Reunião considera como o acesso aberto poderia abordar as iniquidades – Publicado originalmente na Research Information em 19 de Outubro de 2014

Mark Patterson relata retornando da reunião COASP realizada em Paris, em setembro.

Na maioria dos anos anteriores, a reunião anual da Associação de Editoras Acadêmicas de Acesso Aberto (Open Access Scholarly Publishers Association) tem ocorrido na Europa Oriental. Este ano, porém, a reunião mudou-se para o oeste e foi organizada na Sede da UNESCO em Paris, em meados de setembro.

Por um lado, a colaboração com a UNESCO é uma indicação de quão longe a publicação em acesso aberto chegou. Muitas das contribuições na reunião também demonstraram que tem havido progresso, bem como as perspectivas de mais desenvolvimentos radicais na comunicação científica. Mas, para que não descansemos sobre nossos louros, os participantes também receberam uma mensagem de alerta, de que ainda há um longo caminho a percorrer.

A dimensão internacional da publicação de acesso aberto, e seu papel na agenda global de desenvolvimento pós-2015, foi destacada nas palavras de abertura de Getachew Engida, vice-diretor geral da UNESCO, e Indrajit Banerjee, diretor da Divisão Sociedades do Conhecimento da UNESCO, que também enfatizou o compromisso forte e crescente da UNESCO para com o acesso aberto.

Este tema foi desenvolvido por Abel Packer do SciELO, que resumiu as conquistas da plataforma de periódicos SciELO na América Latina, onde o acesso aberto atingiu níveis impressionantes. Por exemplo, 27 por cento dos artigos latino-americanos indexados na Scopus estão em acesso aberto. Também na reunião, Dominique Babini do CLACSO (Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais), Pierre de Villiers da African Online Scientific Information Systems Ltd – AOSIS (Sistemas Africano Online de Informação Científica Ltda.) e Alwaleed Alkhaja da QScience, cobriram desenvolvimentos na Argentina, África do Sul e Oriente Médio e Norte da África, respectivamente.

A gama de palestras e localizações geográficas enfatizou a diversidade de abordagens que existem para ajudar a “abrir” a comunicação científica. No entanto, também foram identificados alguns dos mais difíceis desafios para o seu progresso.

O mais importante entre esses desafios são as práticas predominantes na avaliação de pesquisa, que atuam como um freio poderoso sobre a mudança, e sobre o acesso aberto especificamente. As deficiências na avaliação de pesquisa com base na marca do periódico e fatores de impacto têm sido amplamente documentadas. O que poderia ser menos apreciado é que esta abordagem predominantemente “ocidental” tem efeitos prejudiciais sobre o comportamento editorial e auxílios de pesquisa no sul global. Se periódicos nacionais e regionais lutam para conseguir entrar nos índices-chave de periódicos, estes periódicos locais têm dificuldade em atrair acadêmicos cuja progressão na carreira está ligada à publicação em periódicos ‘estabelecidos’ que são geridos por editores em outras partes do mundo. Apesar de novas soluções não terem emergido desta conferência, a opinião expressa foi de que os pesquisadores podem ajudar a quebrar este círculo vicioso.

Outro tema forte na reunião foi o da inovação. Novas abordagens em publicação baseada na biblioteca ressaltam o potencial de colaborar entre e dentro das instituições. Alma Swan da SPARC Europa falou sobre a colaboração entre as bibliotecas e as editoras universitárias, enquanto Charles Watkinson, da Universidade de Michigan nos EUA descreveu a Library Publishing Coalition, uma associação liderada pela comunidade fundada recentemente, em 2014.

O novo programa da UCL no Reino Unido, descrita na reunião por Paulo Ayris, foi outro bom exemplo. Segundo explicou, o programa não está apenas abrangendo a área desafiadora de publicação aberta de monografias, está também avançando com livros abertos.

Há oportunidades inesperadas a serem exploradas também nestes esforços, para que mais financiamentos à pesquisa possam ser compartilhados e utilizados. Por exemplo, grupos carentes, como estudantes de graduação, podem ser trazidos para o cenário da comunicação científica e podem aprender através da experiência de publicar em espaços projetados para as suas necessidades.

A inserção dos mais jovens na comunicação científica foi levada muito mais à frente na sessão ‘show-and-tell’ por Fred Fenter, que apresentou a iniciativa ‘Fronteiras para Mentes Jovens’, que pareceu captar a imaginação de todos. Ouvir sobre os resultados quando acadêmicos experientes tiveram seu trabalho revisado-por-pares por jovens de 12 anos foi divertido e inspirador.

