tipo de instrução aos autores relativa à disponibilidade pública dos dados de pesquisa para compartilhamento, porém os requisitos são amplamente variados, que vão desde a disponibilidade dos dados primários à uma declaração que indica que os dados serão enviados caso seja feita uma solicitação. Entretanto, apesar da declaração nas instruções destes periódicos, a realidade do estudo manifesta que uma proporção substancial dos artigos publicados em periódicos de alto impacto não adere às políticas de disponibilidade de dados.

Por outro lado, ao mesmo tempo em que foram sendo desenvolvidas políticas e instrumentos tecnológicos e de infraestrutura para compartilhar dados, também foram sendo desenvolvidas políticas no sentido contrário. Em consequência, elevaram-se as dificuldades e barreiras na propriedade intelectual para proteger os interesses financeiros de universidades e companhias que financiam as pesquisas, impondo condições e restrições sobre o que e quanto do material pode ser compartilhado, cláusulas de transferências de tecnologias, segredos industriais e patentes, inclusive motivos de segurança nacional.

Enquanto periódicos e agências de financiamento têm sido proativos na expansão de abertura de dados, universidades e centros de pesquisa médica têm-se esforçado para preservar a propriedade intelectual institucional.

Outro problema que se manifesta na pesquisa é a instrumentação das políticas das agências de fomento. Sua maior debilidade é que parecem existir poucas sansões formais ou informais para os que não cumprem com os requisitos.

As recomendações principais dos cientistas entrevistados é de que deveria ser estabelecida como norma implícita que os dados das pesquisas, ao invés de serem considerados como bens privados, deveriam ser considerados como bens públicos. Também sugerem que quando se apresentem projetos igualmente competitivos, deveriam ser favorecidos aqueles que estabelecem a abertura dos dados e se as premissas não forem cumpridas então penalizá-los.

Outra recomendação importante é encontrar procedimentos menos burocráticos e custosos para depositar os dados em repositórios abertos. Uma das formas para reduzir custos é a estandardização dos procedimentos de armazenamento e preservação dos dados.

A pergunta óbvia então é se existe uma vontade real de compartilhar dados entre a comunidade científica ou é somente uma destas tantas regras de conduta que esperamos que sejam os outros a cumpri-las e não nós.

São interessantes também as reflexões de um artigo publicado por WICHERTS, BAKKER, MOLENAAR em 2011 na PLoS ONE4 onde destacam:

A relutância generalizada em compartilhar dados de pesquisa é muitas vezes atribuída ao temor dos autores de que a reanálise poderá expor erros no seu trabalho ou poderá produzir conclusões que contradizem suas próprias…

e, depois de analisar os resultados estatísticos de importantes obras de psicologia, o artigo conclui afirmando que:

Encontramos certa relutância em compartilhar dados associados com a evidência mais fraca (contra a hipótese nula de nenhum efeito) e maior prevalência de erros aparentes na apresentação dos resultados estatísticos. A falta de vontade de compartilhar dados foi particularmente clara quando os relatos de erros afetam a significância estatística.

A conclusão dos autores é que deveriam ser estabelecidas políticas obrigatórias para arquivar os dados.

É importante destacar que o SciELO definiu como critério de indexação5 o posicionamento dos periódicos em relação à disponibilidade dos dados de pesquisa.

Notas

1 PHAM-KANTER, G., ZINNER, D.E., and CAMPBELL, E.G. Codifying Collegiality: Recent Developments in Data Sharing Policy in the Life Sciences. PLoS ONE. 2014, vol. 9, nº 9. doi:10.1371/journal.pone.0108451. Available from: http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0108451

Final NIH statement on sharing research data. National Institutes of Health: Office of Extramural Research. 2003. Available from: http://grants.nih.gov/grants/guide/notice-files/NOT-OD-03-032.html

3 ALSHEIKH-ALI, A.A., et al. Public Availability of Published Research Data in High-Impact Journals. PLoS ONE. 2011,vol. 6, nº 9. doi:10.1371/journal.pone.0024357. Available from: http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0024357

4 WICHERTS, J.M., BAKKER, M., and MOLENAAR, D. Willingness to Share Research Data Is Related to the Strength of the Evidence and the Quality of Reporting of Statistical Results. PLoS ONE. 2011, vol. 6, nº 11. doi:10.1371/journal.pone.0026828. Available from: http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0026828

5 Critérios, política e procedimentos para a admissão e a permanência de periódicos científicos na Coleção SciELO Brasil. SciELO. 2014. Available from: http://www.scielo.br/avaliacao/Criterios-SciELO-Brasil-20141003.pdf

Referências

ALSHEIKH-ALI, A.A., et al. Public Availability of Published Research Data in High-Impact Journals. PLoS ONE. 2011,vol. 6, nº 9. doi:10.1371/journal.pone.0024357. Available from: http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0024357

PHAM-KANTER, G., ZINNER, D.E., and CAMPBELL, E.G. Codifying Collegiality: Recent Developments in Data Sharing Policy in the Life Sciences. PLoS ONE. 2014, vol. 9, nº 9. doi:10.1371/journal.pone.0108451. Available from: http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0108451

PIWOWAR, H.A. Who Shares? Who Doesn’t? Factors Associated with Openly Archiving Raw Research Data. PLoS ONE. 2011, vol. 6, nº 7. doi:10.1371/journal.pone.0018657. Available from: http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0018657

TENOPIR, C., et al. Data Sharing by Scientists: Practices and Perceptions. PLoS ONE. 2011, vol. 6, nº 6. doi:10.1371/journal.pone.0021101. Available from: http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0021101

WICHERTS, J.M., BAKKER, M., and MOLENAAR, D. Willingness to Share Research Data Is Related to the Strength of the Evidence and the Quality of Reporting of Statistical Results. PLoS ONE. 2011, vol. 6, nº 11. doi:10.1371/journal.pone.0026828. Available from: http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0026828

 

spinakSobre Ernesto Spinak

Colaborador do SciELO, engenheiro de Sistemas e licenciado en Biblioteconomia, com diploma de Estudos Avançados pela Universitat Oberta de Catalunya e Mestre em “Sociedad de la Información” pela Universidad Oberta de Catalunya, Barcelona – Espanha. Atualmente tem uma empresa de consultoria que atende a 14 instituições do governo e universidades do Uruguai com projetos de informação.

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

SPINAK, E. Intercâmbio de dados de pesquisa continua baixo e aumenta lentamente [online]. SciELO em Perspectiva, 2014 [viewed ]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2014/11/12/intercambio-de-dados-de-pesquisa-continua-baixo-e-aumenta-lentamente/

 

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