Artigo propõe quatro pilares para a comunicação científica favorecer a velocidade e a qualidade da ciência

Imagem do artigo publicado no PeerJ PrePrints.

Imagem do artigo publicado no PeerJ PrePrints.

Até meados dos anos ’90, o fluxo da comunicação científica seguia o modelo clássico sequencial de redação, avaliação, publicação, indexação e disseminação, onde o foco do processo eram os periódicos científicos impressos. Com o advento da Internet, entretanto, este fluxo passa a se dar no formato digital no ambiente online de forma não sequencial, no qual a Web é o meio onde os processos convergem, e autores, pareceristas, editores e leitores interagem de forma dinâmica. A Web facilitou também o surgimento de novos produtos e formas de comunicação científica.

Desde então, os processos envolvidos nas etapas da publicação científica, desde a coleta de dados pelos pesquisadores, até a publicação em um periódico online, vem sofrendo profundas modificações que transcendem a simples mudança da versão impressa para a versão online dos periódicos. Movimentos como o do Acesso Aberto que emergiu nos países desenvolvidos no início dos anos 2000, o surgimento de repositórios temáticos e institucionais de artigos, e novas formas de conduzir o processo de peer-review impõem uma nova ótica sobre a publicação científica em todo o mundo.

Byrnes et al. (2013) propõem um debate sobre o que denominam os quatro pilares para um futuro mais aberto da  comunicação científica: ampliação dos produtos e formatos de comunicação científica; a publicação imediata em acesso aberto; o processo aberto de peer review;  e o amplo e público reconhecimento deste processo, dos produtos e dos acadêmicos. Os autores identificam que estes pilares têm um fundamento comum na necessidade de convergir os produtos que contribuirão para aumentar a velocidade e a qualidade do empreendimento científico.

O programa da Conferência SciELO 15 Anos alinha-se com este debate.

Ampliação dos produtos e formatos de comunicação científica

O produto da pesquisa que apresenta maior reconhecimento por parte da comunidade acadêmica é o artigo científico. Trata-se de uma monocultura sob a qual outros produtos e formas de comunicação que vêm adquirindo um papel importante na comunicação de pesquisas como blogs, softwares, sistemas de visualização de dados, fluxos de trabalho, etc. são considerados de segunda categoria e não são reconhecidos formalmente nos registros acadêmicos.  Como todos estes produtos contribuem para a comunicação de resultados da pesquisa, esta situação deverá mudar em prol do avanço da ciência.

Publicação imediata

O processo de avaliação por pares é tão antigo quanto as primeiras publicações acadêmicas do século XVII e constitui um componente essencial da comunicação científica até os dias de hoje, pois assegura a qualidade da comunicação e faz progredir o conhecimento o conhecimento científico. O trabalho de avaliação, entretanto, é demorado e pode levar de algumas semanas a anos, pois fazem parte da equação o número (sempre crescente) de periódicos existentes, o número potencial de pareceristas, o prestígio do periódico, e a qualidade da avaliação realizada. A lentidão desta etapa que é a mais crítica do processo de publicação pode trazer inúmeras consequências prejudiciais aos autores e a todos os que se beneficiam direta ou indiretamente do conhecimento gerado pela pesquisa científica.

Com o intuito de prover uma resposta para esta questão, pesquisadores da área de ecologia e biologia da evolução criaram a iniciativa PeerJ, um publisher de artigos acadêmicos em Acesso Aberto, a exemplo do PLoS ONE e o repositório de artigos na área de física, matemática e ciências da computação arXiv. PeerJ tem por objetivo diminuir os custos de publicação e melhorar o processo de comunicação científica provendo os autores com um canal de publicação em Acesso Aberto dinâmico, e flexível. Além do periódico PeerJ cujos artigos são submetido à avaliação por pares, a iniciativa conta também com o repositório de artigos PeerJPreprints, no qual autores podem submeter seus manuscritos em formato preliminar, podendo receber comentários e sugestões de outros autores, e uma vez concluídos, podem submete-los ao periódico. Estas iniciativas compartilham a política de publicação baseada não em impacto ou inovação, porém em metodologia, rigor científico e integridade editorial.

Byrnes et al. (2013), como comprova a publicação do referido artigo no PeerJPreprints, acreditam que a imediata disponibilização da produção cientifica ainda não submetida à peer review em repositórios de arquivos é a pedra fundamental do futuro da publicação acadêmica, principalmente por permitir a rápida disseminação do conhecimento.

Processo aberto de peer review

Os editores tem em suas mãos a decisão de definir como será o processo de peer review de seus periódicos. Os formatos mais frequentes são o denominado cego, no qual o parecerista permanece anônimo, mas tem acesso aos nomes e identificação dos autores e o denominado duplo-cego, no qual os pareceristas e autores permanecem anônimos. Com o anonimato, o parecerista tem a liberdade de fazer comentários e críticas, ou mesmo rejeitar um trabalho mais livremente, não temendo constrangimentos ou represálias.

