Entrevista com Cameron Neylon

Cameron Neylon

Cameron Neylon

Cameron Neylon é um defensor do Acesso Aberto e Diretor do grupo de periódicos PLOS. Nesta entrevista ele fala sobre o papel dos periódicos PLOS na disseminação de artigos de melhor qualidade por meio de um modelo de negócios que transfere dos leitores aos autores a responsabilidade pelo pagamento dos custos editoriais, e no modelo de métrica em nível de artigo lançado pela PLOS.

1 – Passada uma semana da publicação do estudo falso, de acesso aberto, de John Bohannon, na revista Science, qual é a sua avaliação sobre isso e os seus efeitos na comunicação científica e no acesso aberto?

O chamado “embuste” foi lastimável. Nem tanto pelo escândalo que causou, apesar de deplorável, mas, basicamente, porque foi feito de uma maneira pouco comum. Dizia-nos que havia editoras duvidosas e problemas com a seleção no DOAJ (Directory of Open Access Journals), o que sabíamos, prosseguindo as atividades.

O que o estudo não pode nos dizer, devido às falhas na essência do seu projeto, é se as revistas com sistema de subscrição têm alguma diferença em relação às de acesso aberto e se o modelo de negócio faz alguma diferença. É uma pena o fato de que não havia esforços para desenvolver um grupo de revistas de controle para cada revista de subscrição ou para as que não cobram pelo custo de processamento do artigo (APC – Article Processing Charges). Isso teria nos mostrado se o problema é com as tensões para se conseguir artigos para uma revista e se o modelo de negócio faz alguma diferença. Ironicamente, uma das revistas que caíram na armadilha, na verdade, é dirigida pela Elsevier como uma revista de subscrição.

2 – O modelo de negócio da PLOS One, embora inovador, recebe críticas, como a de Richard Poinder (2011)¹, que considera que o modelo tem conflitos de interesses próprios (quanto mais artigos aceitos, maiores as receitas). Qual é a sua reação diante dessa crítica? E o fato de a PLOS ter rejeitado o artigo de Bohannon a beneficia?

Alegações de conflito de interesses, na verdade, são insuficientes para entender a natureza da publicação de periódicos. Uma revista vive ou morre por sua reputação na comunidade. Faz tanto sentido sugerir que um modelo de negócio de APC significa que as revistas publicarão tudo o que recebem, quanto sugerir que uma revista de subscrição simplesmente rejeitará todos os artigos.

Para um negócio sustentável é preciso convencer os autores de que vale a pena submeter artigos. Os autores rejeitarão prontamente tanto uma revista que não publica nada quanto uma que publica tudo. Diferentes modelos de negócio criam tensão em lugares diferentes? Sim. Mas essas tensões existem em todos os modelos de negócio. Há revistas deficientes mantendo pacotes de subscrição, a venda de reimpressões pelas revistas de subscrição, particularmente nas Ciências Médicas, é uma séria preocupação, e a delimitação entre as revistas de intercâmbio irrestrito financiadas pela publicidade e os periódicos não é sempre clara.

Há tanto revistas de subscrição quanto de acesso aberto que são deficientes. Existem revistas deficientes que cobram APC e as que não cobram. A minha opinião é de que, a longo prazo, os modelos de negócio do lado dos autores são menos propensos a conflitos de interesses porque o cliente e o autor vão querer a garantia de ter um bom custo-benefício/estimativa de valor/investimento.

3 – Os periódicos da PLOS cobrem áreas da Ciência e Saúde. Existe algum interesse por parte da PLOS nas Humanidades e Ciências Sociais?

Atualmente, a PLOS não tem planos de publicar pesquisas genéricas nessas áreas. Nós publicamos algumas Ciências Sociais quantitativas e outras partes relevantes no escopo dos nossos vários periódicos. Nossa experiência é com as ciências e, no momento, há outras organizações mais preparadas para servir as comunidades de Humanidades e Ciências Sociais. Eu sugeriria a Ubiquity Press, Co-Action Publishing, Open Editions e o novo projeto Open Library of Humanities como exemplos de publicação de acesso aberto desenvolvida por estudiosos dessas comunidades. Trabalhar para a SciELO, o AJOL e outros também é importante nessa área.

4 – O modelo de métricas para artigos lançados pela PLOS foi aceito pela comunidade acadêmica e pelas autoridades em ciência e pesquisa como um conjunto de métricas legítimas?

Realizamos o segundo workshop de métricas em nível de artigo (Article Level Metrics) em São Francisco e houve apresentações de financiadores, administradores institucionais e pesquisadores que estavam utilizando o nível de artigo e métricas alternativas em seus trabalhos. Nas iniciativas como a DORA (San Francisco Declaration on Research Assessment) e nas declarações de muitos financiadores de que estão interessados na qualidade do trabalho, e não onde ele é publicado, há claramente um desejo de mudança.

Estamos trabalhando para demonstrar que as nossas ferramentas oferecem uma oportunidade para apoiar essa mudança e percebemos um interesse significativo por parte dos financiadores, instituições e pesquisadores. Há uma distância entre o interesse e a aplicação ampla, mas estamos confiantes de que, como percebemos uma maior disponibilidade de dados e mais ferramentas para a sua utilização, veremos a adoção contínua.

Notas:

¹ Poinder R. Open Access, and the Future of Scholarly Publishing. PLOS ONE, Open and Shut Blog. [Viewed 07 March 2011]. Available from: http://poynder.blogspot.com.br/2011/03/plos-one-open-access-and-future-of.html.

Sobre o autor: http://www.scielo15.org/cameron-neylon/

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

SCIENTIFIC ELECTRONIC LIBRARY ONLINE. Entrevista com Cameron Neylon [online]. SciELO em Perspectiva, 2013 [viewed ]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2013/11/05/entrevista-com-cameron-neylon/

 

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