Os tópicos na reunião COASP deste ano cobriram uma ampla variedade de formatos (periódicos, livros, monografias) e disciplinas (das artes e humanidades às ciências). As discussões também não se limitaram aos textos. Na sessão sobre dados, Celina Ramjoué da Comissão Europeia deu uma nova percepção sobre o desenvolvimento de políticas para o compartilhamento de dados na Europa. Enquanto isso, Phil Bourne (National Institutes of Health, EUA) descreveu sua visão de data commons, onde os resultados da pesquisa estão abertos e conectados entre si e, desta forma, transformados em uma poderosa plataforma para pesquisa e desenvolvimento.

Voltando à terra, ouvimos o essencial sobre a publicação de acesso aberto. Isto incluiu o progresso que está sendo feito para o desenvolvimento das melhores práticas em atribuição, descrito por Caroline Sutton de Co-Action, e na gestão de taxas de processamento de artigo, discutido por Kai Karin Geschuhn da Sociedade Max Planck.

Talvez o tema mais difícil de todos, seja, como negociar a transição para o acesso aberto se você começar como um editor de periódicos por assinatura. Na sessão de sociedades acadêmicas e publicações, algumas perspectivas diferentes foram apresentadas. Andrea Baier resumiu os desafios que a British Ecological Society está enfrentando, mais especificamente as elevadas taxas de publicação que seriam necessárias para preservar os atuais níveis de renda requeridos para apoiar as outras atividades da Sociedade. Em contraste, Xenia van EDIG discutiu como uma série de sociedades estão trabalhando com a Copernicus Publications para avançar com a publicação em acesso aberto mantida por taxas de publicação mais modestas.

Finalmente, voltando para a mensagem de alerta para editores de acesso aberto, Claudio Aspesi (Sanford Bernstein) apresentou uma perspectiva fascinante sobre o mundo editorial através da lente de um analista financeiro. Baseado particularmente nas tendências de preço das ações da Reed Elsevier e Wiley, a conclusão de Aspesi é que o movimento AA está tendo pouco, ou nenhum impacto sobre o mundo da publicação tradicional por assinatura – evidência de que a publicação de acesso aberto está indo para o oeste em mais de um sentido.

É difícil argumentar com os indicadores financeiros que mostram que a Reed Elsevier e outras estão indo muito bem. E eu duvido que mesmo o mais ardoroso defensor de acesso aberto argumente que o acesso aberto está avançando bem, como eles gostariam. No entanto, o progresso rumo ao acesso aberto é inegável, e, como a apresentação final ASAP Award (Accelerating Science Award Program, patrocinado pelo Google, PLoS e a Wellcome Trust), o vencedor Daniel Mietchen do Museum für Naturkunde, de Berlim e muitas outras apresentações da Reunião OASPA demonstraram, o acesso aberto é apenas um aspecto de uma transição mais ampla que está ocorrendo na comunicação científica.

Há uma riqueza de abordagens que estão sendo experimentadas em diferentes disciplinas e em diferentes partes do mundo. Novos modelos de negócios, novas tecnologias, novos atores estão surgindo. O preço das ações da Reed Elsevier é por certo interessante, mas não é a métrica pela qual o sucesso do acesso aberto e iniciativas relacionadas será medido. Por enquanto, em seguida, os publishers de acesso aberto devem se sentir estimulados com ainda maior determinação pelos pontos de vista de Aspesi e inspirados por muitos participantes de publicação de acesso aberto que estão abrindo novos caminhos e apontando para um futuro muito emocionante da comunicação científica.

Mark Patterson é diretor executivo da eLife. Ele também foi o presidente da comissão organizadora do 6° encontro anual da Associação de Editoras Acadêmicas de Acesso Aberto (Open Access Scholarly Publishers Association).

Artigo original em inglês

http://www.researchinformation.info/news/news_story.php?news_id=1732

 

Sobre Mark Patterson

Mark Patterson foi pesquisador em genética por 12 anos antes de passar para publicação científica em 1994, como o Editor de Trends in Genetics. Depois de vários anos na Nature, onde ele esteve envolvido no lançamento da Nature Reviews, ele se mudou para a PLoS em 2003.  Como Diretor de Publicação até 2011, Mark ajudou a lançar várias das revistas PLoS e foi um dos fundadores da Associação de Editoras Acadêmicas de Acesso Aberto (Open Access Scholarly Publishers Association). Mark também é membro do Grupo de Implementação UK Open Access Implementation Group e é atualmente o Diretor Executivo da eLife, uma nova publicação de acesso aberto apoiado pelo Wellcome Trust, do Instituto Médico Howard Hughes e da Sociedade Max Planck.

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

PATTERSON, M. Reunião considera como o acesso aberto poderia abordar as iniquidades – Publicado originalmente na Research Information em 19 de Outubro de 2014 [online]. SciELO em Perspectiva, 2014 [viewed ]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2014/10/19/reuniao-considera-como-o-acesso-aberto-poderia-abordar-as-iniquidades/

 

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