Integridade em pesquisa e o papel institucional: the time has come!

Em 2010, o EMBO Reports publicou um artigo intitulado “For I dipped into the future”, em que Andrea Rinaldi vislumbra a velocidade com que a Internet e outros avanços tecnológicos vêm delineando – e delinearão – a forma como a ciência é comunicada.  O título faz referência a um belíssimo poema profético de Alfred, Lord Tennyson (1848): “For I dipped into the future, far as human eye could see, Saw the Vision of the world, and all the wonder that would be…. Aproprio-me também desse mesmo sentimento, vislumbrando num futuro próximo uma posição de liderança do Brasil na geografia de colaborações de projetos acadêmicos na área de ética e integridade em pesquisa. Vejo a integridade em pesquisa no Brasil como um eixo aglutinador de políticas e estudos sobre o tema na América Latina, capaz de trazer para o mapa de produção de conhecimento na área países que em sua maioria, não possuem ainda qualquer assento na mesa internacional das discussões que se travam.

Global Research CouncilHá poucos anos não imaginávamos o Brasil tão próximo desse assento. No ano passado (2012), a Nature anunciou que o primeiro fórum internacional de um recém-criado Global Research Council (GRC) seria coordenado por Brasil e Alemanha. O GRC, composto por cerca de 50 países, é uma organização internacional gigantesca que, na sua criação, reuniu nos Estados Unidos os principais conselhos/agências nacionais de pesquisa dos 5 continentes. Há poucos meses esse fórum se realizou em Berlim, tendo então a Agência Alemã de Pesquisa (DFG) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) como co-hosts. Mas qual era o foco desse encontro do GRC? “integridade em pesquisa” e “acesso aberto”. Abordando tais temas, o encontro mostrou claramente a relevância da integridade científica no contexto de financiamento da pesquisa, da produção científica e da avaliação dessa produção.

O GRC juntamente com a Conferência Mundial de Integridade em Pesquisa, já na sua terceira edição, talvez sejam os principais sinais de que vislumbrar esse papel de liderança do Brasil na área de integridade em pesquisa não é um exercício precoce. A partir desse encontro do GRC, que reuniu os países responsáveis por cerca de 80% do potencial mundial de pesquisa, foram estabelecidos princípios sobre integridade e sobre acesso aberto a dados de pesquisa. Sabemos que esses temas estão inseridos num caldeirão fervente de múltiplas perspectivas políticas, culturais, sociais… Entretanto, parece ter sido consenso entre os cerca de 70 representantes, que no âmbito de avaliação de projetos de pesquisa, as agências em seus países devem estimular mecanismos que promovam mais transparência, imparcialidade e melhor gerenciamento de conflitos de interesse no processo de revisão dos projetos.

Esse evento do GRC aconteceu semanas depois da 3ª Conferência Mundial sobre Integridade em Pesquisa (2013), em que se discutiu o tema da integridade no âmbito das redes de colaboração em pesquisa entre os diversos países, das publicações acadêmicas, incluindo o escrutínio dos pares, e da correção da literatura científica. A integridade em pesquisa também foi abordada a partir da perspectiva da autorregulação da ciência, apontando alguns desafios contemporâneos para a comunidade de pesquisa, independente da área do conhecimento. Foi nesse evento que se reconheceu publicamente o espaço legítimo do Brasil para sediar a 4ª Conferência Mundial sobre Integridade em Pesquisa. Será no Rio de Janeiro, em 2015! Sabemos que até 2015 haverá muitas oportunidades de estreitarmos as relações entre ética/integridade científica e todas as etapas da pesquisa, desde a proposição até a comunicação dos resultados, para os pares e para o público. 

Temos observado o quanto esse estreitamento vem sendo estimulado, particularmente, na formação de jovens pesquisadores. No Brasil, acho que nesse aspecto ainda estamos numa etapa bem inicial e creio que esse assento que o país vem conquistando nos fóruns mundiais nos sinaliza um questionamento oportuno: qual o papel das instituições de ensino e pesquisa no cenário local? Será que devemos esperar uma demanda das agências de fomento estabelecendo que a concessão de recursos para pesquisa seja dependente de um compromisso institucional com ações educativas sobre integridade? Nos Estados Unidos, por exemplo, já é assim para grants concedidos pela National Science Foundation (NSF) e pelos National Institutes of Health (NIH). Na Irlanda, em um documento (2013) que vem sendo publicado em instituições de ensino e pesquisa do país, a Science Foundation Ireland e o Irish Research Council juntamente com outras instituições, estabelecem que “the funding agencies…can embed research integrity requirements in their funding schemes (e.g. as already done by the Health Research Board)”. Com certeza o que se espera por essas agências não é que as instituições simplesmente satisfaçam um item numa check-off list, como alertado no documento irlandês.