Este processo, entretanto, como foi dito anteriormente, é moroso e apresenta inúmeras desvantagens, pois não está livre de preconceitos, questões pessoais ou de rivalidade, mau julgamento ou viés, muitas vezes não intencionais (Ho et al., 2013). Uma alternativa proposta por Kriegeskorte (2012) é a avaliação aberta, em analogia ao termo Acesso Aberto. Esta modalidade de avaliação consiste na publicação dos comentários dos pareceristas como parte do artigo, ou em páginas Web ou blogs mantidos pelo periódico, e apresenta como vantagem a valorização de um minucioso e especializado trabalho de análise por parte do parecerista, que acaba descartado quando é concluído o processo editorial. Este formato serviria inclusive para dar o devido crédito aos pesquisadores que dedicam seu conhecimento e tempo em uma atividade não remunerada essencial à comunicação científica. Alguns periódicos como Plos ONE, F100 Research e PeerJ já oferecem aos autores a opção da publicação dos comentários dos pareceristas.

Reconhecimento público dos pareceristas

A qualidade dos artigos científicos passa pela metodologia de pesquisa, a boa redação do manuscrito, um processo criterioso de avaliação  e a visão do todo pelo editor que tem a palavra final sobre a publicação.

A contribuição intelectual que faz o parecerista ao artigo é de grande peso dentre as variáveis acima relacionadas; todavia, nem sempre esta contribuição é da qualidade esperada. O processo de avaliação aberta pretende fazer o justo reconhecimento público dos pareceristas e seus pareceres de qualidade, aqueles que contribuem significativa e positivamente para melhorar a qualidade dos artigos.  Assim, poderá ter início um amplo processo de debate envolvendo mais atores do que dois ou três pareceristas e avaliações fechadas, do qual toda a comunidade científica poderá se beneficiar, especialmente os pareceristas e o sistema de peer-review.

Estes quatro pilares, concluem os autores, contribuirão para um sistema com maior rapidez na descoberta de informação e para uma ciência mais vibrante intelectualmente.

Referências

BYRNES., et al. The four pillars of scholarly publishing: the future and a foundation. PeerJ PrePrints, 2013, vol. 1, p. e11v1. [cited 29 July 2013] Available from: http://dx.doi.org/10.7287/peerj.preprints.11v1

HO, R.C., MAK, K.K., TAO, R., LU, Y., DAY, J.R. and PAN, F. Views on the peer review system of biomedical journals: an online survey of academics from high-ranking universities.

BMC Med Res Methodol, 2013, vol. 13, p. 74. [cited 29 July 2013] Available from: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3685540/?tool=pubmed

IOANNIDIS, J.A. Effect of the statistical significance of results on the time to completion and publication of randomized efficacy trials. JAMA: The Journal of the American Medical Association, 1998, vol. 279, p. 281–286.

KRIEGESKORTE, N. Open evaluation: a vision for entirely transparent post-publication peer review and rating for science. Frontiers in computational neuroscience, 2012, vol. 6, p. 79. [cited 29 July 2013] Available from: http://www.frontiersin.org/Computational_Neuroscience/10.3389/fncom.2012.00079/full

ONITILO, A. A., ENGEL J. M., SALZMAN-SCOTT, S. A., STANKOWSKI, R. V. and DOI, S. A. R.

Reliability of Reviewer Ratings in the Manuscript Peer Review Process: An Opportunity for Improvement. Account Res.,  2013, vol. 20, nº. 4, p. 270-284. Available from: doi: 10.1080/08989621.2013.804345.

 

lilianSobre Lilian Nassi-Calò

Lilian Nassi-Calò é química pelo Instituto de Química da USP e doutora em Bioquímica pela mesma instituição, a seguir foi bolsista da Fundação Alexander von Humboldt em Wuerzburg, Alemanha. Após concluir seus estudos, foi docente e pesquisadora no IQ-USP. Trabalhou na iniciativa privada como química industrial e atualmente é Coordenadora de Comunicação Científica na BIREME/OPAS/OMS e colaboradora do SciELO.
 

Tradução do original em inglês por Lilian Nassi-Calò.

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

NASSI-CALÒ, L. Artigo propõe quatro pilares para a comunicação científica favorecer a velocidade e a qualidade da ciência [online]. SciELO em Perspectiva, 2013 [viewed ]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2013/07/31/artigo-propoe-quatro-pilares-para-a-comunicacao-cientifica-para-favorecer-a-velocidade-e-a-qualidade-da-ciencia/

 

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