“To blog or not to blog”– o que está fazendo a academia

Por Ernesto Spinak

Foto: SciELO.

Foto: SciELO.

Em um artigo publicado no jornal britânico The Guardian, no dia 2 de dezembro, na sessão “Professional: Higher Education Network”, os autores, ilustres pesquisadores da Universidade de Nottingham e da Universidade Nacional da Austrália analisaram as razões pelas quais os acadêmicos escrevem blogs¹, e parece que não são aquelas que, em princípio, se imaginava.

A idéia geral de que os pesquisadores são encorajados a escrever blogs, é que escrever para o público em geral, em linguagem simples, ajuda a esclarecer as próprias ideias, para promover a importância da ciência entre as pessoas comuns, e melhorar a reputação dos próprios cientistas. É uma forma de preencher a lacuna entre os acadêmicos e outros cidadãos. Mas parece que os blogueiros acadêmicos não o fazem por estas razões, pelo menos em sua maioria, mas o fazem por suas próprias razões de trabalho e de interesses pessoais.

Para o estudo publicado no The Guardian, os autores selecionaram 100 blogs acadêmicos em inglês publicados no Reino Unido, EUA, Canadá e Austrália, que incluiu tanto pesquisadores como professores, bem como profissionais que cumprem tarefas de gerenciamento relacionadas à pesquisa nas universidades. Ao analisar o conteúdo dos blogs e comentários que são gerados em torno das notas publicadas, eles encontraram os seguintes resultados:

  • 41% focam em comentários e avaliação da vida acadêmica, reflexões sobre financiamento e políticas de educação.
  • 40% são relatos e comentários sobre a pesquisa que estão fazendo.
  • O restante trata de questões gerais, incluindo conselhos sobre o ensino e a carreira acadêmica.
  • O estilo de escrita é mais direto e informal.
  • 40 % das notas também usa um estilo mais estruturado semelhante aos artigos de periódicos, mas com menos referências bibliográficas.
  • Três quartos do conteúdo são voltados para os colegas, e apenas um terço estava escrito de forma simples para ser lido por pessoas comuns.

A conclusão do estudo é que a maioria dos blogs acadêmicos são projetados para interagir com os colegas e não para ser lido pelo público em geral, como se supunha que deveriam ser. O mundo dos blogs acadêmico funciona como uma sala virtual global, onde os colegas se sentam ao redor de várias mesas para discutir intensamente sobre:

  • As condições de trabalho e os assuntos relacionados à profissão.
  • Os projetos em curso.
  • Como obter contratos para publicar livros e obter um bom CV.
  • Ajuda e conselhos entre colegas de forma generosa.
  • Informar à comunidade de pares em formato acesso aberto o que eles estão fazendo e, com isso, assegurar certa prioridade nas ideias, muito antes de conseguir ser publicado formalmente em um periódico arbitrado.

Este cenário está longe da ideia de “esclarecer ideias, divulgar a ciência entre os cidadãos comuns e melhorar a reputação”, é muito menos romântica.

O cenário de blogs acadêmicos também começa a receber pressões pelas instituições às quais pertencem os blogueiros. Essas discussões informais são travadas em blogs, incluindo críticas que se tornam públicas mais cedo ou mais tarde, não são do agrado das universidades em que trabalham, e as autoridades não consideram que estas opiniões se inserem dentro da liberdade acadêmica que gozam professores e pesquisadores, mas são considerados dentro das relações públicas e informação para a imprensa. Universidades, particularmente na Austrália, estão começando a regular o que pode ser dito em blogs, e que as coisas podem comprometer a reputação e prestígio da instituição a que pertence o blogueiro.

Estamos apenas começando a entender o mundo dos blogs acadêmicos, por isso, devemos prestar atenção ao que acontece nos países mais avançados, porque mais cedo ou mais tarde ocorrerá o mesmo em nossos países em desenvolvimento.

Mantenha-se em contato com o blog SciELO em Perspectiva, e agradecemos que você deixe suas opiniões na seção de comentários ao final  do artigo.

Nota

¹ Why do academics blog? It’s not for public outreach, research shows

http://www.theguardian.com/higher-education-network/blog/2013/dec/02/why-do-academics-blog-research

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

“To blog or not to blog”– o que está fazendo a academia. SciELO em Perspectiva. [viewed ]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2013/12/06/to-blog-or-not-to-blog-o-que-esta-fazendo-a-academia/

 

3 Thoughts on ““To blog or not to blog”– o que está fazendo a academia

  1. Essa pesquisa parece enviesada. Como foram selecionados os blogs para a pesquisa? E apenas 100 blogs? Só o condomínio de blogs científicos Research Blogging reúne mais de 1.000 blogs científicos, e tanto o Research Blogging como o Scienceblogs (outro destacado condomínio de blogs de ciência) esforçam-se para divulgar os conteúdos científicos de uma forma mais compreensível para o grande público. Claro que há assim postagens abordando a própria pesquisa, o universo acadêmico e outros assuntos correlatos – e não vejo mal nenhum nisso. Mas a grande maioria dos blogs mantém a ideia original de ser um canal para disseminar a ciência.

    • Estimada Sibele

      Los autores indican en el texto original la forma en que seleccionaron la muestra

      “This was not as easy as you might think, given the growth of professional and managerial roles offered inside universities today, which often involve some kind of research or teaching. We opted for the blogger who stated an institutional affiliation, had some kind of academic purpose and was connected to other academic blogs. We couldn’t get a representative sample as there is no handy index of blogs, the numbers change all the time, and frankly, there were just too many. And because we speak English, our choices had to be blogs we could actually read. By using various online listings of academic blogs, we eventually compiled a list of 100 we could use as a sample set. Of these, 49 were from the UK and 40 from the US, five from Canada and six from Australia. 80 were by teaching and researching academics, 14 from para-academics and six from doctoral researchers.”

      De modo que la muestra podría considerarse adecuada para el ámbito de estudio: los cuatro países seleccionados, idioma ingés, y de blogs que indica afiliación académica.
      ¿Son estos resultados extrapolables a otros países y a otros idiomas? No lo sabemos, y sería interesante disponer de un estudio comparativo para ver si esos comportamientos que indican los investigadores son similares/diferentes a los resultado para una muestra bajo diferentes criterios de selección.

  2. A discussão de fundo é a mudança do paradigma fechado para o aberto. Se antes tínhamos feudo, silo, sistema, banco de dados e especialista, agora estamos em comunidades, redes e ecossistema de redes. Os dois paradigmas continuarão lado-a-lado até a lógica fechada perder a relevância. O ideal é pensarmos em arquiteturas híbridas que dêem visibilidade ao institucional e à emergência.

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