Esse compromisso institucional com a formação dos pesquisadores deve fazer a diferença na maneira como eles propõem, realizam, comunicam e revisam as atividades de pesquisa. Tudo indica que essa forma de gestão de recursos, harmonizada com políticas para a integridade científica nos grupos de pesquisa paulistas, por exemplo, será incentivada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) – ainda a única FAP que vem demonstrando um envolvimento marcado em ações sobre integridade em pesquisa no Brasil. Refaço então aqui a pergunta: Vamos esperar uma demanda das agências de fomento? Dipping into the future, eu diria que essa demanda está muito mais próxima das nossas universidades do que pode parecer.  Um cenário possível, mas não desejável, num futuro talvez pouco distante é o seguinte: instituições brasileiras fazendo um exercício contínuo de cumprimento de uma check-off list… No entanto, acho que podemos “fazer acontecer” um quadro bem mais estimulante: instituições brasileiras promovendo ações concretas – e vibrantes – para que o tema integridade científica passe a fazer parte da cultura de formação de alunos de graduação e de pós-graduação.

Diante de inúmeras prioridades na agenda política dos sistemas de pesquisa em tantas áreas e de enormes desafios para a ciência, tecnologia e inovação no cenário mundial, se aprofunda o diálogo entre a ética/integridade em pesquisa e os contextos associados a essas prioridades e desafios – na minha visão por razões nobres. No âmbito do financiamento da pesquisa mundial, as ações mais recentes – algumas aqui já relatadas – parecem sinalizar uma releitura do termo “pesquisa de qualidade”. No caso das instituições de ensino e pesquisa em vários desses países, essa releitura também vem sendo sinalizada. Nas universidades brasileiras, me parece razoável assumir que the time has come.

Agradecimentos

Agradeço os comentários preciosos dos Profs. Martha Sorenson (IBqM/UFRJ), Edson Watanabe (COPPE/UFRJ) e  Rosemary Shinkai (PUCRS).

Referências

Global Research Council (GRC). Disponível em  http://www.globalresearchcouncil.org/meetings/2013-meeting Acesso em 13/09/2013.

Consultation on Policy Statement on Ensuring Research Integrity in Ireland. Irish Universities Association. [Viewed 16 September 2013]. Available from http://www.iua.ie/research-innovation/research-integrity/.

NOORDEN, RV. Global council aims to coordinate science. Nature, 2012, vol. 485, pp. 427.

NSF & NIH Requirements. Carnegie Mellon Home. [Viewed 16 September 2013]. Available from http://www.cmu.edu/research-compliance/responsible-conduct/nsf-nih-requirements.html.

RATCLIFFE, S. ed. Oxford Essential Quotations. Oxford: Oxford University Press, 2012. [Viewed 16 September 2013]. Available from http://www.oxfordreference.com/view/10.1093/acref/9780191735240.001.0001/q-oro-00010677

RINALDI A. For I dipped into the future. EMBO Rep., 2010, vol. 11, pp. 345–9.

3th  World Conference on Research Integrity. [Viewed 12 September 2013]. Available from http://www.wcri2013.org/overview_e.shtml.

Sonia VasconcelosSobre Sonia Vasconcelos

Professora do Programa de Educação, Gestão e Difusão em Biociências (PEGeD) do Instituto de Bioquímica Médica (IBqM) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Membro do Comitê de Ética e Pesquisa do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (CEP-HUCFF – UFRJ).  Link lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?metodo=apresentar&id=K4776286J6

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

VASCONCELOS, S. Integridade em pesquisa e o papel institucional: the time has come! [online]. SciELO em Perspectiva, 2013 [viewed ]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2013/09/19/integridade-em-pesquisa-e-o-papel-institucional-the-time-has-come/

 

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